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Cada tratamento pede um preparo diferente: o que o dentista resolve antes da quimio, da radio, do transplante e da medicação óssea

Resposta direta

O preparo da boca muda conforme o tratamento. Na quimioterapia, o alvo é infecção e mucosa. Na radioterapia da região da boca, é o osso e a saliva, para a vida toda. No transplante de medula, é imunidade zerada. Na medicação óssea, é evitar extrações depois. Cada um tem sua janela de tempo.

Por Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista bucomaxilofacial · odontologia hospitalar (Albert Einstein) · CRO-PR 16853
Publicado em 24/08/2026 · Atualizado em 24/08/2026

Quase toda semana alguém chega ao consultório com a mesma frase: “o médico falou para eu ir ao dentista antes de começar.” E quase sempre vem a pergunta seguinte, que é a pergunta certa: antes de começar o quê, exatamente?

Porque “tratamento de câncer” não é uma coisa só. Quimioterapia, radioterapia, transplante de medula, imunoterapia, terapia-alvo e medicação para os ossos são caminhos diferentes, com riscos diferentes para a boca — e, por isso, com preparos diferentes.

Este guia existe para responder essa pergunta com precisão. Não o que “sempre” se faz, mas o que o seu tratamento específico pede.

Uma coisa vale para todos: segundo o National Cancer Institute (NCI), cerca de 40% dos pacientes em quimioterapia convencional desenvolvem alguma complicação bucal, número que sobe para praticamente 100% de quem faz radioterapia na região da cabeça e do pescoço e para cerca de 80% de quem passa por transplante de medula com condicionamento de altas doses. A boca não é detalhe em nenhum dos caminhos. Ela só é ameaçada de formas diferentes em cada um.

O quadro comparativo (a versão rápida)

TratamentoO que mais ameaça a bocaO foco do preparoJanela ideal antes de começar
QuimioterapiaMucosite (feridas) + queda de imunidade e de plaquetasEliminar focos de infecção e deixar a higiene viável7 a 10 dias antes da 1ª dose (para cicatrizar extrações)
Radioterapia na região da boca/cabeça/pescoçoPerda de saliva, cárie de radiação, osteorradionecroseDecisões definitivas sobre dentes de prognóstico ruim + moldeira de flúor14 a 21 dias antes (o osso precisa cicatrizar)
Transplante de medula (TMO)Imunidade praticamente zerada + DECHZero foco infeccioso tolerado; critério mais rígido de todosAntes do condicionamento, com folga
Medicação óssea (bisfosfonato/denosumabe)Osteonecrose dos maxilares (MRONJ)Resolver tudo que exigiria extração no futuroAntes da 1ª dose, sempre que possível
ImunoterapiaAftas/estomatite, boca seca, alterações da mucosaBase saudável + monitoramento contínuoAntes de começar, sem urgência cirúrgica
Terapia-alvo (comprimidos)Aftas dolorosas, alterações do paladarBase saudável + orientação de manejo precoceAntes de começar
Cirurgia oncológicaInfecção no pós-operatório, jejum, intubaçãoFocos infecciosos ativos e prótese soltaAntes da internação

Agora, o que está por trás de cada linha.

Antes da quimioterapia: o inimigo é a infecção

A quimioterapia derruba, ao mesmo tempo, três coisas: a mucosa que reveste a boca, os glóbulos brancos que combatem infecção e as plaquetas que fazem o sangue coagular. Um dente com infecção crônica que hoje não dói pode virar, no meio de um ciclo, uma infecção grave em alguém sem defesa para contê-la.

O que se resolve antes:

O que não precisa ser feito antes: clareamento, ortodontia estética, troca de restauração só por estética. Nada disso é urgência — e o tempo antes da primeira dose é curto.

Guia completo do cluster: quimioterapia e a boca.

Antes da radioterapia na região da boca, cabeça e pescoço: o inimigo é o osso e a saliva

Aqui muda tudo. E é preciso dizer com clareza: a radioterapia só afeta a boca quando o campo de irradiação inclui a região da boca, cabeça ou pescoço. Radioterapia de mama, de próstata ou de pelve não irradia glândula salivar nem mandíbula — quem está nesse grupo encontra a explicação em a radioterapia sempre afeta a boca?.

Quando o campo inclui a região, o preparo é o mais definitivo de todos os tratamentos, porque duas mudanças são permanentes:

  1. A glândula salivar irradiada produz menos saliva — e menos saliva significa cárie que avança em velocidade que nenhum paciente reconhece como sua. É a cárie de radiação.
  2. O osso irradiado perde capacidade de cicatrizar. Uma extração feita anos depois, no osso que recebeu dose alta, pode não fechar — é a osteorradionecrose.

Por isso o preparo antes da radioterapia responde a uma pergunta dura: quais dentes têm prognóstico ruim o suficiente para que valha a pena tirá-los agora, antes que o osso perca a capacidade de cicatrizar? A diretriz ISOO-MASCC-ASCO de 2024 recomenda evitar extrações em regiões que receberam 50 Gy ou mais sempre que houver alternativa terapêutica — o que explica por que essa decisão é tomada antes, e não depois.

O que se resolve antes:

E o que não se faz: arrancar todos os dentes por precaução. Esse é o mito mais persistente e mais caro da área — desmontado em vou ter que arrancar todos os dentes?.

Guia completo: preparo da boca antes da radioterapia de cabeça e pescoço.

Antes do transplante de medula: o critério mais rígido de todos

No transplante de medula, o condicionamento leva a imunidade praticamente a zero por semanas. Não existe margem para “acompanhar e ver”. Segundo o NCI, a mucosite grave atinge até 80% dos pacientes nos regimes de altas doses, e a boca é uma das principais portas de entrada de infecção sistêmica nesse período.

O que muda em relação à quimioterapia comum:

Detalhes em transplante de medula e a boca.

Antes da medicação para os ossos: o preparo que protege os anos seguintes

Bisfosfonatos (ácido zoledrônico, alendronato) e denosumabe são usados quando o câncer atinge o osso ou para proteger o osso durante o tratamento hormonal. Eles reduzem fraturas e dor — e, em uma parcela dos pacientes, aumentam o risco de osteonecrose dos maxilares (MRONJ) quando uma extração é feita com a medicação em curso.

Aqui o preparo tem uma lógica diferente de todas as outras: não se trata de sobreviver aos próximos meses, mas de antecipar o que precisaria ser extraído nos próximos anos.

O que se resolve antes da primeira dose:

E, importante: quem já começou a medicação não fica proibido de ir ao dentista — esse é outro mito perigoso, tratado em quem toma medicação para os ossos nunca mais pode ir ao dentista?. Guia completo do risco em osteonecrose por medicamento (MRONJ).

Antes da imunoterapia e da terapia-alvo: preparo sem urgência cirúrgica

Esses tratamentos não derrubam a imunidade da mesma forma que a quimioterapia clássica. O efeito bucal é outro: aftas e estomatite (frequentes na terapia-alvo, sobretudo nos inibidores de mTOR), boca seca e alterações da mucosa de origem imunológica.

O preparo, portanto, é menos cirúrgico e mais estratégico: chegar com a boca saudável e com um canal aberto para agir rápido quando a primeira afta aparecer, porque o manejo precoce evita a interrupção da dose. Veja imunoterapia e a boca e terapia-alvo e as aftas.

E se o tratamento já começou?

Acontece — e com frequência. O encaminhamento não veio, o diagnóstico foi rápido demais, ninguém falou de dentista. Isso não fecha a porta. O preparo passa a ser feito respeitando os intervalos entre ciclos e o hemograma, com prioridades reordenadas. O caminho está descrito em já comecei o tratamento e não fui ao dentista: ainda dá tempo?.

O que levar para a consulta, seja qual for o tratamento

Independentemente do caminho, três informações mudam completamente a conduta do dentista:

  1. Qual é o tratamento e quando começa — o protocolo, o número de ciclos, a data da primeira dose.
  2. Se haverá radioterapia e em que região — e, se possível, a dose e o campo.
  3. A lista de medicamentos, especialmente medicação óssea, anticoagulante e corticoide.

A lista completa está em o que levar na primeira consulta.

É exatamente esse trabalho — ler o protocolo, conversar com a equipe oncológica e montar o preparo que o seu tratamento pede, dentro do tempo que existe — que o Preparo Para o Tratamento (PPT) organiza. Não é uma consulta de rotina com outro nome. É um plano feito para a janela que você tem.

Perguntas rápidas

Se eu vou fazer quimio e radioterapia juntas, qual preparo vale? O mais rigoroso dos dois. Quando há radioterapia na região da boca, cabeça ou pescoço, o preparo segue a lógica da radioterapia — porque as consequências no osso e na saliva são as permanentes.

Tenho pouquíssimo tempo até a primeira dose. Vale a pena ir? Vale, e muda o desfecho. Mesmo com poucos dias, dá para eliminar o foco mais grave, remover o que machuca e ensinar a higiene que atravessa os ciclos. Prioriza-se o que não pode esperar.

Meu dentista de sempre pode fazer esse preparo? Pode, desde que dialogue com a equipe oncológica e conheça as janelas de tempo e os limites de cada tratamento. O ponto está detalhado em meu dentista de sempre pode me preparar?.

Preciso repetir esse preparo se o tratamento mudar? Sim. Mudança de protocolo — entrada de radioterapia, indicação de transplante, início de medicação óssea — muda o risco da boca e pede uma reavaliação.

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Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual nem as orientações da sua equipe oncológica.

Fontes: NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; Watson et al., J Clin Oncol, 2024 — Prevention and Management of Osteoradionecrosis: ISOO-MASCC-ASCO Guideline; Elad et al., Cancer, 2020 — MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines; INCA — Instituto Nacional de Câncer.