De onde vem esse medo?
Da palavra “radiação” — e do silêncio ao redor dela. Muitas famílias passam semanas evitando abraços, afastando netos e dormindo em camas separadas por um receio que ninguém teve coragem de perguntar em voz alta: “será que ele está radioativo?”
A resposta merece ser dita com todas as letras, porque devolve algo precioso no meio do tratamento: o toque.
A radioterapia externa deixa a pessoa radioativa?
Não. Na radioterapia externa (teleterapia) — a forma mais comum, usada na maioria dos tratamentos, inclusive os da região da boca, cabeça e pescoço —, a máquina emite o feixe, a radiação atravessa o corpo, age no tumor e acaba ali. Segundo o National Cancer Institute (NCI), a radioterapia externa não torna a pessoa radioativa: nada “fica” no corpo, nada é transmitido pelo suor, pela saliva ou pelo abraço.
Isso significa que, do ponto de vista da radiação:
- Pode abraçar e beijar — no mesmo dia da sessão;
- Pode segurar bebês e netos no colo;
- Pode conviver com grávidas;
- Pode dormir na mesma cama de sempre.
Quando existem precauções de verdade?
Apenas quando o material radioativo entra dentro do corpo — situações específicas, sempre explicadas pela equipe:
- Braquiterapia com sementes permanentes (usada, por exemplo, em alguns tratamentos de próstata): as sementes emitem radiação fraca e decrescente por um período, e a equipe pode orientar limites temporários de contato muito próximo e prolongado com crianças e grávidas;
- Iodo radioativo (usado em alguns tratamentos de tireoide): há um período curto de precauções com proximidade, utensílios e banheiro, todo detalhado na alta.
Nesses casos, as orientações têm prazo e regra claros — e terminam. Se houver dúvida sobre qual é o seu caso, pergunte à equipe de radioterapia: essa pergunta é comum, esperada e bem-vinda.
Por que isso importa tanto para a boca — e para a travessia?
Porque quem faz radioterapia na região da boca enfrenta semanas de feridas na boca, boca seca e cansaço — e atravessar isso sem abraço é infinitamente mais difícil. O medo infundado da “radiação no corpo” rouba das famílias justamente o remédio que nenhuma farmácia vende.
Então fica o recado para quem cuida: chegue perto. O toque é seguro — e é cuidado. Para entender o que mais acontece na boca durante esse tratamento, o nosso guia completo da radioterapia e a boca explica passo a passo, e o programa Mãos Dadas acompanha a boca — e a pessoa — durante todas as sessões.
Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista — CRO-PR 16853, com atuação em odontologia oncológica.
Fontes: National Cancer Institute — External Beam Radiation Therapy for Cancer / Radiation Therapy Side Effects; American Cancer Society — Radiation Therapy Safety; INCA — Perguntas frequentes sobre radioterapia.
Perguntas rápidas
Posso conviver com crianças e grávidas durante a radioterapia externa? Pode, normalmente. A radiação da radioterapia externa age apenas durante a sessão e não permanece no corpo.
Quando existem precauções de contato? Nos tratamentos com material radioativo dentro do corpo, como braquiterapia com sementes ou iodo radioativo — nesses casos, a própria equipe orienta prazos e distâncias.
A radioterapia na cabeça e pescoço afeta a boca? Sim, quando o campo inclui essa região: saliva, mucosa e osso sentem. Por isso a avaliação odontológica antes de começar faz parte do tratamento.