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Novo tratamento sem quimioterapia para câncer de mama: se não tem quimio, a boca fica livre?

Resposta direta

Não fica livre, mas o risco muda de natureza. Sem quimioterapia, cai muito o risco de mucosite grave e de infecção por imunidade baixa. Em compensação, terapia-alvo e hormonioterapia têm efeitos próprios na boca: aftas, estomatite e boca seca, que costumam durar enquanto durar o tratamento.

Por Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista bucomaxilofacial · odontologia hospitalar (Albert Einstein) · CRO-PR 16853
Publicado em 25/08/2026 · Atualizado em 25/08/2026

Circulou nos últimos dias uma notícia que animou muita gente: pesquisadores da Icahn School of Medicine at Mount Sinai, nos Estados Unidos, publicaram resultados de um estudo que testou uma combinação de quatro medicamentos sem quimioterapia — anastrozol, palbociclibe, trastuzumabe e pertuzumabe — em mulheres com câncer de mama metastático HR-positivo e HER2-positivo.

Os números divulgados são animadores: entre as 29 participantes, 97% tiveram benefício clínico nos primeiros seis meses, a mediana de tempo sem progressão foi de cerca de 24,9 meses e, após aproximadamente 39 meses de seguimento, 93% seguiam vivas.

Antes de qualquer coisa, o contexto honesto: é um estudo de fase 1/2, com número pequeno de participantes e sem comparação direta com o tratamento padrão. Os próprios autores tratam os resultados como preliminares. Nada aqui substitui a conversa com o oncologista, e nenhum tratamento deve ser mudado por causa de uma notícia.

Dito isso, a pergunta que chegou aqui no consultório — mais de uma vez esta semana — é outra: “se o tratamento é sem quimioterapia, minha boca está livre?”

Sem quimioterapia, o que realmente melhora na boca?

Bastante coisa, e vale reconhecer.

A quimioterapia clássica ataca células que se dividem rápido — e a mucosa que reveste a boca é uma das que mais se dividem no corpo. Daí a mucosite, as feridas na boca, que segundo o National Cancer Institute (NCI) fazem parte do grupo de complicações bucais que atinge cerca de 40% dos pacientes em quimioterapia convencional.

Sem quimioterapia:

Isso é ganho real de qualidade de vida, e não é pouco.

E o que continua acontecendo?

Aqui está a parte que a manchete não conta.

Terapia-alvo e hormonioterapia têm efeitos bucais próprios, diferentes dos da quimio — e, em geral, mais longos, porque esses tratamentos costumam ser usados de forma contínua por meses ou anos.

Ou seja: o risco não desaparece, ele troca de forma. Sai o risco agudo e explosivo da quimio; entra um risco crônico, de baixa intensidade e longa duração — que incomoda menos por dia e mais por ano.

Por que isso importa para quem está em tratamento agora

Porque o manejo precoce de uma afta de terapia-alvo pode ser a diferença entre continuar a dose e ter que interrompê-la. Interromper um tratamento que está funcionando por causa de uma lesão na boca é um desfecho ruim — e evitável.

Duas atitudes práticas:

  1. Chegar com a boca em ordem. Vale para qualquer tratamento, inclusive os sem quimio: base saudável, sem foco de infecção, com higiene que funcione. É o que o Preparo Para o Tratamento (PPT) organiza.
  2. Ter um canal aberto para agir na primeira lesão, sem esperar a próxima consulta do oncologista. É exatamente isso que o Mãos Dadas faz durante o tratamento.

E vale repetir a regra que orienta tudo o que escrevemos aqui: a boca entra na conta em todo tipo de câncer, com quimioterapia ou sem ela. Muda o que se previne, não se há o que prevenir. O caso específico do câncer de mama está em quimioterapia de câncer de mama afeta a boca?.

Perguntas rápidas

Esse tratamento do estudo já está disponível no Brasil? Os medicamentos existem e são usados em outras combinações, mas o esquema testado é de estudo em fase inicial. Quem decide o que se aplica ao seu caso é o oncologista.

Se eu faço só hormonioterapia, preciso de dentista? Precisa de acompanhamento, sim — sobretudo pela boca seca, que aumenta o risco de cárie ao longo dos anos de uso.

Aftas de terapia-alvo se tratam como afta comum? Não necessariamente. A conduta considera o medicamento em uso, a gravidade e o risco de interromper a dose. Autotratamento com produtos irritantes costuma piorar.

Imunoterapia entra na mesma lógica? Entra, com efeitos próprios. Veja imunoterapia afeta a boca?.

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Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual nem as orientações da sua equipe oncológica.

Fontes: Estudo NCT03304080 — Anastrozole, Palbociclib, Trastuzumab and Pertuzumab in HR+/HER2+ Metastatic Breast Cancer (ClinicalTrials.gov); Metrópoles — Cientistas criam tratamento sem quimioterapia para câncer de mama (24/08/2026); NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; Elad et al., Cancer, 2020 — MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines for Mucositis.