TRAVESSIA odontologia oncológica Agendar

Meu oncologista não me encaminhou ao dentista. Preciso ir mesmo assim?

Resposta direta

Sim, vale ir por conta própria. A ausência de encaminhamento não significa que a boca não precise de avaliação — na maioria das vezes reflete a falta de um dentista na equipe. As diretrizes internacionais recomendam avaliação odontológica antes do início do tratamento, e ela não atrasa nem interfere no plano oncológico.

Por Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista bucomaxilofacial · odontologia hospitalar (Albert Einstein) · CRO-PR 16853
Publicado em 29/07/2026 · Atualizado em 29/07/2026

A resposta curta

Sim — procure. Você não precisa de encaminhamento formal para consultar um cirurgião-dentista, e a ausência dele não é um sinal de que a boca esteja fora de risco.

Na prática que vemos todos os dias, o pedido não vem por um motivo simples: a maioria dos serviços de oncologia no Brasil não tem um dentista na equipe. Onde existe odontologia hospitalar integrada, o encaminhamento é rotina; onde não existe, ele simplesmente não é lembrado — e a boca fica órfã de um cuidado que as diretrizes internacionais consideram parte do preparo.

O National Cancer Institute (NCI) é direto ao afirmar que a avaliação e o tratamento odontológico devem ser realizados, sempre que possível, antes do início da terapia oncológica, porque isso reduz o risco e a gravidade das complicações bucais. As diretrizes da MASCC/ISOO — a sociedade internacional que estuda cuidados de suporte em oncologia — seguem a mesma linha.

Por que a boca entra nessa conta?

Segundo o NCI, cerca de 40% das pessoas em quimioterapia desenvolvem alguma complicação na boca, e esse número sobe bastante quando a radioterapia atinge a região da boca, cabeça ou pescoço. As razões são concretas:

Vale a precisão de sempre: a quimioterapia pode afetar a boca em qualquer tipo de câncer, porque circula pelo corpo inteiro. A radioterapia só afeta a boca quando o campo irradiado inclui a região da boca, da cabeça ou do pescoço — quem irradia mama, próstata ou abdômen não tem esse efeito.

Ir por conta própria atrapalha o plano do oncologista?

Não. O cuidado odontológico não compete com o tratamento oncológico — ele o protege. O que muda é a ordem e o timing, e é exatamente aí que o dentista com atuação em oncologia faz diferença: ele adapta o plano ao calendário do tratamento, em vez de propor o “ideal de consultório” no momento errado.

Na consulta, leve consigo:

Com isso em mãos, o dentista consegue conversar com a equipe médica quando necessário — e essa conversa costuma ser bem-vinda pelos oncologistas, não o contrário.

E se o tratamento começa em poucos dias?

O ideal são 7 a 14 dias de antecedência, para que eventuais extrações cicatrizem — e um pouco mais quando o caso envolve radioterapia na região da boca. Mas o recado que mais repetimos é este: mesmo com o tempo curto, procure.

Muita coisa útil pode ser feita em uma única consulta: identificar e controlar focos de infecção, ajustar uma prótese que machuca, remover uma ponta cortante, orientar a higiene certa para a fase e montar o kit de boca para levar para casa. Adaptar o plano ao tempo disponível é parte do trabalho — nunca é “tarde demais para valer a pena”. O detalhamento dos prazos está em quantos dias antes da quimioterapia preciso resolver os dentes.

Na Travessia, essa avaliação inicial é a Preparação Pré-Tratamento (PPT): olhar a boca inteira antes da primeira sessão e deixá-la pronta para atravessar o tratamento.

Perguntas rápidas

Preciso de pedido médico para marcar com o dentista? Não. A consulta odontológica é de acesso direto. O pedido médico não é exigido — o que ajuda muito é levar as informações do tratamento que vai começar.

Meu oncologista disse que “não precisa”. E agora? Vale conversar com ele mostrando que a recomendação de avaliação prévia é do NCI e das diretrizes MASCC/ISOO. Na maioria das vezes a orientação vem da percepção de que não há urgência dentária aparente — e cáries e gengiva inflamada costumam ser silenciosas justamente antes de virarem problema.

A avaliação atrasa o início da quimioterapia? Não deve. Um plano bem feito respeita a data da primeira sessão e prioriza o que é urgente. Quem adia o tratamento oncológico, no fim das contas, é a infecção que ninguém viu a tempo.

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Veja o guia completo de como preparar a boca antes do tratamento e entenda por que ir ao dentista antes da quimioterapia.


Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica — Curitiba/PR.

Fontes: NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines for Mucositis (Elad et al., Cancer, 2020); INCA — Tratamento do câncer.