“Mas eu nem tenho dentes, doutora.” É uma das frases mais ouvidas — e um dos enganos mais comuns — na avaliação que antecede o tratamento do câncer. Porque o dentista que prepara a boca para a quimioterapia, a radioterapia ou a medicação óssea não cuida só de dentes. Cuida da boca inteira: mucosa, gengiva, osso, saliva — e da prótese que convive com tudo isso o dia todo.
O que o dentista examina em quem não tem dentes?
A mucosa, principalmente. Segundo o NCI PDQ, cerca de 40% das pessoas em quimioterapia desenvolvem alguma complicação na boca — e a maioria delas acontece na mucosa, não nos dentes: feridas, infecções, sangramentos. Uma boca sem dentes continua tendo todo o “terreno” onde essas complicações aparecem.
Na consulta, o dentista procura:
- Pontos onde a dentadura machuca — uma ferida de prótese que hoje é só incômodo pode virar porta de infecção quando a imunidade cair nos ciclos de quimio.
- Infecções escondidas — a candidíase (sapinho) sob a prótese é frequente e muitas vezes silenciosa; tratada antes, não explode durante o tratamento (como reconhecer).
- Lesões na mucosa que merecem investigação antes de começar.
- O ajuste da prótese — folgas e bordas cortantes são corrigidas com reembasamento ou ajuste, para que a dentadura não crie feridas justamente na fase mais sensível.
E se eu vou tomar medicação para os ossos?
Aí a avaliação deixa de ser recomendável e vira indispensável — antes da primeira dose.
Bisfosfonatos e denosumabe, usados quando o câncer atinge os ossos, aumentam o risco de osteonecrose dos maxilares (MRONJ). E as diretrizes internacionais listam a prótese mal ajustada como fator de risco: o trauma repetido da dentadura sobre a gengiva pode expor o osso e iniciar o problema — mesmo em quem não tem nenhum dente. A avaliação prévia ajusta a prótese, resolve pontos de trauma e deixa o terreno seguro. O guia completo está em osteonecrose por medicamento (MRONJ) — e o mito de que quem toma esses remédios “nunca mais pode ir ao dentista” está desfeito aqui.
E na radioterapia com campo na região da boca?
A mucosa sob a dentadura vai receber radiação — e vai reagir. Durante as semanas de tratamento, pode ser necessário reduzir o uso da prótese ou até suspendê-lo temporariamente, porque a mucosa irradiada inflama e a dentadura atrita (posso usar prótese durante a radioterapia?). Combinar isso antes de começar evita decidir no susto, com a boca já doendo.
Vale repetir a regra que organiza tudo: a radioterapia só afeta a boca quando o campo inclui a região da boca, da cabeça ou do pescoço; a quimioterapia pode afetar a boca no tratamento de qualquer câncer.
O que levar na consulta?
A própria dentadura (inclusive a reserva, se tiver), a lista de medicamentos e as informações do tratamento que vai começar. A consulta é simples, não dói e costuma resolver em poucos encontros — o preparo completo está descrito em como preparar a boca antes do tratamento do câncer. Na Travessia, esse é exatamente o papel do PPT — Preparo Pré-Travessia.
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Veja também o que levar na primeira consulta e o panorama de o que é odontologia oncológica.
Perguntas rápidas
Uso dentadura há 20 anos sem problema. Ainda assim preciso ir? Sim. O tratamento do câncer muda a boca: a saliva diminui, a mucosa afina e a imunidade cai. A prótese que nunca incomodou pode passar a machucar — e é melhor ajustá-la antes.
Vou precisar ficar sem a dentadura durante o tratamento? Nem sempre. Depende do tratamento e da reação da sua mucosa. Em fases de mucosa inflamada, o dentista pode orientar pausas — especialmente à noite.
Como limpo a dentadura durante a quimioterapia? Escovação da prótese após as refeições, deixar de molho conforme orientação e nunca dormir com ela sem indicação. A higiene da prótese vira parte do kit de cuidado diário.
Quem usa prótese parcial (com alguns dentes) também precisa? Com mais razão ainda: além da mucosa, os dentes de apoio precisam estar saudáveis, porque são eles que seguram a prótese durante todo o tratamento.
Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual.
Fontes: NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines (Elad et al., Cancer, 2020).