Quase toda mulher que recebe o diagnóstico de câncer de ovário ouve falar de cabelo, de enjoo, de cansaço. Quase nenhuma ouve falar da boca. E aí, na segunda ou terceira sessão, aparece o gosto estranho, a boca que não desgruda, a ferida que arde na hora de comer.
Não é coincidência, e não é você fazendo algo errado.
Por que um tumor no abdome mexe com a boca?
Porque a quimioterapia é sistêmica: ela circula pelo corpo inteiro e atinge as células que se dividem depressa. As células que revestem a boca são exatamente assim — elas se renovam em poucos dias. Quando a renovação trava, a mucosa afina e fere.
Segundo o NCI PDQ, complicações na boca aparecem em cerca de 20% a 40% das pessoas em quimioterapia, qualquer que seja o órgão de origem do tumor. É o mesmo motivo pelo qual isso acontece no câncer de mama, de intestino ou de pulmão.
O que costuma aparecer
- Feridas na boca (mucosite) — ardência, dor ao comer, pontos avermelhados ou branco-amarelados. Como reconhecer e aliviar está em feridas na boca na quimioterapia
- Boca seca — a saliva fica mais espessa e escassa; sem ela, o esmalte perde proteção. Veja boca seca no tratamento do câncer
- Gosto metálico ou comida sem sabor — muito frequente com platinas como a carboplatina. O que ajuda está em gosto de metal na quimioterapia
- Sensibilidade nos dentes, sobretudo em quem tem refluxo ou enjoa com frequência
- Risco de infecção nos dias de defesa baixa — gengiva inflamada e cárie profunda viram urgência
O detalhe que muda o planejamento: bevacizumabe
Muitos esquemas de câncer de ovário incluem o bevacizumabe, um medicamento antiangiogênico — ele age justamente reduzindo a formação de novos vasos sanguíneos que alimentam o tumor.
Esse mecanismo tem uma consequência conhecida na boca: o bevacizumabe está entre os medicamentos associados à osteonecrose dos maxilares, sobretudo quando há extração dentária ou infecção durante o uso. O risco é maior ainda se houver medicação para os ossos no plano.
Na prática, isso significa uma coisa muito concreta: resolver os problemas dentários antes de começar, enquanto a extração ainda é um procedimento simples. É a mesma lógica que explicamos em medicação para os ossos e dentes.
O que fazer agora
Se o tratamento ainda não começou, o passo é ir ao dentista antes da quimioterapia — e avisar quais medicamentos entram no esquema, inclusive o bevacizumabe. Se já começou, nada está perdido: higiene delicada com escova extramacia, hidratação constante, bochechos sem álcool e acompanhamento profissional durante o tratamento resolvem a maior parte do desconforto.
Na Travessia, esse cuidado durante o tratamento é o Mãos Dadas.
Perguntas rápidas
Posso ir ao dentista no meio da quimioterapia do ovário? Pode, e deve. Procedimentos com sangramento são agendados conforme o hemograma, em geral nos dias de recuperação entre os ciclos.
A boca volta ao normal depois? Na maioria das vezes, sim. As feridas cicatrizam em poucas semanas após o fim dos ciclos e o paladar costuma voltar aos poucos.
Se eu uso bevacizumabe, posso extrair um dente? Não é proibido, mas é planejado junto com a equipe oncológica, com pausa e protocolo definidos. Nunca de improviso.
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Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual.
Fontes: NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; Elad et al., Cancer, 2020 — MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines; INCA — Instituto Nacional de Câncer.