A pergunta por trás da pergunta
Quem faz essa pergunta quase sempre está diante de uma cena específica: o dentista disse que um dente precisa sair antes do tratamento começar, e a pessoa pensa — já que vai tirar, não dá para colocar o implante junto e resolver tudo de uma vez?
Faz todo sentido querer isso. Mas a resposta costuma ser não, agora não é o momento — e o motivo é de tempo, não de impossibilidade.
Por que não agora?
Um implante não termina no dia da cirurgia. Ele precisa de um período de integração ao osso que, em geral, leva de três a seis meses. Durante esse tempo, a área precisa de cicatrização tranquila, sem infecção e com boa imunidade.
O tratamento do câncer, por sua vez, tem hora marcada — e ele muda exatamente as três condições de que o implante precisa:
- A imunidade cai. A quimioterapia derruba os glóbulos brancos em ciclos; uma cirurgia recente vira porta de entrada para infecção.
- A cicatrização fica mais lenta. Justamente na fase em que a ferida precisa fechar.
- O calendário não abre espaço. Nenhum ciclo de quimioterapia ou início de radioterapia deve ser adiado para esperar um implante integrar. A prioridade absoluta é o tratamento oncológico.
Somando: colocar um implante às vésperas do tratamento significa entrar na fase mais vulnerável com uma cirurgia recente na boca. É o oposto do que o preparo busca.
Então o que se faz antes de começar?
A meta do preparo é enxuta e clara: entrar no tratamento sem infecção e sem trauma na boca. Segundo o National Cancer Institute (NCI), cerca de 4 em cada 10 pessoas em quimioterapia desenvolvem alguma complicação oral — e um foco de infecção prévio piora esse cenário.
Na prática, isso significa tratar cáries e infecções de raiz, remover dentes sem recuperação, tratar a gengiva, ajustar próteses que machucam e organizar a higiene. Repor o dente ausente não entra nessa lista — a ausência de um dente não interrompe o tratamento; uma infecção, sim.
Para quem vai fazer radioterapia com campo na região da boca, cabeça ou pescoço, há um agravante: extrações precisam acontecer com pelo menos 2 a 3 semanas de antecedência para cicatrizar. Já quem vai iniciar medicação óssea (bisfosfonato, denosumabe) precisa resolver tudo o que for cirúrgico antes da primeira dose.
E a falta do dente enquanto isso?
Existem soluções provisórias — próteses removíveis simples, mantenedores estéticos — que devolvem aparência e alguma função sem cirurgia. Elas precisam ser bem ajustadas para não machucar a mucosa durante o tratamento, quando qualquer trauma vira ferida com facilidade.
Conversar sobre isso no preparo evita meses de constrangimento desnecessário.
E depois, o implante entra?
Depende — e a resposta muda conforme o tratamento que você fizer.
Se você fizer quimioterapia sem radiação na região da boca, cabeça ou pescoço, o implante costuma voltar à mesa quando a recuperação permitir, com critérios próximos dos habituais.
Se houver radioterapia com campo na região da boca, a conversa é outra: em osso irradiado, a indicação depende da dose, da região, do tempo e da sua saúde bucal — e em parte dos casos o implante não é indicado, pelo risco de osteorradionecrose. Isso não é o fim da reabilitação: prótese, restauração e ajustes reconstroem função e sorriso. Reabilitar é sempre possível — o caminho é que é individual.
Se você está começando agora, o roteiro do preparo está no PPT — Preparo Pré-Travessia.
Perguntas rápidas
E se eu já tenho implantes colocados há anos? Implantes já integrados e saudáveis costumam ser mantidos. Eles entram na avaliação como qualquer outra estrutura: o que se checa é a gengiva ao redor, a higiene e a estabilidade. Avise sempre a equipe.
Coloquei um implante há pouco tempo e vou começar o tratamento. E agora? Avise o dentista e o oncologista. A área precisa ser acompanhada de perto durante a fase de imunidade baixa, e a colocação da parte protética costuma ser reprogramada conforme o calendário do tratamento.
Dá para adiar o tratamento do câncer para fazer o implante antes? Não. O tratamento oncológico tem prioridade sobre qualquer procedimento eletivo. A boca se organiza em torno do calendário dele, nunca o contrário.
Vou ficar sem o dente para sempre? Não. A reposição fica para a fase de reabilitação, com o caminho definido pelo que o seu tratamento deixou. Veja como se monta esse plano.
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Entenda quantos dias antes da quimioterapia é preciso resolver os dentes e leia sobre implante dentário depois da radioterapia.
Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica — Curitiba/PR.
Fontes: NCI PDQ — Oral Complications of Cancer Therapies; MASCC/ISOO — Elad et al., Cancer, 2020; Schiegnitz et al., Clinical Oral Investigations, 2021 — implantes e osteorradionecrose em pacientes irradiados.