A família do ex-jogador Marcelino, um dos campeões brasileiros de 1988 pelo Bahia, tornou público nos últimos dias o diagnóstico de um glioma de alto grau, um tipo de tumor cerebral. Aos 61 anos, ele deve iniciar tratamento com quimioterapia e radioterapia em Salvador, segundo o relato do filho nas redes sociais, que pediu orações e apoio da torcida.
Daqui de Curitiba, o desejo é sincero: que a travessia dele seja a mais leve possível, cercada de gente boa.
E há uma coisa que podemos fazer por quem está lendo com o mesmo diagnóstico em casa: explicar com precisão o que um tratamento assim faz — e o que não faz — dentro da boca. Porque a informação errada circula rápido, e nesse caso ela assusta sem necessidade.
”Radioterapia na cabeça” não é a mesma coisa que “radioterapia de cabeça e pescoço”
Este é o ponto mais importante do texto, e o mais mal compreendido.
Quando alguém ouve “radioterapia na cabeça”, a associação imediata é com os efeitos famosos da radioterapia de cabeça e pescoço: boca seca permanente, cárie de radiação, risco de osteorradionecrose. São efeitos reais — mas dependem de onde o feixe entra.
Na radioterapia dirigida a um tumor cerebral, o alvo é o encéfalo. As glândulas salivares (parótidas, submandibulares, sublinguais) e o osso da mandíbula ficam, na grande maioria dos planejamentos, fora ou na borda do campo, recebendo dose baixa. Por isso, nesse cenário:
- A cárie de radiação clássica não é o quadro esperado
- A osteorradionecrose de mandíbula não é o risco central — diferente do que descrevemos em osteorradionecrose: o que é e como se previne
- A boca seca severa e permanente também não é a regra
Isso não significa “não precisa cuidar da boca”. Significa que o motivo do cuidado é outro — e a explicação completa de quando a radioterapia realmente atinge a boca está em a radioterapia sempre afeta a boca?.
Então de onde vem o risco na boca?
De dois lugares.
1. Da quimioterapia — que afeta a boca em qualquer tipo de câncer
Esta é a regra que vale para tumor cerebral, mama, intestino, próstata, linfoma, pulmão, todos. O quimioterápico circula pelo corpo inteiro e atinge as células que se renovam depressa. A mucosa da boca se renova a cada 7 a 14 dias — está na linha de frente.
Segundo o NCI PDQ, cerca de 40% das pessoas em quimioterapia convencional desenvolvem alguma complicação oral. As mais comuns: feridas na boca (mucosite), boca seca, alteração de paladar, sangramento de gengiva e infecções oportunistas.
No tratamento de gliomas, além disso, a quimioterapia costuma reduzir plaquetas e glóbulos brancos — o que transforma qualquer foco dentário mal resolvido em porta de entrada. É o cenário que explicamos em o que é neutropenia e a boca.
2. Do corticoide — o detalhe que quase ninguém menciona
Em tumores cerebrais, é muito comum o uso prolongado de corticoide (como a dexametasona) para controlar o inchaço ao redor do tumor. Isso tem uma consequência direta e previsível na boca:
- Candidíase oral — o “sapinho”, placas esbranquiçadas na língua e no céu da boca, que arde e altera o paladar. É frequente com corticoide de uso contínuo, e o quadro está detalhado em sapinho durante o tratamento do câncer
- Boca seca e ardência
- Cicatrização mais lenta de qualquer ferida na gengiva
Se há corticoide em uso, a boca precisa ser olhada com frequência — não a cada seis meses, mas ao longo do tratamento.
O que muda no dia a dia de quem está nessa situação
Um tumor cerebral traz uma camada que outros tratamentos não trazem: pode haver dificuldade motora, alteração de coordenação, sonolência ou déficit de um lado do corpo. Isso afeta diretamente a capacidade de escovar os dentes.
Na prática, isso significa:
- Escova de cabo grosso ou escova elétrica, mais fácil de segurar com mão pouco firme
- Escova extramacia, escovação suave depois de cada refeição
- Bochecho sem álcool — água com bicarbonato resolve bem; o motivo está em enxaguante bucal com álcool
- Alguém da família olhando dentro da boca uma vez por dia, com lanterna, procurando placas brancas, feridas e gengiva sangrando. A lista completa está em sinais na boca que o cuidador não pode ignorar
- Atenção redobrada se houver crise convulsiva — mordidas na língua e na bochecha são comuns e precisam ser avaliadas
Quando a pessoa não consegue mais cuidar sozinha, o cuidado passa para outra mão. E como fazer isso sem machucar está em como ajudar alguém debilitado a cuidar da boca.
E o que dá para fazer antes de começar?
Se o tratamento ainda não começou, a janela é agora: avaliar a boca, resolver focos de infecção, ajustar próteses que machucam e montar o protocolo de prevenção de feridas. É exatamente o que descrevemos no Preparo Pré-Tratamento — e se o tratamento já começou, ainda dá tempo.
Durante os ciclos, o acompanhamento contínuo é o Mãos Dadas.
Perguntas rápidas
Radioterapia no cérebro causa cárie de radiação? Em geral, não. A cárie de radiação está ligada à perda de saliva por irradiação das glândulas salivares, que costumam ficar fora do campo em tratamentos dirigidos ao encéfalo. O planejamento individual é que responde com certeza — pergunte ao seu radio-oncologista quais estruturas recebem dose.
Quem faz quimioterapia para tumor cerebral pode ter feridas na boca? Pode. A mucosite acontece por ação sistêmica do quimioterápico e independe de o tumor estar na boca. Veja feridas na boca na quimioterapia.
Placas brancas na língua durante o uso de corticoide são normais? Não são “normais” — são um achado comum que precisa ser tratado. Costuma ser candidíase e tem tratamento simples, desde que identificada.
Posso ir ao dentista durante o tratamento de um tumor cerebral? Pode, com o hemograma em mãos e alinhamento com a equipe. Não há impedimento pelo tipo de tumor.
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Este texto é informativo e não comenta o caso clínico individual de nenhuma pessoa citada. As informações sobre o diagnóstico de Marcelino são as divulgadas publicamente pela família. Nosso desejo é de uma boa travessia.
Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual nem as orientações da sua equipe oncológica.
Fontes: Ilhéus Informe — Campeão brasileiro pelo Bahia revela diagnóstico de tumor cerebral; NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; Elad et al., Cancer, 2020 — MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines; INCA — Instituto Nacional de Câncer.