A notícia
A família do ex-jogador Marcelino, um dos campeões brasileiros pelo Bahia em 1988, tornou público neste mês de agosto o diagnóstico de um glioma de alto grau — um tipo de tumor cerebral. Aos 61 anos, ele deve iniciar nos próximos dias o tratamento com quimioterapia e radioterapia, em Salvador. O filho, Marcelino Garcia, pediu orações nas redes sociais e disse que a família encara a nova batalha com confiança.
Da Travessia, o desejo é sincero e simples: que a travessia dele seja leve, e que o cuidado esteja por perto em cada etapa. Não conhecemos os detalhes do caso e não é nosso papel especular sobre a saúde dele.
Mas a notícia abre uma pergunta que praticamente nunca é feita — e que vale para muita gente.
Câncer no cérebro tem alguma coisa a ver com a boca?
Tem. Só que por um caminho diferente do que a intuição sugere.
Ninguém imagina que um tumor localizado no cérebro possa causar ferida na boca. E, de fato, não é o tumor que faz isso: é o tratamento. E aqui é preciso separar as duas coisas com precisão.
A radioterapia age no campo onde é aplicada. Quando o campo é o crânio, boa parte das glândulas salivares — que ficam mais abaixo, na região da face e do pescoço — costuma ficar fora ou receber dose reduzida, dependendo do planejamento. Ou seja: a boca seca intensa que caracteriza a radioterapia de cabeça e pescoço não é a regra no tratamento de tumores cerebrais. Mas isso depende inteiramente do campo de cada paciente — e é o radio-oncologista quem sabe exatamente o que foi irradiado. Esta é a regra que repetimos sempre: a radioterapia só afeta a boca quando o campo inclui a região da boca, da cabeça ou do pescoço.
A quimioterapia, não. Ela é sistêmica: entra na circulação e alcança o corpo inteiro — inclusive as células da mucosa da boca, que se renovam rápido e são das primeiras a sentir. No tratamento dos gliomas de alto grau, o quimioterápico mais usado é a temozolomida, tomada em comprimidos, geralmente durante as semanas de radioterapia e depois em ciclos mensais. Comprimido não significa “mais leve” para a boca: o caminho é o mesmo da quimioterapia na veia.
Esta é a frase que vale para todo câncer: a quimioterapia pode afetar a boca independentemente de onde o câncer nasceu.
O que pode aparecer na boca durante esse tratamento?
Segundo o NCI e as diretrizes MASCC/ISOO (Elad et al., 2020), os efeitos mais comuns da quimioterapia na boca são:
- Feridas (mucosite) — aftas que se espalham, ardem e dificultam comer e falar
- Boca seca — por medicação de apoio (antieméticos, corticoides, anticonvulsivantes, muito usados aqui) e por desidratação
- Infecções — candidose (“sapinho”) e herpes se aproveitam da imunidade baixa
- Gengiva sangrando, quando as plaquetas caem
- Alteração do paladar — o famoso gosto de metal
- Risco aumentado a partir de qualquer foco dentário já existente: um dente com infecção silenciosa vira porta de entrada quando as defesas caem
Há ainda um detalhe específico dos tumores cerebrais: corticoide costuma fazer parte do esquema para controlar o edema, e o uso prolongado favorece candidose. E medicações anticonvulsivantes, comuns quando há crises, podem provocar aumento do volume da gengiva — algo que exige higiene caprichada e acompanhamento.
O que fazer, na prática
- Avaliação odontológica antes de começar, sempre que houver tempo hábil — resolver o que está silencioso é o que evita a urgência no pior momento. É disso que trata o preparo da boca antes do tratamento.
- Higiene delicada e diária, mesmo com a boca ferida: escova extramacia, pasta com flúor e sem hortelã forte, fio dental com suavidade.
- Hidratação em pequenos volumes, muitas vezes ao dia.
- Bochechos sem álcool — água com sal e bicarbonato costuma ser a opção mais confortável.
- Sinal de alerta: febre acompanhada de ferida ou dor na boca durante a quimioterapia é urgência (entenda por quê).
- A família entra no cuidado. Quando o tratamento afeta a fala, a memória ou a força, a boca costuma ser a primeira rotina a se perder — e a que mais rápido se recupera com ajuda.
Perguntas rápidas
Quimioterapia em comprimido afeta a boca do mesmo jeito? Pode afetar, sim. A via de administração muda a comodidade, não o fato de o medicamento circular pelo corpo inteiro.
Radioterapia no cérebro dá boca seca? Depende do campo irradiado. Quando as glândulas salivares ficam fora ou recebem pouca dose, o efeito na saliva costuma ser bem menor do que na radioterapia de cabeça e pescoço. Quem sabe exatamente o que foi irradiado é a equipe de radio-oncologia.
Preciso de dentista mesmo com um câncer que não é da boca? Precisa. O cuidado bucal em oncologia não existe por causa do lugar do tumor — existe por causa do tratamento e da imunidade.
E se não deu tempo de ir ao dentista antes de começar? Ainda vale ir. Muita coisa pode ser feita durante o tratamento, com o cuidado de escolher o momento certo do ciclo e conversar com o oncologista.
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Para o quadro completo, veja quimioterapia e a boca: o guia completo e a radioterapia sempre afeta a boca?.
Quem está começando agora e quer a boca acompanhada junto do tratamento encontra esse cuidado no Mãos Dadas.
Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual.
Fontes: Ilhéus Informe — campeão brasileiro pelo Bahia revela diagnóstico de tumor cerebral (08/2026); NCI PDQ — Oral Complications of Cancer Therapies; Elad et al., Cancer, 2020 — MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines; Instituto Oncoguia — quimioterapia para tumores cerebrais/SNC.