O que foi noticiado
O cantor Netinho, de 60 anos, em tratamento de um linfoma, atualizou seu estado de saúde após ser internado em Salvador (BA) para investigar uma dor no peito. Segundo o próprio artista, os exames não apontaram problema cardíaco, e ele associou o desconforto ao esôfago, à quimioterapia e à pausa na rotina de exercícios. Netinho havia sido diagnosticado com linfoma em março de 2025 e retomou as sessões de quimioterapia em 2026, após novos exames indicarem o retorno da doença.
Desejamos a ele uma boa travessia. E, como ele mesmo levou o assunto a público, o episódio abre espaço para explicar algo que vale para muitas pessoas em quimioterapia — sem qualquer comentário sobre a situação clínica dele, que só a equipe que o acompanha conhece.
Antes de tudo, um aviso que não pode faltar: dor no peito nunca deve ser autodiagnosticada. Ela tem muitas causas possíveis, algumas graves e urgentes, e precisa ser avaliada por um médico — foi exatamente o que aconteceu no caso noticiado.
Por que a quimioterapia pode incomodar além da boca?
Porque a mucosa que reveste a boca por dentro não termina nos lábios. É o mesmo tipo de tecido que segue pela garganta, pelo esôfago, pelo estômago e pelo intestino — todo o tubo digestivo. A quimioterapia atinge células de multiplicação rápida, e essas células de revestimento estão entre as mais rápidas do corpo.
Por isso a literatura fala em mucosite oral e mucosite gastrointestinal como duas faces do mesmo fenômeno. As diretrizes MASCC/ISOO tratam justamente da prevenção e do manejo da mucosite ao longo do trato digestivo, não apenas na boca. Quando a inflamação atinge o esôfago, ela pode se manifestar como dor ao engolir, queimação, sensação de comida presa ou desconforto atrás do osso do peito.
E isso vale para qualquer tipo de câncer tratado com quimioterapia — não só linfoma. O remédio circula pelo corpo todo e chega à mucosa independentemente de onde está o tumor.
Quais sinais merecem atenção durante o tratamento?
Avise a equipe quando aparecerem:
- Dor ou ardência ao engolir, mesmo com líquidos
- Sensação de que a comida trava no meio do caminho
- Queimação atrás do peito, principalmente ao deitar
- Redução da alimentação por medo ou dor de engolir
- Febre junto de qualquer um desses sinais — nesse caso, contato imediato
Dor no peito, isoladamente, é sempre motivo de avaliação médica — não de espera e não de busca no celular.
O que ajuda no dia a dia?
Nada substitui a orientação da equipe, mas alguns cuidados reduzem a agressão à mucosa já sensível:
- Boca limpa e úmida. A higiene delicada reduz a carga de germes que pode piorar qualquer inflamação. Veja o jeito seguro de higienizar quando a boca dói.
- Comida em temperatura amena, macia e pouco ácida. Cítricos, muito quente, muito condimentado e álcool irritam a mucosa. Reunimos opções em como alimentar quem está em tratamento quando a boca dói.
- Cuidado com o refluxo. Evitar deitar logo após comer protege um esôfago já sensível.
- Nada de enxaguante com álcool. Ele resseca e arde justamente onde a mucosa está frágil, como explicamos em enxaguante bucal com álcool no tratamento.
- Relatar cedo. Mucosite tratada no início é muito mais simples do que mucosite instalada.
Onde entra a odontologia nisso?
A parte que se enxerga — a boca — é a única do tubo digestivo que dá para acompanhar de perto, semana a semana. Uma boca cuidada reduz a carga de bactérias que desce junto com a saliva, evita que feridas virem porta de entrada para infecção e permite identificar precocemente que a mucosite está se instalando.
É esse acompanhamento ciclo a ciclo, ao lado da equipe médica, que fazemos no programa Mãos Dadas. E, para quem ainda vai começar, tudo fica mais leve quando a boca é preparada antes — é a Preparação Pré-Tratamento (PPT).
Continue lendo
Entenda o mecanismo em feridas na boca na quimioterapia (mucosite) e veja o panorama em quimioterapia e a boca: o guia completo.
Perguntas rápidas
Mucosite só acontece na boca? Não. O mesmo revestimento inflamado na boca continua pela garganta, pelo esôfago e pelo intestino. Por isso a literatura fala em mucosite oral e gastrointestinal.
Dor ao engolir na quimioterapia é normal? É frequente, mas nunca deve ser ignorada. Avise a equipe: existem medidas para aliviar e é preciso descartar outras causas, como infecções por fungos ou vírus.
Dor no peito durante a quimioterapia é sempre mucosite? Não. Dor no peito tem várias causas possíveis, incluindo cardíacas, e exige avaliação médica imediata. Só o exame define a origem.
Cuidar da boca ajuda mesmo quando o problema é mais abaixo? Ajuda. Uma boca limpa reduz a carga de germes que segue pelo tubo digestivo e permite perceber cedo que a mucosite está começando.
Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo, não comenta a situação clínica individual de nenhuma pessoa citada e não substitui a avaliação médica.
Fontes: MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines for Mucositis (Elad et al., Cancer, 2020); NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; noticiário sobre a atualização de saúde do cantor Netinho (Brasil em Folhas, agosto de 2026; Tribuna do Sertão, junho de 2026).