A notícia
No Domingão com Huck de 5 de julho, o narrador Luís Roberto, há 40 anos na TV Globo, emocionou o país ao contar por que ficou fora das transmissões da Copa do Mundo: uma neoplasia na região cervical, descoberta em exame de rotina. “São 33 sessões de radioterapia e sete de quimioterapia”, contou o jornalista, descrevendo os últimos dois meses de tratamento.
Daqui da Travessia, desejamos ao Luís Roberto uma travessia serena — e aproveitamos a pergunta que chegou de muitos pacientes esta semana: um tratamento assim afeta a boca?
A resposta precisa: depende de onde a radiação incide
Muita gente acredita que “radioterapia dá ferida na boca” sempre. Não é assim — e essa precisão importa:
- A radioterapia age onde o feixe passa. Se o campo irradiado inclui a região da boca, da cabeça ou do pescoço, a mucosa, as glândulas salivares e os ossos maxilares podem ser afetados — com feridas, boca seca intensa e riscos ao osso que pedem preparo específico.
- Se a radiação é em outra parte do corpo (mama, próstata, abdômen, coluna), ela não atinge a boca diretamente.
- Regiões vizinhas pedem avaliação individual: em campos próximos, como o pescoço, quem define exatamente o que entra no feixe é a equipe de radio-oncologia — por isso o relatório do físico médico e a conversa entre as equipes valem mais do que qualquer generalização.
E a quimioterapia? Essa vale para todo câncer
Aqui a regra é outra: a quimioterapia circula pelo corpo inteiro — e a boca, com sua mucosa de renovação rápida, sente. Feridas (mucosite), boca seca, gosto de metal e maior risco de infecção podem aparecer em qualquer tipo de câncer, do linfoma ao câncer de mama.
E quando radioterapia e quimioterapia acontecem juntas, como no tratamento que o narrador descreveu, o corpo trabalha dobrado — o que torna o cuidado de suporte (nutrição, saúde mental, boca) ainda mais importante. O próprio Luís Roberto resumiu a lição: o que o sustenta é a rede — família, colegas, público. Cuidado nunca é solitário.
O que fazer se você (ou alguém que você ama) vai começar um tratamento assim
- Pergunte à equipe qual é o campo da radioterapia. Se incluir boca, cabeça ou pescoço, a avaliação odontológica antes de começar não é opcional — extrações no campo irradiado precisam cicatrizar antes, e a moldeira de flúor deve nascer junto com a máscara.
- Toda quimioterapia merece uma boca preparada. Focos de infecção resolvidos com 7 a 10 dias de antecedência evitam urgências no meio do protocolo — é o nosso PPT — Preparo Pré-Travessia.
- Durante, não aguente calado. Ferida, ardência, gosto que sumiu: tudo isso tem cuidado — inclusive laserterapia com recomendação de diretriz internacional (MASCC/ISOO). É o desenho do Mãos Dadas.
Perguntas rápidas
Exame de rotina descobre câncer mesmo? Sim — e o caso do narrador é um lembrete do valor do check-up. Muitos tumores descobertos cedo têm tratamento mais curto e desfecho melhor.
33 sessões de radioterapia é muito? É um número dentro do comum para vários protocolos. O total de sessões é calculado pela equipe para somar a dose certa no lugar certo, protegendo o que está ao redor.
Quem faz radioterapia longe da boca precisa de dentista oncológico? Se houver quimioterapia junto, sim — pela via do sangue, não do feixe. E se houver medicação para os ossos no plano, a avaliação antes da primeira dose previne a osteonecrose dos maxilares.
Notícia: Purepeople, 05/07/2026. Fontes clínicas: NCI PDQ — Oral Complications of Cancer Therapies; MASCC/ISOO (Elad et al., 2020; Zadik et al., 2019); INCA.