TRAVESSIAODONTOLOGIA ONCOLÓGICA
WhatsApp

Durante o tratamento

Terapia-alvo afeta a boca? O guia das aftas causadas pelos comprimidos-alvo

Publicado em Atualizado em Leitura aproximada: 8 minutos

Resposta direta

Sim, algumas terapias-alvo afetam a boca. Os inibidores de mTOR, como o everolimo, podem causar aftas dolorosas já nas primeiras semanas — diferentes da mucosite da quimioterapia. Um bochecho de corticoide prescrito pela equipe previne a maioria dos casos graves. Avise seu time de saúde ao primeiro sinal de ferida.

Nem todo tratamento de câncer chega por soro na veia. Cada vez mais pessoas tratam com comprimidos tomados em casa — as chamadas terapias-alvo, que atacam alterações específicas das células do tumor. E aí vem a surpresa que ninguém contou na farmácia: alguns desses comprimidos mexem com a boca. Não do jeito da quimioterapia clássica — de um jeito próprio, com cara de afta, que tem nome, tem explicação e, o mais importante, tem prevenção.

O que é terapia-alvo e por que ela mexe com a boca?

Terapia-alvo é o grupo de medicamentos que age sobre um “alvo” específico da célula do câncer — uma proteína, um receptor, uma via de crescimento. Diferente da quimioterapia, que atinge todas as células que se multiplicam rápido, a terapia-alvo é mais seletiva. Só que alguns desses alvos também existem em células saudáveis — inclusive nas células que revestem a boca.

É por isso que a boca entra na conversa. E vale a nossa precisão de sempre: isso pode acontecer em qualquer tipo de câncer tratado com esses medicamentos — câncer de mama, de rim, tumores neuroendócrinos e vários outros. O que define o efeito na boca não é o tumor: é o remédio.

Que feridas os inibidores de mTOR (everolimo) causam?

O exemplo mais estudado é o dos inibidores de mTOR — everolimo e tensirolimo, usados em câncer de mama, de rim e outros tumores. Eles podem causar a chamada estomatite associada a inibidor de mTOR (mIAS, na sigla em inglês): feridas que parecem aftas — redondas ou ovais, dolorosas, com borda avermelhada — em geral nas partes “moles” da boca, como bochechas, lábios e laterais da língua.

Os números explicam por que isso merece atenção: no estudo que aprovou o everolimo para câncer de mama, cerca de 2 em cada 3 pacientes tiveram algum grau de estomatite (Rugo et al., Lancet Oncology, 2017). E ela chega cedo: a maioria dos episódios aparece nas primeiras 2 semanas de tratamento — muitas vezes antes da primeira consulta de retorno.

A diferença para a mucosite da quimioterapia importa, porque o cuidado muda:

Aftas da terapia-alvo (mIAS)Mucosite da quimioterapia
AparênciaFeridas pequenas, redondas, parecidas com aftas comunsVermelhidão e feridas mais espalhadas e irregulares
Quando aparecePrimeiras 1-2 semanas do comprimidoAlguns dias após cada ciclo de quimio
OndeBochechas, lábios, laterais da línguaToda a mucosa, podendo incluir garganta
Prevenção com mais evidênciaBochecho de corticoide prescritoHigiene suave, gelo em alguns protocolos, laser em centros que oferecem

O guia completo da mucosite clássica está em feridas na boca na quimioterapia.

Existe prevenção que funciona?

Existe — e é uma das boas notícias mais sólidas da odontologia oncológica recente. O estudo SWISH testou um bochecho de corticoide (dexametasona), sem álcool, usado desde o primeiro dia do everolimo. O resultado: as estomatites moderadas a graves caíram para 2,4% dos pacientes, contra cerca de 33% no histórico de quem não fez a prevenção (Rugo et al., 2017) — uma redução de mais de dez vezes.

Por isso, as diretrizes internacionais MASCC/ISOO (Elad et al., Cancer, 2020) recomendam o bochecho de corticoide para prevenir as aftas de quem vai começar inibidor de mTOR.

Dois recados importantes, porque aqui mora um risco:

  1. Isso é prescrição, não receita caseira. O bochecho tem fórmula, concentração e tempo de uso definidos pela equipe — e o uso prolongado de corticoide na boca sem acompanhamento pode favorecer infecções como o sapinho (candidose).
  2. Não é o mesmo bochecho para tudo. O corticoide previne as aftas do inibidor de mTOR; ele não é a prevenção padrão da mucosite da quimioterapia. Cada ferida tem seu caminho.

E os outros comprimidos-alvo? Quais mais afetam a boca?

Cada família tem seu jeito de aparecer na boca:

  • Inibidores de EGFR (usados em câncer de pulmão, intestino e outros) podem causar feridas na boca e inflamação, geralmente mais leves que as da quimioterapia.
  • Inibidores de multiquinase, como sunitinibe e sorafenibe (câncer de rim, fígado e outros), estão ligados a sensibilidade e ardência na boca e a mudanças no paladar — a comida “perde a graça” ou ganha gosto estranho. O que ajuda no dia a dia está em gosto de metal: o que alivia.
  • Medicamentos antiangiogênicos (que cortam a irrigação do tumor) têm relatos de associação com a osteonecrose dos maxilares por medicamento, especialmente quando combinados às medicações para os ossos — o assunto é sério e tem guia completo aqui.
  • Imunoterapia não é terapia-alvo, mas a dúvida costuma vir junto — e tem resposta própria.

Segundo o NCI, as complicações orais das terapias contra o câncer variam com o medicamento, a dose e a boca de cada pessoa — por isso a avaliação individual vale mais que qualquer lista.

O que fazer se a afta aparecer durante a terapia-alvo?

O roteiro é simples e começa no mesmo dia:

  1. Avise a equipe do tratamento — oncologista e dentista que acompanha. Ferida de terapia-alvo tem tratamento próprio, e quanto antes começa, menos dói. Em alguns casos, a equipe médica ajusta o esquema do remédio; essa decisão é sempre dela.
  2. Mantenha a higiene suave: escova extramacia, creme dental sem sabores agressivos, fio dental com delicadeza.
  3. Evite o que arde: álcool (inclusive em enxaguantes), ácidos, pimenta, comidas quentes e ásperas.
  4. Não trate por conta própria — pomadas de uso livre, pastilhas anestésicas e receitas da internet podem mascarar o quadro e atrasar o cuidado certo.

E se a ferida vier com febre, impedir de comer e beber, ou se espalhar rápido — vale a régua de urgência: febre e ferida na boca: quando correr.

O dentista entra onde nessa história?

Antes, durante e depois — como em todo tratamento de câncer. Antes de começar o comprimido, uma avaliação identifica e resolve focos de problema que poderiam inflamar no meio do caminho. Durante, o acompanhamento percebe a ferida no primeiro sinal, diferencia afta de infecção e trabalha junto com a oncologia na prevenção — inclusive na indicação do bochecho certo para o seu caso.

Quem está começando uma terapia-alvo e quer chegar com a boca preparada encontra esse cuidado no Programa de Preparo para o Tratamento. Quem já está no meio do caminho e quer a boca acompanhada de perto tem o Mãos Dadas.

Perguntas rápidas

Terapia-alvo causa os mesmos efeitos da quimioterapia na boca? Não. As feridas dos inibidores de mTOR parecem aftas comuns, chegam nas primeiras semanas e têm prevenção específica com bochecho de corticoide prescrito. A mucosite da quimioterapia é mais espalhada e segue o ritmo dos ciclos. Por isso o diagnóstico certo muda o cuidado.

Preciso parar o comprimido se aparecer afta? Não decida sozinho — nunca pare ou pule dose por conta própria. Avise a equipe: na maioria dos casos leves, o tratamento local resolve. Ajustes no esquema do medicamento, quando necessários, são decisão do oncologista.

Posso usar qualquer enxaguante para prevenir? Não. Enxaguantes com álcool ardem e pioram o desconforto. O bochecho preventivo que funcionou nos estudos é de corticoide, sem álcool, com prescrição e acompanhamento — e vale para inibidores de mTOR, não para todo tratamento.

Tomo comprimido-alvo e vou extrair um dente. Tem cuidado especial? Tem. Alguns alvo-terápicos interferem na cicatrização, e os antiangiogênicos pedem atenção especial ao osso. Leve à consulta o nome exato do seu medicamento — o planejamento muda com essa informação.

Continue lendo

O mapa geral dos efeitos do tratamento na boca está em quimioterapia e a boca: o guia completo, e a resposta para quem trata com imunoterapia está em imunoterapia afeta a boca?.


Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual.

Fontes: NCI PDQ — Oral Complications of Cancer Therapies; Rugo et al., Lancet Oncology, 2017 — estudo SWISH; Elad et al., Cancer, 2020 — MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines; MASCC/ISOO.

O cuidado desta fase

Informação para entender.
Presença para cuidar.

Conheça o Mãos Dadas — cuidado durante o tratamento Atendimento no WhatsApp
WhatsApp