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Quimioterapia estraga os dentes? Mito ou verdade

Resposta direta

Depende — em parte é mito. A quimioterapia não apodrece os dentes diretamente, mas aumenta o risco de cárie por caminhos indiretos: boca seca, vômitos ácidos, dieta mais pastosa e açucarada e higiene dolorida. Já a radioterapia na região da boca pode causar a cárie de radiação, que avança rápido sem flúor.

Por Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista bucomaxilofacial · odontologia hospitalar (Albert Einstein) · CRO-PR 16853
Publicado em 06/08/2026 · Atualizado em 06/08/2026

“Fulano fez quimio e perdeu todos os dentes.” Quase todo mundo já ouviu uma história assim — e ela assusta quem está prestes a começar. Vamos separar o que é mito do que é real.

A quimioterapia ataca o dente diretamente?

Não. O dente adulto é um tecido mineralizado, sem células se dividindo — e a quimioterapia age sobre células que se multiplicam rápido. Por isso ela afeta a mucosa (que se renova a cada poucos dias), a saliva e as defesas do sangue, mas não “derrete” nem apodrece o esmalte por conta própria.

Segundo o NCI PDQ, cerca de 40% das pessoas em quimioterapia têm complicações na boca — e as principais são feridas na mucosa, infecções e boca seca. Dente estragado não está na lista de efeitos diretos.

Então de onde vem a história dos dentes estragados?

Do efeito indireto, que é real e tem quatro caminhos:

  1. Boca seca — menos saliva, menos defesa natural contra a cárie.
  2. Vômitos — o ácido do estômago amolece o esmalte (como proteger os dentes do ácido).
  3. Dieta de tratamento — mais pastosa, mais frequente, muitas vezes mais açucarada.
  4. Higiene dolorida — quando a boca dói, escova-se menos.

Os quatro juntos, por meses, aumentam sim o risco de cárie. A boa notícia: todos têm prevenção simples — flúor, hidratação, escova extramacia e acompanhamento (o guia completo da quimio e a boca).

E a “cárie de radiação”?

Essa é outra história — e não é da quimioterapia. Quem faz radioterapia com campo na região da boca, cabeça ou pescoço pode desenvolver a cárie de radiação: com as glândulas salivares irradiadas, a saliva despenca e a cárie aparece meses depois, avançando rápido, junto à gengiva. Ela se previne com flúor de alta concentração de uso contínuo (entenda aqui). Radioterapia em outras regiões do corpo não causa isso.

O que fazer com essa informação?

Não adiar o tratamento por medo dos dentes — e sim preparar a boca antes de começar: resolver cáries e infecções, ajustar a higiene e montar a rotina de proteção. É exatamente o desenho do PPT — Preparo Pré-Travessia.

Continue lendo

Veja como preparar a boca antes do tratamento e quantos dias antes da quimio resolver os dentes.

Perguntas rápidas

Vou perder meus dentes na quimioterapia? Não é o esperado. Com preparo antes e cuidado durante, a imensa maioria termina o tratamento com os dentes que tinha ao começar.

Por que extraem dentes antes da quimio, então? Só os que já estão comprometidos — focos de infecção que seriam perigosos com a imunidade baixa. Dente saudável não se extrai por precaução.

Criança em quimio tem risco diferente? Sim: dentes em formação podem ser afetados no desenvolvimento, por isso o acompanhamento é ainda mais próximo (o cuidado com a criança).

Quimioterapia deixa os dentes escuros? Alguns quimioterápicos podem alterar temporariamente a cor de restaurações ou causar manchas superficiais, mas escurecimento permanente do dente não é efeito típico.


Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual.

Fontes: NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines (Elad et al., Cancer, 2020).