O que o novo estudo sobre bochecho de corticoide descobriu?
Saiu nesta semana (julho de 2026) uma notícia que interessa a todo mundo que enfrenta a quimioterapia: um estudo de fase 3 apresentado no congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO 2026) testou se um bochecho de dexametasona — um corticoide de uso comum — conseguiria prevenir a mucosite, aquelas feridas na boca que tanto atrapalham o tratamento. O resultado foi honesto e importante: o bochecho não reduziu de forma significativa as feridas. No grupo que usou o corticoide, 58,8% das pessoas tiveram mucosite; no grupo que não usou, 63,2%. Uma diferença pequena demais para ser considerada real.
O estudo foi feito com mulheres em tratamento de câncer de mama — e aqui está um ponto que a gente reforça sempre: a mucosite não é problema só de “câncer de cabeça e pescoço”. A quimioterapia afeta a boca em qualquer tipo de câncer, e o câncer de mama está justamente entre os que mais causam feridas na boca, dependendo do protocolo.
Por que esse resultado é uma boa notícia (mesmo sendo “negativo”)?
Pode parecer decepcionante um estudo que diz “não funcionou”. Mas ele é útil por dois motivos.
Primeiro, porque evita falsas esperanças e gasto desnecessário. Muita gente compra enxaguantes caros ou improvisa bochechos de corticoide achando que vai blindar a boca. A ciência mostrando que isso não previne as feridas protege o paciente de frustração e de efeitos colaterais à toa.
Segundo, porque redireciona a atenção para o que realmente tem evidência. Não existe um enxaguante mágico que impeça a mucosite. O que existe — e funciona — é um conjunto de cuidados menos glamouroso e muito mais eficaz.
Então o que realmente protege a boca na quimioterapia?
As diretrizes internacionais MASCC/ISOO (Elad et al., 2020), que reúnem as melhores evidências do mundo sobre complicações orais do câncer, apontam caminhos com respaldo científico de verdade:
- Preparo odontológico antes de começar. Resolver focos de infecção e adequar a boca antes da primeira dose reduz complicações no tratamento inteiro. É a etapa que mais muda o desfecho.
- Higiene oral suave e frequente. Escova extramacia, sem suspender a limpeza — boca limpa desenvolve mucosite mais leve.
- Fotobiomodulação (laser de baixa potência). Esta sim tem evidência forte para prevenir e tratar a mucosite, recomendada pelas diretrizes (Zadik et al., 2019). É um recurso profissional, feito na clínica.
- Crioterapia oral (gelo na boca durante a infusão) em protocolos específicos, como o 5-fluorouracil em bolus.
- Bochechos caseiros de água com sal e bicarbonato, que limpam e acalmam sem ardência — a base simples e segura, recomendada pelo NCI.
Repare no padrão: o que protege a boca não é um produto comprado na última hora — é o cuidado planejado antes e mantido durante. Nenhum bochecho substitui o preparo prévio.
O que fazer com essa informação?
Se você ou alguém da sua família vai começar a quimioterapia, a lição do estudo é clara: não procure a “poção” que evita as feridas. Procure, isso sim, uma avaliação odontológica antes de começar e um acompanhamento durante o tratamento com quem entende de boca no câncer. É isso que muda a experiência — com ou sem novidades da ciência.
E, se durante o tratamento surgir a dúvida sobre usar algum enxaguante ou corticoide, a resposta é sempre a mesma: pergunte à sua equipe antes. Bochecho de corticoide, por exemplo, não é isento de riscos (pode favorecer infecção por fungo) e não deve ser usado por conta própria.
Perguntas rápidas
Então corticoide não serve para nada na boca durante a quimioterapia? Serve em situações específicas, prescritas pela equipe — por exemplo, no tratamento de algumas lesões já instaladas. O que este estudo mostrou é que o bochecho de dexametasona não previne a mucosite antes de ela aparecer. Uso é sempre com orientação profissional.
Qual bochecho realmente ajuda? O mais seguro e universal é o de água com sal e bicarbonato (¼ de colher de chá de cada em um copo de água morna), que limpa e acalma. Ele não impede a mucosite, mas alivia. Evite enxaguantes com álcool, que ardem e ressecam.
Existe algo comprovado para prevenir as feridas? Sim: o preparo odontológico antes do tratamento, a higiene suave constante e a fotobiomodulação a laser são os recursos com melhor evidência. A crioterapia (gelo) ajuda em protocolos específicos.
Câncer de mama causa feridas na boca? Pode causar. O efeito na boca depende da quimioterapia, não do local do tumor — e vários protocolos usados no câncer de mama estão entre os que mais provocam mucosite.
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Para entender as feridas por dentro, veja mucosite: feridas na boca na quimioterapia e a laserterapia (fotobiomodulação) na boca durante o tratamento. Para o quadro completo, leia Quimioterapia e a boca.
Se você vai começar o tratamento, conheça o PPT — Preparo Pré-Travessia: a avaliação da boca antes da primeira dose, que é o que de fato reduz as complicações.
Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica.
Fontes: CancerNetwork — Oral Mucositis Not Reduced with Dexamethasone Mouthwash in Early Breast Cancer (SMASH-BC, ASCO 2026); MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines (Elad et al., Cancer, 2020); Zadik et al., Support Care Cancer, 2019 (fotobiomodulação); NCI PDQ — Oral Complications of Cancer Therapies.