O mês que muda de cor
Hoje termina o Julho Verde, mês de atenção aos tumores de cabeça e pescoço. Amanhã, 1º de agosto, começa o Agosto Branco — a campanha nacional de conscientização sobre o câncer de pulmão, o que mais tira vidas no mundo.
E você pode estar se perguntando o que uma dentista tem com isso. A resposta: mais do que parece. A boca é a porta do ar — todo fôlego que chega ao pulmão passou primeiro por ela. E tanto o principal fator de risco quanto o principal tratamento do câncer de pulmão passam pela boca também.
O câncer de pulmão é comum no Brasil?
Sim. O INCA estima cerca de 32.560 novos casos de câncer de traqueia, brônquio e pulmão por ano no Brasil no triênio 2023-2025 — está entre os tumores mais incidentes em homens e em mulheres. No mundo, é o câncer que mais causa mortes, em parte porque muitos casos ainda são descobertos tarde, quando os sintomas aparecem.
É exatamente para mudar esse “tarde” que o Agosto Branco existe: informação, prevenção e diagnóstico mais cedo.
A quimioterapia do câncer de pulmão afeta a boca?
Sim — como em qualquer câncer. A quimioterapia não fica no pulmão: ela circula pelo corpo inteiro, e as células da boca, que se renovam rápido, estão entre as mais atingidas. Segundo o National Cancer Institute (NCI), cerca de 4 em cada 10 pessoas em quimioterapia desenvolvem complicações na boca:
- Feridas na boca (mucosite), que ardem e atrapalham comer;
- Boca seca, que abre caminho para cárie e infecção;
- Alteração do gosto — a comida “de hospital” muitas vezes é a boca, não a comida;
- Maior risco de infecções, como o sapinho (candidose).
Muitos protocolos de pulmão hoje também incluem imunoterapia — que tem efeitos próprios na boca, geralmente mais leves: entenda aqui.
E a radioterapia no tórax? Resseca a boca?
Não. Este é um ponto em que a precisão importa muito: a radioterapia só afeta a boca quando o campo irradiado inclui a região da boca, cabeça ou pescoço. A radioterapia direcionada ao tórax — comum no câncer de pulmão — não atinge as glândulas salivares nem a mucosa da boca.
O que pode acontecer, dependendo do campo, é irritação no esôfago (dor para engolir descendo pelo peito) — que merece aviso à equipe, mas é outra estrutura, outro cuidado. Se a boca ressecar durante um tratamento de pulmão, a causa costuma ser a quimioterapia ou os remédios de apoio (enjoo, dor) — e tem manejo.
O tabaco: o fio que liga o pulmão à boca
O tabagismo responde pela grande maioria dos casos de câncer de pulmão — o INCA aponta o tabaco como o principal fator de risco evitável. E o mesmo cigarro é também o principal fator de risco do câncer de boca: a fumaça machuca as duas pontas do caminho, a boca onde entra e o pulmão onde termina.
Isso significa que quem fuma ou fumou por muitos anos carrega risco aumentado nas duas regiões — e que o exame da boca (rápido, sem aparelho, feito no consultório) merece entrar na rotina de quem vive o Agosto Branco. Os sinais na boca que pedem avaliação estão neste guia.
Se você fuma e pensa em parar: o benefício começa em dias e cresce por anos — para o pulmão, para a boca e para a resposta a qualquer tratamento. O SUS oferece programa gratuito de apoio para parar de fumar.
O que fazer se alguém que você ama vai tratar um câncer de pulmão
- Avaliação odontológica antes de começar, para tratar cáries e infecções enquanto as defesas estão inteiras — é o PPT — Preparo Pré-Travessia.
- Rotina simples de cuidado diário durante a quimioterapia: escova extramacia, bochechos seguros, água por perto o dia todo.
- Avisar a equipe ao primeiro sinal — ferida, placa branca, dor ao engolir. E febre durante a quimio é urgência, sempre.
- Acompanhamento odontológico durante o tratamento, junto da equipe de oncologia — é o Mãos Dadas.
Perguntas rápidas
Todo paciente de câncer de pulmão tem problema na boca? Não. Mas a chance é relevante — cerca de 4 em cada 10 pessoas em quimioterapia têm alguma complicação bucal — e o cuidado preventivo reduz muito o tamanho do problema quando ele vem.
A dentista participa do tratamento do câncer de pulmão? Participa do cuidado de apoio: preparar a boca antes, prevenir e aliviar as complicações durante e reabilitar depois. As diretrizes internacionais (MASCC/ISOO) recomendam o cuidado oral integrado ao tratamento oncológico — de qualquer tumor.
Nunca fumei. Preciso me preocupar com o Agosto Branco? O tabaco é o principal fator de risco, mas não o único — o câncer de pulmão também acontece em quem nunca fumou. A campanha é sobre atenção a sintomas persistentes (tosse que não passa, falta de ar, dor no peito) em qualquer pessoa.
Continue lendo
Veja o guia completo da quimioterapia e a boca e o kit boca da quimio: o que ter em casa.
Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica — Curitiba/PR.
Fontes: INCA — Câncer de pulmão; NCI PDQ — Oral Complications of Cancer Therapies; MASCC/ISOO — Elad et al., Cancer, 2020.