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Tumor no cérebro afeta a boca? O que o tratamento do glioma pede de cuidado

Resposta direta

Pode afetar, sim — mas não do jeito que muita gente imagina. A radioterapia no crânio costuma poupar boa parte das glândulas salivares, dependendo do campo. Já a quimioterapia usada nos tumores cerebrais é sistêmica: corre pelo corpo inteiro e pode causar feridas, boca seca e infecção na boca.

Por Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista bucomaxilofacial · odontologia hospitalar (Albert Einstein) · CRO-PR 16853
Publicado em 09/08/2026 · Atualizado em 09/08/2026

A notícia

A família do ex-jogador Marcelino, um dos campeões brasileiros pelo Bahia em 1988, tornou público neste mês de agosto o diagnóstico de um glioma de alto grau — um tipo de tumor cerebral. Aos 61 anos, ele deve iniciar nos próximos dias o tratamento com quimioterapia e radioterapia, em Salvador. O filho, Marcelino Garcia, pediu orações nas redes sociais e disse que a família encara a nova batalha com confiança.

Da Travessia, o desejo é sincero e simples: que a travessia dele seja leve, e que o cuidado esteja por perto em cada etapa. Não conhecemos os detalhes do caso e não é nosso papel especular sobre a saúde dele.

Mas a notícia abre uma pergunta que praticamente nunca é feita — e que vale para muita gente.

Câncer no cérebro tem alguma coisa a ver com a boca?

Tem. Só que por um caminho diferente do que a intuição sugere.

Ninguém imagina que um tumor localizado no cérebro possa causar ferida na boca. E, de fato, não é o tumor que faz isso: é o tratamento. E aqui é preciso separar as duas coisas com precisão.

A radioterapia age no campo onde é aplicada. Quando o campo é o crânio, boa parte das glândulas salivares — que ficam mais abaixo, na região da face e do pescoço — costuma ficar fora ou receber dose reduzida, dependendo do planejamento. Ou seja: a boca seca intensa que caracteriza a radioterapia de cabeça e pescoço não é a regra no tratamento de tumores cerebrais. Mas isso depende inteiramente do campo de cada paciente — e é o radio-oncologista quem sabe exatamente o que foi irradiado. Esta é a regra que repetimos sempre: a radioterapia só afeta a boca quando o campo inclui a região da boca, da cabeça ou do pescoço.

A quimioterapia, não. Ela é sistêmica: entra na circulação e alcança o corpo inteiro — inclusive as células da mucosa da boca, que se renovam rápido e são das primeiras a sentir. No tratamento dos gliomas de alto grau, o quimioterápico mais usado é a temozolomida, tomada em comprimidos, geralmente durante as semanas de radioterapia e depois em ciclos mensais. Comprimido não significa “mais leve” para a boca: o caminho é o mesmo da quimioterapia na veia.

Esta é a frase que vale para todo câncer: a quimioterapia pode afetar a boca independentemente de onde o câncer nasceu.

O que pode aparecer na boca durante esse tratamento?

Segundo o NCI e as diretrizes MASCC/ISOO (Elad et al., 2020), os efeitos mais comuns da quimioterapia na boca são:

Há ainda um detalhe específico dos tumores cerebrais: corticoide costuma fazer parte do esquema para controlar o edema, e o uso prolongado favorece candidose. E medicações anticonvulsivantes, comuns quando há crises, podem provocar aumento do volume da gengiva — algo que exige higiene caprichada e acompanhamento.

O que fazer, na prática

Perguntas rápidas

Quimioterapia em comprimido afeta a boca do mesmo jeito? Pode afetar, sim. A via de administração muda a comodidade, não o fato de o medicamento circular pelo corpo inteiro.

Radioterapia no cérebro dá boca seca? Depende do campo irradiado. Quando as glândulas salivares ficam fora ou recebem pouca dose, o efeito na saliva costuma ser bem menor do que na radioterapia de cabeça e pescoço. Quem sabe exatamente o que foi irradiado é a equipe de radio-oncologia.

Preciso de dentista mesmo com um câncer que não é da boca? Precisa. O cuidado bucal em oncologia não existe por causa do lugar do tumor — existe por causa do tratamento e da imunidade.

E se não deu tempo de ir ao dentista antes de começar? Ainda vale ir. Muita coisa pode ser feita durante o tratamento, com o cuidado de escolher o momento certo do ciclo e conversar com o oncologista.

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Para o quadro completo, veja quimioterapia e a boca: o guia completo e a radioterapia sempre afeta a boca?.

Quem está começando agora e quer a boca acompanhada junto do tratamento encontra esse cuidado no Mãos Dadas.


Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual.

Fontes: Ilhéus Informe — campeão brasileiro pelo Bahia revela diagnóstico de tumor cerebral (08/2026); NCI PDQ — Oral Complications of Cancer Therapies; Elad et al., Cancer, 2020 — MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines; Instituto Oncoguia — quimioterapia para tumores cerebrais/SNC.