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Transplante de medula (TMO) e a boca: o preparo que os hematologistas pedem

Resposta direta

No transplante de medula (TMO), a quimioterapia em altas doses do condicionamento afeta a boca de quase todo mundo: feridas (mucosite) surgem em 75% a 100% dos transplantes de doador. Por isso os hematologistas pedem avaliação odontológica antes de começar — resolver focos de infecção na boca reduz complicações na fase de imunidade zerada.

Por Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista bucomaxilofacial · odontologia hospitalar (Albert Einstein) · CRO-PR 16853
Publicado em 26/07/2026 · Atualizado em 26/07/2026

O transplante de medula óssea — que os médicos chamam de TMO ou, mais tecnicamente, de transplante de células-tronco hematopoéticas (TCTH) — é um dos tratamentos mais intensos da oncologia e da hematologia. E é também um dos que mais mexem com a boca. Se você ou alguém que você ama vai passar por um transplante, a equipe médica quase certamente vai pedir uma coisa antes de qualquer outra: um dentista precisa olhar essa boca. Este guia explica por quê — e o que isso muda na travessia.

Por que a boca entra no preparo do transplante de medula?

Antes de receber a medula nova, o paciente passa por uma fase chamada condicionamento: doses altíssimas de quimioterapia, às vezes combinadas com irradiação de corpo inteiro, para “zerar” a medula doente e abrir espaço para as células saudáveis. Esse condicionamento não escolhe alvo: ele atinge todas as células que se renovam rápido no corpo — e a mucosa que forra a boca é uma das que mais se renovam.

O resultado é que a boca vira uma das regiões mais vulneráveis do corpo justamente no momento em que a imunidade cai a praticamente zero. Uma ferida que em outra época cicatrizaria sozinha pode, na fase de imunidade zerada (a neutropenia), virar porta de entrada para uma infecção grave. Por isso o cuidado com a boca no TMO não é estética nem conforto: é segurança clínica.

Feridas na boca no TMO são mesmo tão comuns?

São — e vale saber o tamanho real do problema para se preparar sem se assustar. As feridas na boca (mucosite) estão entre os efeitos mais frequentes e mais debilitantes do transplante de medula.

Revisões científicas mostram que a mucosite aparece em cerca de 80% a 90% do conjunto de pacientes de TMO, variando conforme o tipo de transplante: em torno de 35% a 75% nos transplantes autólogos (quando a medula é do próprio paciente) e chegando a 75% a 100% nos transplantes alogênicos (quando vem de um doador), segundo revisão sistemática publicada no Biology of Blood and Marrow Transplantation (2015). A gravidade depende muito do esquema de condicionamento: regimes mais intensos (mieloablativos) produzem mucosite mais severa do que os de intensidade reduzida.

Traduzindo: no transplante, feridas na boca não são exceção, são a regra. E a boa notícia é que existe muito a fazer para preveni-las e aliviá-las — desde que o cuidado comece antes.

O que a avaliação odontológica resolve antes do condicionamento?

Aqui está o coração do preparo. A recomendação dos serviços de transplante e das diretrizes é clara: candidatos a TMO devem passar por exame odontológico e ter os focos de infecção na boca tratados antes de iniciar o condicionamento. O objetivo é entrar no transplante com a boca “limpa” de qualquer problema que possa explodir quando a imunidade despencar.

Na prática, essa avaliação costuma cuidar de:

Estudos recentes reforçam essa lógica: o dano dentário prévio ao transplante se correlaciona com a gravidade da mucosite, o que sustenta a necessidade de uma avaliação odontológica minuciosa antes do TMO (Cytotherapy, 2025). Em bom português: quanto melhor a boca entra, mais leve tende a ser a travessia.

Existe como prevenir as feridas na boca no transplante?

Existe, e a ciência avançou bastante nisso. As diretrizes clínicas da MASCC/ISOO (a sociedade internacional de cuidados de suporte no câncer) recomendam um conjunto de medidas específicas para a prevenção da mucosite no TMO:

Nem toda medida vale para todo paciente — cada esquema de condicionamento pede uma estratégia. Por isso o cuidado com a boca no TMO precisa ser individual e integrado à equipe médica, nunca genérico.

Como cuidar da boca no dia a dia do transplante?

Durante a internação e a fase de imunidade baixa, os gestos pequenos fazem a diferença. Em geral, a equipe orienta:

O acompanhamento odontológico não termina quando o transplante acaba: a boca segue precisando de atenção nos meses seguintes, especialmente se houver doença do enxerto contra o hospedeiro (DECH), que também se manifesta na boca.

Perguntas rápidas

Preciso mesmo ir ao dentista antes do transplante de medula? Sim. É uma das recomendações mais firmes dos serviços de transplante: o exame odontológico e o tratamento de focos de infecção na boca devem acontecer antes do condicionamento. Entrar no TMO com a boca em ordem reduz o risco de complicações na fase de imunidade zerada.

Todo mundo tem feridas na boca no TMO? Quase. A mucosite aparece em cerca de 80% a 90% dos pacientes de transplante no conjunto, chegando a 75%–100% nos transplantes de doador. A gravidade varia com o esquema de condicionamento — e a prevenção iniciada antes ajuda a torná-la mais suave.

A laserterapia funciona mesmo para prevenir a mucosite no transplante? As diretrizes MASCC/ISOO recomendam a fotobiomodulação (laser de baixa potência) para prevenir a mucosite em pacientes de TMO condicionados com quimioterapia em altas doses. É indolor e feita por profissional treinado. A indicação, porém, depende do seu protocolo e deve ser decidida com a equipe.

Dá tempo de arrumar a boca se o transplante é logo? O ideal é ter uma margem para cicatrizar antes da imunidade cair. Por isso, quanto antes o dentista for acionado, melhor. Mesmo com pouco tempo, uma avaliação orienta o que priorizar em segurança — converse com sua equipe o quanto antes.

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Se um transplante está no caminho, o momento de cuidar da boca é agora, antes do condicionamento. Na Travessia, o acompanhamento durante todo o tratamento é o Mãos Dadas: atravessar de mãos dadas com quem cuida da sua boca, em diálogo com a equipe médica.


Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica.

Fontes: NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines (Elad et al., Cancer, 2020); The Incidence and Severity of Oral Mucositis among Allogeneic HSCT Patients: A Systematic Review (Biology of Blood and Marrow Transplantation, 2015); Dental health, conditioning and oral mucositis in allogeneic HSCT (Cytotherapy, 2025); Oral Mucositis Association with Periodontal Status: retrospective analysis of 496 HSCT patients.