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Cuidados paliativos e a boca: o conforto que ainda é possível

Resposta direta

Cuidados paliativos não significam desistir: são o cuidado que trata o desconforto e prioriza a qualidade de vida, em qualquer fase da doença. Na boca, isso quer dizer aliviar a boca seca, as feridas, a dor e a infecção — o que permite comer, falar, beijar e receber o carinho de quem ama.

Por Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista bucomaxilofacial · odontologia hospitalar (Albert Einstein) · CRO-PR 16853
Publicado em 09/08/2026 · Atualizado em 09/08/2026

Cuidado paliativo é desistir do tratamento?

Não. E essa é provavelmente a confusão mais dolorosa que existe em oncologia.

Cuidados paliativos são a abordagem que previne e alivia o sofrimento de quem enfrenta uma doença grave — dor, náusea, falta de ar, angústia, boca ferida — cuidando também da família. Segundo a Organização Mundial da Saúde, eles são indicados desde o diagnóstico, e podem caminhar lado a lado com a quimioterapia, a radioterapia e a cirurgia. Não são o capítulo final: são o cuidado que segura a mão do começo ao fim.

Os números da OMS mostram o tamanho do buraco: cerca de 56,8 milhões de pessoas por ano precisam de cuidados paliativos no mundo — e apenas 14% delas os recebem. No Brasil, o acesso é ainda mais desigual entre as regiões.

Neste texto, a pergunta é uma só: quando o objetivo passa a ser viver melhor, o que a boca precisa?

Por que a boca vira o centro do conforto?

Porque quase tudo o que ainda importa passa por ela.

Uma pessoa em cuidados paliativos pode não conseguir mais caminhar até a janela, mas ainda quer tomar um café com sabor, ainda quer contar uma história, ainda quer beijar o rosto do neto. Uma boca seca, com feridas ou com infecção rouba essas três coisas de uma vez — e rouba em silêncio, porque quase ninguém pergunta sobre ela.

A literatura é consistente: a boca seca (xerostomia) é um dos sintomas mais frequentes em pessoas com câncer avançado, aparecendo na maioria dos pacientes acompanhados em cuidados paliativos. E as causas se somam:

O que causaPor quê
MedicaçõesOpioides, antidepressivos, antieméticos, diuréticos e anticolinérgicos reduzem a saliva
DesidrataçãoMenos líquido no corpo, menos saliva
Respirar pela bocaComum quando há falta de ar ou uso de oxigênio
Tratamento prévioRadioterapia na região da boca/cabeça/pescoço deixa a saliva reduzida de forma prolongada
Menos alimentaçãoMastigar é o que mais estimula a glândula salivar; comer pouco reduz o estímulo
Candidose (sapinho)Placas brancas que ardem e mudam o gosto de tudo

O NCI lista essas complicações orais entre as que mais impactam a qualidade de vida — e as diretrizes internacionais MASCC/ISOO (Elad et al., 2020) reforçam que a avaliação da boca deve fazer parte do cuidado em todas as fases, inclusive nesta.

O que muda no cuidado da boca nessa fase?

Muda o objetivo. E quando o objetivo muda, o plano muda inteiro.

Antes, o alvo era curar, restaurar e prevenir a longo prazo. Aqui, o alvo é conforto, higiene possível e ausência de dor — hoje, não daqui a cinco anos. Isso significa, na prática:

O que fazer em casa, todos os dias?

Uma rotina simples, curta e sem culpa. Se um dia não der para fazer tudo, faça o que der.

1. Limpar, mesmo sem escovar do jeito antigo. Escova extramacia infantil, movimentos suaves, pasta com flúor e pouca espuma — pasta suave, sem hortelã forte, arde muito menos (veja aqui como escolher). Se a boca estiver muito ferida, gaze úmida enrolada no dedo já ajuda. Se a pessoa usa prótese, ela sai, é escovada e a gengiva é limpa por baixo.

2. Umedecer, muitas vezes ao dia. Goles pequenos de água, spray de água, gelo picado, gel umectante ou saliva artificial quando a equipe indicar. Pouca quantidade, muita frequência — é isso que funciona.

3. Bochechar sem álcool. Enxaguantes com álcool ardem e ressecam. Água com uma pitada de sal e bicarbonato costuma ser a escolha mais confortável (a receita e as ressalvas estão aqui). Sempre morna, nunca gelada demais ou quente.

4. Proteger os lábios. Rachaduras nos lábios doem tanto quanto ferida na boca. Hidratante labial neutro, aplicado várias vezes ao dia, resolve boa parte.

5. Observar — e avisar. Placas brancas, mau cheiro que apareceu do nada, gengiva que sangra, dor ao engolir, febre. Estes são os sinais que o cuidador não pode ignorar.

E quando a pessoa não consegue mais falar o que dói?

Essa é a parte mais delicada — e a mais importante. Quando a comunicação fica limitada, a dor da boca não desaparece: ela só deixa de ser dita.

Fique atento a sinais indiretos: recusar a comida que sempre gostou, virar o rosto quando a colher se aproxima, franzir a testa ao engolir, ficar mais agitado nos horários das refeições, um cheiro forte que não existia. Muitas vezes o que parece “perda de apetite” é, na verdade, uma boca que dói.

Olhar dentro da boca uma vez por dia — com uma lanterna, com calma, com licença — é um dos gestos mais concretos de cuidado que uma família pode oferecer.

Ainda vale a pena chamar um dentista nessa fase?

Vale. E costuma ser um dos alívios mais rápidos disponíveis.

O que o dentista com formação em odontologia oncológica faz aqui não é “salvar dentes”: é tirar dor, tratar infecção, ajustar uma prótese que machuca, tratar a candidose, orientar a família e devolver a possibilidade de comer. É um cuidado que raramente exige aparato — e que muda o dia de alguém em poucas horas.

Nem sempre é possível curar. Mas quase sempre é possível cuidar — e conforto é um objetivo clínico legítimo, não um consolo.

Perguntas rápidas

Cuidados paliativos são só para o fim da vida? Não. A OMS recomenda que comecem cedo, junto ao tratamento que busca controlar a doença. Cuidar do desconforto desde o início melhora a qualidade de vida — e ajuda a pessoa a tolerar melhor o próprio tratamento.

A pessoa não quer mais escovar os dentes. Devo insistir? Insistir com força, não. Adaptar, sim: escova menor e mais macia, pasta suave, gaze úmida, sessões curtas, no horário em que ela está mais disposta. O objetivo é conforto e higiene possível, não a rotina perfeita de antes.

Vale extrair um dente nessa fase? Depende. Se o dente é fonte de dor ou infecção, a extração pode ser exatamente o que traz alívio. Se não incomoda, muitas vezes a melhor conduta é não mexer. Em quem usa ou usou medicação para os ossos, a avaliação precisa ser ainda mais criteriosa por causa do risco de osteonecrose.

A boca seca tem tratamento nessa fase? Tem alívio, e ele funciona: hidratação frequente em pequenos volumes, gel umectante, saliva artificial, revisão das medicações com a equipe e tratamento da candidose quando presente. O guia da boca seca detalha cada recurso.

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Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual.

Fontes: OMS — Palliative care fact sheet; NCI PDQ — Oral Complications of Cancer Therapies; Elad et al., Cancer, 2020 — MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines; INCA.