O que aconteceu?
Hoje, 20 de julho de 2026, completa-se um ano da morte de Preta Gil. Para marcar a data, a TV Globo e o Globoplay estrearam a programação especial “Quanto mais Preta, melhor”: o filme documental “Preta — Eu não ando só”, dirigido por Sandra Kogut, vai ao ar na Tela Quente com imagens inéditas das etapas do tratamento; e o Globoplay libera o primeiro dos quatro episódios da série “Meu nome é Preta”, dirigida por Mini Kerti, com depoimentos de familiares e amigos como Gilberto Gil, Francisco Gil, Carolina Dieckmann, Ivete Sangalo e Angélica. Os demais episódios chegam em 27 de julho, 3 de agosto e 8 de agosto — data em que ela faria aniversário.
Preta foi diagnosticada com câncer de intestino em 2023 e fez algo raro: contou. Falou de cadeira de quimioterapia, de cabelo, de cansaço, de medo, de bolsa de ileostomia, de coisas que a maioria das pessoas esconde. Essa escolha derrubou tabus e provavelmente levou muita gente a marcar um exame.
Aqui na Travessia, a nossa homenagem é continuar a conversa que ela abriu — falando de um capítulo do tratamento que quase ninguém menciona: a boca.
O câncer de intestino afeta a boca?
O tumor em si, não. O câncer colorretal fica no intestino grosso ou no reto, e a cirurgia para removê-lo não passa pela boca. Se a pergunta fosse só sobre a doença, a resposta seria simples.
Mas o tratamento é outra história. A quimioterapia circula pelo corpo inteiro pela corrente sanguínea — ela não sabe distinguir a célula do tumor da célula saudável que se divide rápido. E as células que forram a boca estão entre as que mais se renovam: a cada poucos dias.
Por isso vale a regra que repetimos sempre: a quimioterapia pode afetar a boca em qualquer tipo de câncer — intestino, mama, próstata, pulmão, linfoma. Não é preciso que o tumor esteja na cabeça ou no pescoço.
Segundo o National Cancer Institute, cerca de 40% das pessoas em quimioterapia desenvolvem alguma complicação na boca. As mais comuns são:
- Feridas na boca (mucosite) — ardem, doem para falar e comer;
- Boca seca — menos saliva para proteger dentes e mucosa;
- Gosto alterado — a comida perde a graça justamente quando alimentar-se bem é essencial;
- Infecções — nos dias de imunidade baixa, uma infecção na boca pode causar febre e adiar a próxima sessão.
Vale a distinção que faz diferença: a radioterapia só afeta a boca quando o campo tratado inclui a região da boca, da cabeça ou do pescoço. Quem faz radioterapia na pelve, por exemplo, não carrega esses efeitos na boca. Já a quimio, que corre pelo corpo todo, é outra conversa.
Por que a boca importa tanto num tratamento de intestino?
Porque comer é parte do tratamento. Num câncer do aparelho digestivo, manter peso, força e nutrição é uma das batalhas centrais — e a porta por onde a comida entra é a boca. Quando ela dói, arde ou está seca, a pessoa come menos exatamente quando mais precisaria comer.
E há a camada que os protocolos não medem: a boca é por onde se fala, se ri, se canta, se beija. Para uma artista que fez da voz o seu ofício, isso é literal. Para todo mundo, é o que sustenta a dignidade nos meses difíceis.
O que fazer, na prática?
- Antes de começar, sempre que houver tempo: avaliação odontológica para resolver focos de infecção — é o Plano Pré-Tratamento, o cuidado que evita surpresas no meio dos ciclos;
- Durante: higiene suave e constante com escova extramacia, enxaguante sem álcool, hidratação frequente, comida em temperatura amena;
- Avisar rápido a equipe quando aparecer ferida, dor para engolir ou febre — quanto antes se trata, menor o problema.
Sobre detecção precoce
Preta falou muito sobre isso, e vale repetir com a voz dela ecoando: o câncer de intestino tem exames que o encontram cedo. O INCA recomenda atenção a sinais como sangue nas fezes, mudança persistente do hábito intestinal, dor abdominal frequente e perda de peso sem explicação — e o rastreamento na faixa etária indicada pelo seu médico. Encontrar cedo muda o caminho.
E o mesmo vale para a boca: ferida que não cicatriza em 15 dias, mancha branca ou vermelha, caroço ou dormência merecem avaliação sem espera.
Um ano depois, o que fica de Preta Gil não é só a falta. É a conversa que ela destravou — sobre corpo, tratamento, medo e vida. Que ela continue.
Perguntas rápidas
Fiz cirurgia de intestino, mas não vou fazer quimioterapia. Preciso me preocupar com a boca? O cuidado é o de sempre: higiene e revisões regulares. As complicações bucais descritas aqui vêm da quimioterapia, não da cirurgia abdominal. Se a quimio entrar no plano depois, aí sim vale a avaliação odontológica antes de começar.
A quimioterapia do câncer de intestino causa feridas na boca em todo mundo? Não em todo mundo. Depende do esquema de medicamentos, da dose, da duração e da saúde bucal prévia. A boa notícia é que grande parte dessas complicações é prevenível ou pode ser bastante amenizada com preparo e acompanhamento.
Posso ir ao dentista durante a quimioterapia? Pode, e deve — com o momento escolhido junto à equipe médica, em geral nos dias em que a contagem de células de defesa está mais alta. Procedimentos cirúrgicos exigem hemograma recente e conversa com o oncologista.
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Entenda por que a quimioterapia afeta a boca em qualquer câncer e veja o guia completo da quimioterapia e a boca.
Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica.
Fontes: Brasil em Folhas — “Homenagem a Preta Gil estreia na TV e no streaming” (19/07/2026); Jornal Correio — “Preta Gil será homenageada em edição especial do Sem Censura” (2026); NCI PDQ — Oral Complications of Cancer Therapies; MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines (Elad et al., Cancer, 2020); INCA — Câncer de intestino.