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Saliva artificial feita de cana-de-açúcar: o que a pesquisa da USP muda para quem fez radioterapia

Resposta direta

A CANECPI-5 é uma proteína da cana-de-açúcar desenvolvida na USP de Bauru que forma sobre o esmalte uma película parecida com a da saliva, reduzindo o desgaste por ácidos. Os resultados são de laboratório e promissores — mas ainda faltam estudos em pessoas antes de chegar ao consultório.

Por Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista bucomaxilofacial · odontologia hospitalar (Albert Einstein) · CRO-PR 16853
Publicado em 18/08/2026 · Atualizado em 18/08/2026

De vez em quando aparece uma notícia científica que fala diretamente com quem passou por radioterapia na região da cabeça e do pescoço. Esta é uma delas — e ela vem do Brasil.

O que os pesquisadores fizeram

Uma equipe da Faculdade de Odontologia de Bauru da USP (FOB-USP) desenvolveu uma molécula chamada CANECPI-5, obtida por biotecnologia a partir de uma proteína da cana-de-açúcar. Ela é biomimética: imita o comportamento das proteínas da saliva que se depositam sobre o dente e formam uma película invisível de proteção.

Nos experimentos, essa película reduziu o desgaste do esmalte causado por ácidos. E o efeito aumentou quando a molécula foi combinada com flúor e xilitol. O trabalho, desenvolvido no doutorado de Natara Dias Gomes da Silva, foi publicado no Journal of Dentistry em abril de 2026 e divulgado pela Agência FAPESP.

Por que isso interessa a quem fez radioterapia

Porque a saliva não serve só para umedecer a boca. Ela lubrifica a mucosa, ajuda a engolir e a falar, controla microrganismos e — o ponto central aqui — forma sobre o dente uma camada que o protege do ataque ácido.

Quando a radioterapia inclui a região da boca no campo irradiado, as glândulas salivares podem ser danificadas e a produção de saliva cai. Sem essa camada, o esmalte fica exposto: é assim que nasce a cárie de radiação, uma cárie que avança rápido, atinge vários dentes ao mesmo tempo e costuma começar pela margem da gengiva.

Uma molécula que devolve parte dessa película é, em teoria, uma peça exatamente no lugar que ficou vazio.

Vale dizer com clareza: isso vale para quem teve o campo de irradiação na região da boca, cabeça ou pescoço. Radioterapia de mama, próstata, pulmão ou abdômen não resseca a boca — como explicamos em a radioterapia sempre afeta a boca?.

O que ainda não sabemos

Aqui é onde a honestidade importa mais do que o entusiasmo.

Os resultados divulgados até agora vêm de estudos de laboratório. Ainda são necessários ensaios clínicos em pessoas para confirmar segurança e eficácia. O produto não está disponível para uso clínico de rotina, não é vendido em farmácia e não substitui nada do que existe hoje.

O caminho provável, se os resultados se confirmarem, é a incorporação da molécula a enxaguantes ou géis específicos. Isso leva anos. Não é motivo para desanimar — é motivo para não trocar o cuidado real de hoje por uma expectativa de amanhã.

O que protege os seus dentes hoje

Enquanto a ciência avança, o que já tem evidência e está disponível continua sendo o essencial:

E a pergunta que sempre vem junto: a boca seca é para sempre? Respondemos com nuance em boca seca depois da radioterapia é para sempre?.

Perguntas rápidas

Posso comprar essa saliva de cana-de-açúcar? Não. A tecnologia está em fase de pesquisa e não há produto disponível para uso clínico. Desconfie de qualquer coisa vendida com esse nome.

A saliva artificial que existe hoje na farmácia funciona? Ela alivia o desconforto e ajuda na lubrificação, o que é valioso no dia a dia. O que ela não faz é reconstruir a proteção do esmalte — por isso o flúor continua sendo o pilar da prevenção da cárie de radiação.

Quem faz só quimioterapia também precisa disso? A boca seca da quimioterapia costuma ser transitória e não segue o mesmo padrão de cárie agressiva. O cuidado é outro — veja boca seca no tratamento do câncer.

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Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual.

Fontes: Agência FAPESP — Saliva artificial ajuda a proteger os dentes de pacientes com câncer de cabeça e pescoço; USP Campus Bauru — divulgação da pesquisa da FOB-USP; NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; Elad et al., Cancer, 2020 — MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines.