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Netinho relata desconforto ligado ao esôfago na quimioterapia: quando a mucosite passa da boca para a garganta

Resposta direta

A mucosite da quimioterapia não fica só na boca: o mesmo revestimento que inflama nos lábios e na língua continua pela garganta e pelo esôfago. Por isso dor ao engolir, queimação no peito ou sensação de entalo durante o tratamento merecem avaliação médica — e nunca devem ser tratados como algo banal.

Por Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista bucomaxilofacial · odontologia hospitalar (Albert Einstein) · CRO-PR 16853
Publicado em 03/08/2026 · Atualizado em 03/08/2026

O que foi noticiado

O cantor Netinho, de 60 anos, em tratamento de um linfoma, atualizou seu estado de saúde após ser internado em Salvador (BA) para investigar uma dor no peito. Segundo o próprio artista, os exames não apontaram problema cardíaco, e ele associou o desconforto ao esôfago, à quimioterapia e à pausa na rotina de exercícios. Netinho havia sido diagnosticado com linfoma em março de 2025 e retomou as sessões de quimioterapia em 2026, após novos exames indicarem o retorno da doença.

Desejamos a ele uma boa travessia. E, como ele mesmo levou o assunto a público, o episódio abre espaço para explicar algo que vale para muitas pessoas em quimioterapia — sem qualquer comentário sobre a situação clínica dele, que só a equipe que o acompanha conhece.

Antes de tudo, um aviso que não pode faltar: dor no peito nunca deve ser autodiagnosticada. Ela tem muitas causas possíveis, algumas graves e urgentes, e precisa ser avaliada por um médico — foi exatamente o que aconteceu no caso noticiado.

Por que a quimioterapia pode incomodar além da boca?

Porque a mucosa que reveste a boca por dentro não termina nos lábios. É o mesmo tipo de tecido que segue pela garganta, pelo esôfago, pelo estômago e pelo intestino — todo o tubo digestivo. A quimioterapia atinge células de multiplicação rápida, e essas células de revestimento estão entre as mais rápidas do corpo.

Por isso a literatura fala em mucosite oral e mucosite gastrointestinal como duas faces do mesmo fenômeno. As diretrizes MASCC/ISOO tratam justamente da prevenção e do manejo da mucosite ao longo do trato digestivo, não apenas na boca. Quando a inflamação atinge o esôfago, ela pode se manifestar como dor ao engolir, queimação, sensação de comida presa ou desconforto atrás do osso do peito.

E isso vale para qualquer tipo de câncer tratado com quimioterapia — não só linfoma. O remédio circula pelo corpo todo e chega à mucosa independentemente de onde está o tumor.

Quais sinais merecem atenção durante o tratamento?

Avise a equipe quando aparecerem:

Dor no peito, isoladamente, é sempre motivo de avaliação médica — não de espera e não de busca no celular.

O que ajuda no dia a dia?

Nada substitui a orientação da equipe, mas alguns cuidados reduzem a agressão à mucosa já sensível:

Onde entra a odontologia nisso?

A parte que se enxerga — a boca — é a única do tubo digestivo que dá para acompanhar de perto, semana a semana. Uma boca cuidada reduz a carga de bactérias que desce junto com a saliva, evita que feridas virem porta de entrada para infecção e permite identificar precocemente que a mucosite está se instalando.

É esse acompanhamento ciclo a ciclo, ao lado da equipe médica, que fazemos no programa Mãos Dadas. E, para quem ainda vai começar, tudo fica mais leve quando a boca é preparada antes — é a Preparação Pré-Tratamento (PPT).

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Perguntas rápidas

Mucosite só acontece na boca? Não. O mesmo revestimento inflamado na boca continua pela garganta, pelo esôfago e pelo intestino. Por isso a literatura fala em mucosite oral e gastrointestinal.

Dor ao engolir na quimioterapia é normal? É frequente, mas nunca deve ser ignorada. Avise a equipe: existem medidas para aliviar e é preciso descartar outras causas, como infecções por fungos ou vírus.

Dor no peito durante a quimioterapia é sempre mucosite? Não. Dor no peito tem várias causas possíveis, incluindo cardíacas, e exige avaliação médica imediata. Só o exame define a origem.

Cuidar da boca ajuda mesmo quando o problema é mais abaixo? Ajuda. Uma boca limpa reduz a carga de germes que segue pelo tubo digestivo e permite perceber cedo que a mucosite está começando.


Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo, não comenta a situação clínica individual de nenhuma pessoa citada e não substitui a avaliação médica.

Fontes: MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines for Mucositis (Elad et al., Cancer, 2020); NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; noticiário sobre a atualização de saúde do cantor Netinho (Brasil em Folhas, agosto de 2026; Tribuna do Sertão, junho de 2026).