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Tenho piercing na língua ou no lábio e vou começar o tratamento do câncer. Preciso tirar?

Resposta direta

Na maioria dos casos, sim. Piercing na língua, no lábio ou na bochecha mantém uma ferida aberta dentro da boca e atrita contra a mucosa que vai ficar frágil — dois riscos sérios quando a imunidade cai. A orientação é retirar antes de começar e reavaliar depois da alta.

Por Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista bucomaxilofacial · odontologia hospitalar (Albert Einstein) · CRO-PR 16853
Publicado em 28/08/2026 · Atualizado em 28/08/2026

É uma pergunta que quase nunca aparece na consulta com o oncologista, e que a pessoa acaba fazendo baixinho, meio sem jeito, achando que é bobagem perto do tamanho do que está enfrentando. Não é bobagem. Um piercing na boca é, tecnicamente, uma ferida permanente em contato com bactérias — e isso muda de importância quando o tratamento do câncer começa.

Por que o piercing oral vira um problema durante o tratamento?

Por três motivos que se somam.

1. O furo nunca fecha por completo. Um piercing oral mantém um trajeto aberto atravessando a mucosa, permanentemente colonizado pelas bactérias da boca. Fora do tratamento, o corpo dá conta. Durante a quimioterapia, nem sempre.

2. A imunidade cai — e ela cai em ciclos. Alguns dias depois de cada sessão, os neutrófilos (as células de defesa contra infecção) chegam ao ponto mais baixo. É o período chamado de neutropenia, e é nele que qualquer porta de entrada bacteriana pesa mais. Segundo o National Cancer Institute, a boca é uma das principais fontes de infecção sistêmica em pacientes mielossuprimidos — e infecção com neutropenia é uma das urgências mais temidas da oncologia.

3. O metal machuca uma mucosa que vai ficar frágil. A quimioterapia e a radioterapia na região da boca danificam as células que revestem a boca por dentro, causando a mucosite — as feridas na boca. Cerca de 40% das pessoas em quimioterapia desenvolvem alguma complicação bucal, e o índice ultrapassa 80% na radioterapia de cabeça e pescoço. Uma joia que roça a bochecha ou a gengiva o dia inteiro em uma mucosa saudável causa apenas um calo. Na mucosa em mucosite, causa uma úlcera que não fecha.

Vale lembrar: a quimioterapia afeta a boca em qualquer tipo de câncer, porque o medicamento circula pelo corpo inteiro. Já a radioterapia afeta a boca quando o campo irradiado inclui a região da boca, cabeça ou pescoço.

O que os centros de oncologia orientam?

A orientação padrão é remover joias orais antes do início do tratamento. O guia de cuidados com a boca do Memorial Sloan Kettering Cancer Center segue a mesma lógica aplicada a próteses e aparelhos: qualquer peça que irrite a mucosa deve sair, e o que puder ser retirado deve ser retirado. O Better Health Channel, serviço público de saúde do estado de Victoria (Austrália), lista explicitamente quem faz quimioterapia entre as pessoas que não devem fazer piercings, pela imunidade reduzida.

O mesmo raciocínio já é aplicado, na rotina da odontologia oncológica, a aparelhos ortodônticos, próteses removíveis e restaurações com bordas cortantes: tudo que traumatiza a mucosa sai ou é ajustado antes de o tratamento começar.

Quando tirar — e o furo vai fechar?

O ideal é retirar na avaliação odontológica feita 7 a 14 dias antes do início do tratamento, junto com a resolução dos outros focos. Esse intervalo dá tempo para o trajeto do piercing cicatrizar enquanto a imunidade ainda está normal.

Sobre o furo: piercings orais costumam fechar rápido — em dias a semanas, dependendo de há quanto tempo estava colocado. Sim, é possível que ele feche de vez. E sim, isso é chato. Mas a comparação honesta é entre perder um furo e correr risco de uma infecção com neutropenia no meio do tratamento.

Se você não quiser perder o trajeto, converse com o dentista sobre a possibilidade de usar um retentor de material plástico biocompatível durante o período — a decisão depende do local do piercing, do protocolo e do risco de trauma, e não é possível para todos os casos.

E se eu decidir manter?

É a sua boca e a sua decisão. Se optar por manter, avise a equipe de oncologia e o dentista, e observe diariamente:

E redobre a higiene: escova extramacia, bochechos sem álcool e limpeza da joia. O que não vale é manter e não olhar.

Quando posso recolocar depois do tratamento?

A resposta curta: só depois da alta e com a boca cicatrizada. Não existe uma data fixa — depende do tipo de tratamento, da recuperação da imunidade e do estado da mucosa. Quem fez radioterapia na região da boca merece cautela extra, porque o tecido irradiado cicatriza mal por muito tempo, às vezes definitivamente.

A conversa sobre o que pode voltar a ser feito e quando está em quando posso fazer cada procedimento no dentista depois do câncer.

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Entenda o que mais precisa ser resolvido antes em como preparar a boca antes de começar o tratamento do câncer e o que é considerado um risco em o que é foco dentário. Se você ainda não passou por avaliação, a Preparação Pré-Tratamento (PPT) é a porta dessa etapa.

Perguntas rápidas

Preciso tirar o piercing da língua antes da quimioterapia? Na maioria dos casos, sim. O furo é uma porta de entrada para bactérias e o metal traumatiza a mucosa justamente quando ela fica mais frágil. A recomendação é retirar na avaliação odontológica feita antes do início do tratamento.

E piercing na orelha, no nariz ou no umbigo? O raciocínio é o mesmo em relação à infecção, mas fora da boca não há o fator trauma da mucosite. Avise a equipe, mantenha a higiene do local e não faça furos novos durante o tratamento.

Posso fazer um piercing novo durante a quimioterapia? Não. Serviços públicos de saúde listam a quimioterapia entre as contraindicações para piercings, pela queda de imunidade e pelo risco de infecção em uma ferida recém-aberta.

Quando posso recolocar? Depois da alta oncológica, com a imunidade recuperada e a boca cicatrizada, e após conversar com quem acompanha o seu caso. Quem irradiou a região da boca precisa de avaliação individual — o tecido irradiado cicatriza mal por muito tempo.


Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual.

Fontes: NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines (Elad et al., Cancer, 2020); Memorial Sloan Kettering Cancer Center — Mouth Care During Your Cancer Treatment; Better Health Channel (Victoria, Austrália) — Piercings.