O que Netinho contou
Ao completar 60 anos, em 15 de julho, o cantor Netinho atualizou os fãs sobre o tratamento de um linfoma raro (câncer do sistema linfático) que reapareceu em maio. Ele relatou ter concluído a quarta de dezesseis sessões de quimioterapia, sem efeitos colaterais significativos até ali, e comemorou a boa resposta do organismo. Ainda há doze sessões pela frente, e ele já falou em voltar aos palcos quando terminar essa fase.
Desejamos a ele uma boa travessia. E, como o próprio Netinho tornou pública essa contagem de sessões, ela abre uma conversa que vale para muita gente — sem comentar detalhes da saúde dele, que só a equipe que o acompanha conhece. A pergunta que muitos pacientes fazem ao ver um protocolo com tantas sessões é simples e legítima: a boca aguenta um tratamento tão longo?
Como a boca atravessa um protocolo longo de quimioterapia
A quimioterapia age no corpo inteiro e afeta a boca em qualquer tipo de câncer — não só no linfoma —, porque circula pela corrente sanguínea e alcança a mucosa independentemente de onde está o tumor. Explicamos isso em detalhe no guia da quimioterapia e a boca.
Num tratamento com muitas sessões, os efeitos na boca costumam seguir dois padrões diferentes:
- Efeitos que vêm e vão a cada ciclo. A mucosite (as feridas na boca) geralmente aparece alguns dias depois de uma sessão, num período em que a imunidade cai ao ponto mais baixo, e tende a cicatrizar antes do ciclo seguinte. Ou seja, ela não se soma indefinidamente: cada ciclo tem sua própria janela mais sensível, e a boca costuma se recuperar no intervalo.
- Efeitos que podem se acumular ao longo dos meses. A boca seca e a alteração no paladar — aquele gosto de metal ou a comida “sem graça” — podem persistir e incomodar mais quanto mais longo o tratamento. São desconfortos que mexem com a alimentação e, por isso, merecem atenção constante.
O ponto tranquilizador é que atravessar muitas sessões não significa acumular sofrimento na boca sessão após sessão. Significa que o cuidado precisa acompanhar o tratamento inteiro, ajustando-se às fases mais delicadas de cada ciclo.
Por que o cuidado precisa durar o tratamento todo
Quando o tratamento é longo, o erro mais comum é cuidar da boca só no começo e relaxar depois. Mas cada ciclo reabre a janela de vulnerabilidade — a imunidade volta a cair, a mucosa volta a ficar frágil. Manter a rotina de proteção do primeiro ao último ciclo é o que mantém a boca funcionando: higiene delicada com escova extramacia, hidratação, bochechos sem álcool e vigilância a sinais de alerta.
Há um motivo prático e importante para isso: quem não consegue comer, enfraquece — e o tratamento inteiro sente. Uma boca dolorida atrapalha a alimentação bem no momento em que o corpo mais precisa de energia para responder à quimioterapia. Cuidar da boca, nesse sentido, é cuidar da força para completar todas as sessões.
Também vale ficar atento aos sinais que pedem ajuda sem esperar a próxima consulta: febre junto com feridas na boca, dor que impede comer ou beber, feridas que crescem ou placas esbranquiçadas (que podem indicar infecção associada, tratável). Nesses casos, avise sua equipe e procure um dentista com atuação em oncologia.
O acompanhamento que sustenta a boca até o fim
Na TRAVESSIA, acompanhar a boca ao longo de todo o tratamento — prevenindo e tratando a mucosite ciclo a ciclo, controlando a dor, cuidando da boca seca e do paladar — é o coração do programa Mãos Dadas. A ideia é justamente essa: em um tratamento de muitas sessões, ninguém deveria atravessar cada ciclo sozinho, tateando no escuro em relação à própria boca.
A todos que estão contando sessões como Netinho — a quarta, a décima, a última —, o nosso desejo é o mesmo: uma boa travessia, com a boca cuidada até o fim.
Perguntas rápidas
Quanto mais sessões de quimioterapia, pior fica a boca? Não exatamente. As feridas costumam surgir e cicatrizar a cada ciclo, sem se somar indefinidamente. Alguns efeitos, como boca seca e alteração no paladar, podem persistir mais em tratamentos longos, mas todos têm prevenção e alívio quando acompanhados de perto.
Se passei bem nas primeiras sessões, posso relaxar com a boca? É melhor não. Cada ciclo reabre a fase de imunidade baixa e mucosa sensível. Manter a rotina de cuidado do começo ao fim é o que evita sustos nas sessões seguintes.
A quimioterapia do linfoma afeta a boca de forma diferente? O mecanismo é o mesmo de qualquer câncer tratado com quimioterapia: a medicação circula pelo corpo e atinge a mucosa da boca. O que muda de pessoa para pessoa são os medicamentos usados e a intensidade dos efeitos — por isso o acompanhamento é individual.
Revisado pela Dra. Jossânia, cirurgiã-dentista (CRO-PR), com atuação em odontologia oncológica.
Fontes: National Cancer Institute — PDQ Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation (Health Professional Version); MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines (Elad et al., Cancer, 2020). Informações sobre o cantor Netinho: Correio 24 Horas e Vagalume (julho de 2026).