De vez em quando aparece uma notícia científica que fala diretamente com quem passou por radioterapia na região da cabeça e do pescoço. Esta é uma delas — e ela vem do Brasil.
O que os pesquisadores fizeram
Uma equipe da Faculdade de Odontologia de Bauru da USP (FOB-USP) desenvolveu uma molécula chamada CANECPI-5, obtida por biotecnologia a partir de uma proteína da cana-de-açúcar. Ela é biomimética: imita o comportamento das proteínas da saliva que se depositam sobre o dente e formam uma película invisível de proteção.
Nos experimentos, essa película reduziu o desgaste do esmalte causado por ácidos. E o efeito aumentou quando a molécula foi combinada com flúor e xilitol. O trabalho, desenvolvido no doutorado de Natara Dias Gomes da Silva, foi publicado no Journal of Dentistry em abril de 2026 e divulgado pela Agência FAPESP.
Por que isso interessa a quem fez radioterapia
Porque a saliva não serve só para umedecer a boca. Ela lubrifica a mucosa, ajuda a engolir e a falar, controla microrganismos e — o ponto central aqui — forma sobre o dente uma camada que o protege do ataque ácido.
Quando a radioterapia inclui a região da boca no campo irradiado, as glândulas salivares podem ser danificadas e a produção de saliva cai. Sem essa camada, o esmalte fica exposto: é assim que nasce a cárie de radiação, uma cárie que avança rápido, atinge vários dentes ao mesmo tempo e costuma começar pela margem da gengiva.
Uma molécula que devolve parte dessa película é, em teoria, uma peça exatamente no lugar que ficou vazio.
Vale dizer com clareza: isso vale para quem teve o campo de irradiação na região da boca, cabeça ou pescoço. Radioterapia de mama, próstata, pulmão ou abdômen não resseca a boca — como explicamos em a radioterapia sempre afeta a boca?.
O que ainda não sabemos
Aqui é onde a honestidade importa mais do que o entusiasmo.
Os resultados divulgados até agora vêm de estudos de laboratório. Ainda são necessários ensaios clínicos em pessoas para confirmar segurança e eficácia. O produto não está disponível para uso clínico de rotina, não é vendido em farmácia e não substitui nada do que existe hoje.
O caminho provável, se os resultados se confirmarem, é a incorporação da molécula a enxaguantes ou géis específicos. Isso leva anos. Não é motivo para desanimar — é motivo para não trocar o cuidado real de hoje por uma expectativa de amanhã.
O que protege os seus dentes hoje
Enquanto a ciência avança, o que já tem evidência e está disponível continua sendo o essencial:
- Flúor de alta concentração, na forma prescrita pelo dentista, e moldeira de flúor quando indicada
- Hidratação constante da boca e substitutos de saliva convencionais — o manejo completo da boca seca
- Higiene todos os dias, com atenção redobrada à margem da gengiva, que é onde a cárie de radiação costuma começar
- Consultas de acompanhamento mais frequentes do que o intervalo habitual, porque a lesão avança rápido e o diagnóstico precoce muda o desfecho
- Cuidado com o açúcar em goles ao longo do dia — bala, suco e refrigerante para “aliviar a boca seca” são um risco somado a outro
E a pergunta que sempre vem junto: a boca seca é para sempre? Respondemos com nuance em boca seca depois da radioterapia é para sempre?.
Perguntas rápidas
Posso comprar essa saliva de cana-de-açúcar? Não. A tecnologia está em fase de pesquisa e não há produto disponível para uso clínico. Desconfie de qualquer coisa vendida com esse nome.
A saliva artificial que existe hoje na farmácia funciona? Ela alivia o desconforto e ajuda na lubrificação, o que é valioso no dia a dia. O que ela não faz é reconstruir a proteção do esmalte — por isso o flúor continua sendo o pilar da prevenção da cárie de radiação.
Quem faz só quimioterapia também precisa disso? A boca seca da quimioterapia costuma ser transitória e não segue o mesmo padrão de cárie agressiva. O cuidado é outro — veja boca seca no tratamento do câncer.
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Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual.
Fontes: Agência FAPESP — Saliva artificial ajuda a proteger os dentes de pacientes com câncer de cabeça e pescoço; USP Campus Bauru — divulgação da pesquisa da FOB-USP; NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; Elad et al., Cancer, 2020 — MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines.