O Agosto Branco se aproxima do fim, e os números divulgados nesta semana ajudam a entender por que a campanha existe.
Segundo a Estimativa 2026-2028 do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar cerca de 35,3 mil novos casos de câncer de traqueia, brônquio e pulmão por ano — dentro de um total de 781 mil novos casos de câncer por ano no país, um aumento de quase 11% em relação à estimativa anterior. Entre os homens brasileiros, o pulmão aparece como o terceiro tumor mais incidente, atrás apenas de próstata e de cólon e reto.
O reforço da campanha, este ano, foi o de sempre — e o mais importante: diagnóstico precoce amplia as chances de cura. O câncer de pulmão continua sendo o que mais mata no mundo, em grande parte porque costuma ser descoberto quando os sintomas já apareceram.
O que uma dentista tem a dizer sobre câncer de pulmão?
Mais do que parece, por dois fios que ligam as duas pontas.
O primeiro fio é o tabaco. O INCA aponta que os tumores associados ao tabagismo — pulmão e cavidade oral — são mais frequentes no Sul e no Sudeste do país. É o mesmo fator de risco produzindo dois cânceres diferentes no mesmo caminho do ar. Quem fumou por décadas tem risco aumentado nas duas pontas, e a consulta odontológica é um dos poucos momentos em que alguém olha de perto, com luz e espelho, o assoalho da boca, a borda da língua e o palato.
Os sinais que merecem avaliação estão reunidos em sinais na boca que podem ser câncer. O mais importante deles é simples: ferida na boca que não cicatriza em duas semanas precisa ser vista.
O segundo fio é o tratamento. No câncer de pulmão, o esquema mais comum combina quimioterapia e radioterapia, muitas vezes seguidas de imunoterapia. E aqui vale a distinção que evita medo desnecessário:
- A radioterapia do tórax não afeta a boca. O campo de irradiação não inclui glândula salivar nem mandíbula, então não causa boca seca por irradiação nem cárie de radiação.
- A quimioterapia afeta a boca em qualquer câncer, porque circula pelo corpo inteiro. Segundo o National Cancer Institute (NCI), cerca de 40% das pessoas em quimioterapia convencional desenvolvem alguma complicação bucal — feridas na boca, boca seca, alteração do gosto e maior risco de infecção.
Quem está nesse ponto do caminho encontra a resposta prática em vou fazer radioterapia no pulmão: preciso ir ao dentista antes?.
Por que a boca importa num tratamento em que o peso é prioridade
No câncer de pulmão, manter o peso e a força é parte do tratamento — e boa parte da desnutrição começa numa boca que dói. Ferida que arde, gosto que mudou e saliva que sumiu afastam a comida antes que qualquer suplemento entre em cena. É o que descrevemos em perda de peso no tratamento do câncer: a boca entra nessa conta.
Preparar a boca antes da primeira dose — resolver focos de infecção, remover o que machuca e montar uma higiene que atravesse os ciclos — é o que o Preparo Para o Tratamento (PPT) organiza. Não adia o tratamento oncológico: caminha junto com ele.
Perguntas rápidas
Parar de fumar depois do diagnóstico ainda faz diferença? Faz, e bastante — para a cicatrização, para a resposta ao tratamento e para o risco de um segundo tumor. O que muda na boca está em parar de fumar antes do tratamento do câncer.
O cigarro eletrônico é uma alternativa mais segura para a boca? Não há segurança demonstrada. O INCA tem alertado sobre os efeitos do vape na mucosa bucal — o tema está em vape e câncer de boca.
Nunca fumei e tenho câncer de pulmão. A boca ainda entra no plano? Entra. O motivo, nesse caso, não é o tabaco — é a quimioterapia, que afeta a mucosa da boca independentemente do histórico de fumo.
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Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual nem as orientações da sua equipe oncológica.
Fontes: INCA — Estimativa 2026-2028: Incidência de Câncer no Brasil; INCA — Câncer de pulmão; NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation.