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Radioterapia na região da cabeça e pescoço e a boca: o guia completo dos efeitos e de como se proteger

Resposta direta

A radioterapia só afeta a boca quando o campo irradiado inclui a região da boca, cabeça ou pescoço. Nesses casos, ela pode reduzir a saliva em até 90%, causar feridas, cárie de radiação e dificuldade de abrir a boca, e deixa o osso mais frágil para sempre. O cuidado odontológico antes, durante e depois previne as complicações mais graves.

Por Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista bucomaxilofacial · odontologia hospitalar (Albert Einstein) · CRO-PR 16853
Publicado em 13/07/2026 · Atualizado em 19/07/2026

Por que este guia importa tanto

De todos os tratamentos do câncer, a radioterapia na região da cabeça e pescoço é a que deixa as marcas mais duradouras na boca. Ela é poderosa e salva vidas — mas, para chegar ao tumor, a radiação atravessa glândulas de saliva, gengiva, osso e mucosa. E, diferentemente da quimioterapia (cujos efeitos na boca costumam passar depois do tratamento), boa parte das mudanças causadas pela radiação na região da boca acompanha a pessoa pela vida.

A boa notícia é que quase tudo aqui é previsível — e, sendo previsível, é preparável. Este guia reúne, num só lugar, o que acontece com a boca durante a radioterapia de cabeça e pescoço, por que acontece e o que realmente protege. Ele é o ponto de partida do nosso conjunto de artigos sobre radiação: cada tema abaixo tem (ou terá) um texto próprio, mais fundo.

A radioterapia sempre afeta a boca?

Não. A radioterapia só afeta a boca quando o campo irradiado inclui a região da boca, cabeça ou pescoço. Essa distinção é o coração de tudo o que vem a seguir, e é onde muita informação na internet erra.

A radioterapia age de forma local: ela mira uma área específica do corpo e trata o que está dentro daquele campo. Quem faz radioterapia de mama, de próstata, de pulmão ou do abdômen não tem a boca afetada pela radiação, porque as glândulas salivares, a gengiva e o osso da boca ficam longe do feixe.

Já quando o tumor está na boca, na língua, na garganta (orofaringe), na laringe, nas amígdalas, nas glândulas salivares ou em estruturas do pescoço, o campo de radiação passa por dentro da boca — e aí, sim, os efeitos que este guia descreve entram em cena. (A quimioterapia é diferente: por circular pelo corpo inteiro, ela afeta a boca em qualquer tipo de câncer.)

Quais são os principais efeitos da radioterapia na boca?

São cinco os efeitos que mais aparecem. Alguns surgem já nas primeiras semanas; outros só se revelam meses ou anos depois.

1. Boca seca (xerostomia). As glândulas que produzem saliva — sobretudo as parótidas — são muito sensíveis à radiação. Quando ficam no campo irradiado, o fluxo de saliva pode cair em até 90%, e doses acima de cerca de 40–65 Gy na região podem causar redução duradoura ou permanente. Sem saliva, tudo na boca fica em risco ao mesmo tempo: mastigar, engolir, sentir sabor e se proteger de cáries e infecções. É o efeito mais definidor da radioterapia de cabeça e pescoço.

2. Feridas na boca (mucosite). A radiação inflama a mucosa que forra a boca e a garganta, provocando feridas dolorosas que dificultam comer, beber e falar. Segundo o National Cancer Institute (NCI), praticamente todas as pessoas que recebem radioterapia na região da cabeça e pescoço desenvolvem algum grau de mucosite — é o efeito agudo mais comum. Ela costuma melhorar algumas semanas após o fim das sessões.

3. Cárie de radiação. Com pouca saliva, os dentes perdem sua principal linha de defesa e podem se deteriorar de forma rápida e agressiva — uma cárie que aparece em locais incomuns e avança depressa. É uma das razões pelas quais o flúor de uso diário passa a ser companheiro para a vida toda depois da radiação.

4. Dificuldade de abrir a boca (trismo). A radiação pode enrijecer os músculos e a articulação da mastigação, limitando a abertura da boca. Isso atrapalha comer, escovar os dentes e até ser examinado pelo dentista. Exercícios de abertura, iniciados cedo, ajudam a preservar o movimento.

5. Osso mais frágil e o risco de osteorradionecrose (ORN). Este é o efeito mais temido, embora não seja o mais frequente. A radiação estreita os vasos que irrigam o osso da mandíbula e reduz sua capacidade de cicatrizar — uma mudança que não desaparece com o tempo. Mexer nesse osso sem critério (uma extração mal planejada, por exemplo) pode desencadear a osteorradionecrose, em que uma parte do osso deixa de cicatrizar. O alerta máximo das diretrizes acende a partir de doses de ~50–60 Gy na região.

Quando o cuidado com a boca deve começar?

Antes da primeira sessão de radioterapia — sempre que possível. Essa é a regra de ouro da odontologia oncológica, e ela muda o desfecho de tudo o que vem depois.

O motivo é direto: depois que o osso é irradiado, ele fica frágil para sempre, e procedimentos como extrações passam a ser arriscados. Por isso, o momento certo de resolver focos de infecção, cáries profundas e dentes sem recuperação é antes de a radiação começar — quando o osso ainda cicatriza normalmente. As diretrizes recomendam concluir os procedimentos que exigem cicatrização com uma antecedência que permita o osso se recuperar (em geral, ao menos 2 a 3 semanas) antes do início da radioterapia de cabeça e pescoço.

Essa preparação da boca antes do tratamento é o que chamamos, na Travessia, de PPT — Preparação Pré-Tratamento: uma avaliação completa que limpa o terreno para que a radioterapia siga sem sustos vindos da boca. Se você ou alguém que você ama vai começar a radioterapia na região da cabeça e pescoço, esse é o passo que não pode ficar para depois.

O que protege a boca durante a radioterapia?

Durante as sessões, o cuidado diário é o que segura a onda dos efeitos agudos:

Esse acompanhamento lado a lado durante o tratamento é o coração do nosso programa Mãos Dadas — porque ninguém deveria atravessar essa fase sozinho.

E depois que a radioterapia termina?

Alguns efeitos melhoram (as feridas cicatrizam em semanas); outros permanecem (a boca seca e a fragilidade do osso podem ser para sempre). Por isso, o cuidado não acaba com a última sessão:

Perguntas rápidas

Todo mundo que faz radioterapia fica com a boca seca? Só quem irradia a região da boca, cabeça ou pescoço, porque é ali que ficam as glândulas de saliva. Radioterapia em outras partes do corpo não resseca a boca.

A boca seca da radioterapia melhora depois? Às vezes melhora parcialmente, mas doses altas nas glândulas podem causar redução permanente. Por isso a proteção dos dentes com flúor vira um cuidado para a vida.

Posso extrair um dente depois da radioterapia na cabeça e pescoço? Exige muito critério e proteção, pelo risco de osteorradionecrose. O ideal é resolver tudo o que precisa de extração antes de começar a radiação.

Já faço radioterapia e ninguém falou da minha boca. É tarde? Não. Nunca é tarde para começar a proteger. Procure um dentista com experiência em oncologia o quanto antes — cada semana de cuidado conta.


Revisado pela Dra. Jossânia, cirurgiã-dentista (CRO-PR), com atuação em odontologia oncológica.

Fontes: National Cancer Institute — PDQ Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines (Elad et al., 2020; Zadik et al., 2019, laserterapia); ISOO/MASCC/ASCO — Diretriz de Osteorradionecrose (2024); INCA — Câncer de boca e orofaringe.

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Para seguir se informando: Como preparar a boca antes da radioterapia de cabeça e pescoço e Mucosite na radioterapia: feridas na boca.