Verdade — mas com endereço certo
É uma das medidas mais simples que existem contra a mucosite, e uma das poucas com recomendação formal em diretriz internacional. Chama-se crioterapia oral: manter gelo ou pedaços de gelo picado na boca durante a infusão da quimioterapia.
A lógica é mecânica, não mágica. O frio contrai os vasos da mucosa da boca. Com menos sangue circulando ali no momento em que a concentração do medicamento no sangue está no pico, chega menos quimioterápico ao tecido — e a mucosa sofre menos.
As diretrizes MASCC/ISOO (Elad et al., 2020) recomendam a crioterapia oral em duas situações bem definidas:
- 5-fluorouracil (5-FU) em bolus — infusão rápida, comum em tumores do trato digestivo
- Melfalano em altas doses, no preparo para transplante de células-tronco
Fora dessas indicações, a evidência não sustenta a recomendação — o que não significa que faça mal, e sim que não há garantia de benefício.
Como se faz, na prática
O ponto crítico é o tempo: o gelo precisa estar na boca enquanto o medicamento circula em concentração alta.
- Comece 5 minutos antes do início da infusão
- Mantenha gelo picado ou lascas na boca durante toda a infusão, repondo conforme derrete
- Continue por cerca de 30 minutos, ou pelo tempo que a equipe orientar
- Movimente o gelo pela boca, para que o frio alcance bochechas, língua e assoalho
- Se o frio incomodar demais, alterne: gelo, pausa curta, gelo de novo
Nada de bala de gelo com corante, refrigerante congelado ou picolé açucarado — a ideia é gelo, água gelada, no máximo gelo de água de coco sem açúcar.
Quando o gelo não é a melhor ideia
Existem situações em que a crioterapia não se aplica ou precisa ser adaptada:
- Oxaliplatina: causa sensibilidade extrema ao frio, inclusive na boca e na garganta. Aqui o gelo é contraindicado — o frio provoca desconforto intenso e espasmo.
- Dentes muito sensíveis ou restaurações recentes: o frio pode ser insuportável. Vale conversar com o dentista sobre alternativas.
- Infusões longas, de horas: manter gelo por todo esse tempo é inviável e a indicação não se aplica do mesmo jeito.
Por isso a regra permanece: combine com a equipe antes. A crioterapia é segura e barata, mas depende do medicamento que você recebe.
E se a crioterapia não for o meu caso?
Existem outras frentes de prevenção e alívio, cada uma no seu lugar. O bochecho caseiro de água com sal ou bicarbonato mantém a boca limpa sem agredir — explicado em bochecho de água com sal e bicarbonato. A fotobiomodulação com laser tem recomendação de diretriz em situações específicas, tema de laser na boca durante o tratamento. E a higiene bem feita, com escova macia e técnica adaptada, continua sendo a base de tudo — escova, fio dental e quimio.
Mais importante do que qualquer uma dessas medidas isoladas: quem entra no tratamento com a boca preparada tem menos complicações. É o que a Preparação Pré-Tratamento (PPT) organiza, e o acompanhamento durante as sessões é o que fazemos no Mãos Dadas.
Continue lendo
Entenda o quadro completo em feridas na boca na quimioterapia: mucosite e o panorama em quimioterapia e a boca: o guia completo.
Perguntas rápidas
Posso chupar gelo em qualquer quimioterapia, por precaução? Pode ser inofensivo, mas não é recomendado às cegas — e é contraindicado com oxaliplatina, que causa sensibilidade extrema ao frio. Pergunte à equipe qual medicamento você recebe.
Serve para prevenir a boca seca também? Não. A crioterapia age contra a mucosite durante a infusão. A boca seca tem outras causas e outro manejo, explicados em boca seca no tratamento do câncer.
Picolé conta como crioterapia? Não é a mesma coisa. Picolés açucarados favorecem cárie em uma boca já vulnerável. Prefira gelo de água pura, picado, reposto ao longo da infusão.
Já estou com feridas. O gelo resolve? A crioterapia é medida de prevenção, feita durante a infusão. Com ferida já instalada, o cuidado é outro — e febre junto com ferida na boca é situação de urgência, como está em febre e ferida na boca na quimio.
Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual.
Fontes: MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines for the Management of Mucositis (Elad et al., Cancer, 2020); NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation.