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Marcelino, campeão do Bahia, vai fazer quimio e radioterapia para tumor no cérebro: isso afeta a boca?

Resposta direta

Sim, mas não pelo motivo que a maioria imagina. Na radioterapia dirigida ao cérebro, o feixe geralmente não atinge as glândulas salivares nem o osso da mandíbula. Quem mexe com a boca nesse cenário é a quimioterapia, que afeta a mucosa em qualquer tipo de câncer, e o corticoide usado para reduzir o inchaço.

Por Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista bucomaxilofacial · odontologia hospitalar (Albert Einstein) · CRO-PR 16853
Publicado em 23/08/2026 · Atualizado em 23/08/2026

A família do ex-jogador Marcelino, um dos campeões brasileiros de 1988 pelo Bahia, tornou público nos últimos dias o diagnóstico de um glioma de alto grau, um tipo de tumor cerebral. Aos 61 anos, ele deve iniciar tratamento com quimioterapia e radioterapia em Salvador, segundo o relato do filho nas redes sociais, que pediu orações e apoio da torcida.

Daqui de Curitiba, o desejo é sincero: que a travessia dele seja a mais leve possível, cercada de gente boa.

E há uma coisa que podemos fazer por quem está lendo com o mesmo diagnóstico em casa: explicar com precisão o que um tratamento assim faz — e o que não faz — dentro da boca. Porque a informação errada circula rápido, e nesse caso ela assusta sem necessidade.

”Radioterapia na cabeça” não é a mesma coisa que “radioterapia de cabeça e pescoço”

Este é o ponto mais importante do texto, e o mais mal compreendido.

Quando alguém ouve “radioterapia na cabeça”, a associação imediata é com os efeitos famosos da radioterapia de cabeça e pescoço: boca seca permanente, cárie de radiação, risco de osteorradionecrose. São efeitos reais — mas dependem de onde o feixe entra.

Na radioterapia dirigida a um tumor cerebral, o alvo é o encéfalo. As glândulas salivares (parótidas, submandibulares, sublinguais) e o osso da mandíbula ficam, na grande maioria dos planejamentos, fora ou na borda do campo, recebendo dose baixa. Por isso, nesse cenário:

Isso não significa “não precisa cuidar da boca”. Significa que o motivo do cuidado é outro — e a explicação completa de quando a radioterapia realmente atinge a boca está em a radioterapia sempre afeta a boca?.

Então de onde vem o risco na boca?

De dois lugares.

1. Da quimioterapia — que afeta a boca em qualquer tipo de câncer

Esta é a regra que vale para tumor cerebral, mama, intestino, próstata, linfoma, pulmão, todos. O quimioterápico circula pelo corpo inteiro e atinge as células que se renovam depressa. A mucosa da boca se renova a cada 7 a 14 dias — está na linha de frente.

Segundo o NCI PDQ, cerca de 40% das pessoas em quimioterapia convencional desenvolvem alguma complicação oral. As mais comuns: feridas na boca (mucosite), boca seca, alteração de paladar, sangramento de gengiva e infecções oportunistas.

No tratamento de gliomas, além disso, a quimioterapia costuma reduzir plaquetas e glóbulos brancos — o que transforma qualquer foco dentário mal resolvido em porta de entrada. É o cenário que explicamos em o que é neutropenia e a boca.

2. Do corticoide — o detalhe que quase ninguém menciona

Em tumores cerebrais, é muito comum o uso prolongado de corticoide (como a dexametasona) para controlar o inchaço ao redor do tumor. Isso tem uma consequência direta e previsível na boca:

Se há corticoide em uso, a boca precisa ser olhada com frequência — não a cada seis meses, mas ao longo do tratamento.

O que muda no dia a dia de quem está nessa situação

Um tumor cerebral traz uma camada que outros tratamentos não trazem: pode haver dificuldade motora, alteração de coordenação, sonolência ou déficit de um lado do corpo. Isso afeta diretamente a capacidade de escovar os dentes.

Na prática, isso significa:

Quando a pessoa não consegue mais cuidar sozinha, o cuidado passa para outra mão. E como fazer isso sem machucar está em como ajudar alguém debilitado a cuidar da boca.

E o que dá para fazer antes de começar?

Se o tratamento ainda não começou, a janela é agora: avaliar a boca, resolver focos de infecção, ajustar próteses que machucam e montar o protocolo de prevenção de feridas. É exatamente o que descrevemos no Preparo Pré-Tratamento — e se o tratamento já começou, ainda dá tempo.

Durante os ciclos, o acompanhamento contínuo é o Mãos Dadas.

Perguntas rápidas

Radioterapia no cérebro causa cárie de radiação? Em geral, não. A cárie de radiação está ligada à perda de saliva por irradiação das glândulas salivares, que costumam ficar fora do campo em tratamentos dirigidos ao encéfalo. O planejamento individual é que responde com certeza — pergunte ao seu radio-oncologista quais estruturas recebem dose.

Quem faz quimioterapia para tumor cerebral pode ter feridas na boca? Pode. A mucosite acontece por ação sistêmica do quimioterápico e independe de o tumor estar na boca. Veja feridas na boca na quimioterapia.

Placas brancas na língua durante o uso de corticoide são normais? Não são “normais” — são um achado comum que precisa ser tratado. Costuma ser candidíase e tem tratamento simples, desde que identificada.

Posso ir ao dentista durante o tratamento de um tumor cerebral? Pode, com o hemograma em mãos e alinhamento com a equipe. Não há impedimento pelo tipo de tumor.

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Este texto é informativo e não comenta o caso clínico individual de nenhuma pessoa citada. As informações sobre o diagnóstico de Marcelino são as divulgadas publicamente pela família. Nosso desejo é de uma boa travessia.

Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual nem as orientações da sua equipe oncológica.

Fontes: Ilhéus Informe — Campeão brasileiro pelo Bahia revela diagnóstico de tumor cerebral; NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; Elad et al., Cancer, 2020 — MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines; INCA — Instituto Nacional de Câncer.