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Osteorradionecrose: o que é, quem corre risco e como se previne

Resposta direta

Osteorradionecrose é a morte de parte do osso da mandíbula ou da maxila em uma região que recebeu radioterapia, quando esse osso deixa de cicatrizar. Ela é rara, acontece sobretudo acima de 50 a 60 Gy e é largamente evitável quando a boca é preparada antes do tratamento.

Por Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista bucomaxilofacial · odontologia hospitalar (Albert Einstein) · CRO-PR 16853
Publicado em 19/08/2026 · Atualizado em 19/08/2026

Se você fez radioterapia na região da boca, do rosto ou do pescoço, provavelmente já ouviu essa palavra difícil em algum corredor de hospital — dita em voz baixa, do jeito que se fala de algo que é melhor evitar. Osteorradionecrose.

Ela merece respeito. Não merece pânico. Este texto explica exatamente o que é, quem tem risco de verdade, e — o que mais importa — o que faz ela não acontecer.

O que é osteorradionecrose, em palavras simples?

É quando um pedaço de osso que recebeu radiação para de cicatrizar.

A radioterapia salva vidas mirando as células que se multiplicam depressa. Mas, no caminho, ela também mexe com os vasos sanguíneos minúsculos que alimentam o osso da região. Com menos vasos, chega menos sangue. Com menos sangue, chegam menos oxigênio, menos células de reparo e menos defesa.

O osso continua ali, firme, cumprindo sua função. Só que ele perdeu boa parte da sua capacidade de se consertar. Quando algo o machuca — uma extração, uma prótese que fere, uma infecção de gengiva, às vezes nada identificável — a ferida não fecha. É esse osso que não fecha, exposto na boca por mais de dois a três meses, sem sinal de retorno do tumor, que recebe o nome de osteorradionecrose.

Duas coisas importantes de entender desde já:

  1. Não é o câncer voltando. É uma complicação do tratamento, e o diagnóstico diferencial faz parte da avaliação.
  2. Não é infecção “comum”. A infecção pode se somar, mas a raiz do problema é a irrigação do osso, não a bactéria.

Isso acontece com todo mundo que faz radioterapia?

Não — e essa distinção é o coração do assunto.

A radioterapia só afeta a boca quando o campo de tratamento inclui a região da boca, da cabeça ou do pescoço. Quem faz radioterapia de mama, de pulmão, de próstata ou de pelve não corre risco de osteorradionecrose na mandíbula: o feixe simplesmente não passa por lá. Explicamos isso em detalhe em a radioterapia sempre afeta a boca?.

Mesmo entre quem irradia a região da boca, a osteorradionecrose é incomum. As frequências relatadas variam bastante de serviço para serviço — dependem da dose, da técnica, da região exata e, principalmente, de como a boca chegou ao tratamento. Com as técnicas modernas de radioterapia, que poupam melhor o tecido saudável, os números caíram de forma consistente em relação às décadas passadas.

Que dose aumenta o risco?

O ponto de virada mais citado na literatura está na faixa de 50 a 60 Gy na região do osso. Abaixo disso, o risco é considerado baixo. Acima, ele cresce — e continua crescendo conforme a dose sobe.

Alguns fatores empilham risco em cima da dose:

FatorPor que pesa
Mandíbula (osso de baixo)Osso mais denso e com irrigação menos generosa que a maxila — é onde a maioria dos casos acontece
Dente com infecção não tratada antesFoco ativo dentro de uma área que perdeu capacidade de reparo
Extração feita depois da radioterapiaO trauma mais clássico; por isso a regra é resolver antes
Prótese mal adaptadaMachuca a mucosa todos os dias, em silêncio
Tabagismo e álcoolReduzem ainda mais a irrigação e a cicatrização
Doença periodontal avançadaInflamação crônica no osso irradiado
Quimioterapia concomitantePode somar prejuízo à mucosa e à defesa

Repare no padrão: quase toda a lista é composta de coisas que dá tempo de resolver antes. É por isso que a odontologia oncológica insiste tanto na avaliação prévia.

Quais sinais eu não posso ignorar?

Procure seu dentista — de preferência o que acompanha pacientes oncológicos — se aparecer algum destes:

Nada disso significa automaticamente osteorradionecrose. Boa parte tem causa mais simples. Mas em quem fez radioterapia na região, esses sinais não são para esperar passar.

Como se previne — o plano de verdade

1. Antes da radioterapia: a janela mais valiosa que existe

É aqui que quase tudo se decide. Antes do primeiro dia de radiação, a boca precisa ser vista inteira: radiografia, avaliação de cada dente, da gengiva, das próteses.

O que precisa acontecer nessa fase:

Importante: preparar a boca não é arrancar tudo. Esse mito é tão comum que escrevemos um texto só sobre ele: preciso arrancar todos os dentes antes da radioterapia?. Dente saudável é aliado — inclusive porque manter os dentes preserva o estímulo e a função do osso.

Esse conjunto é exatamente o que a Travessia organiza no Preparo Pré-Tratamento (PPT): olhar a boca inteira antes, para que nada precise virar emergência depois.

2. Durante a radioterapia: proteger o que já existe

O objetivo aqui é atravessar as semanas sem criar feridas novas e sem deixar cárie avançar em boca seca. Flúor diário, higiene delicada e constante, hidratação, controle da mucosite. O passo a passo está no guia da radioterapia na região da cabeça e pescoço.

3. Depois — para sempre, com leveza

Este é o ponto que quase ninguém conta no dia da alta: a boca irradiada precisa de acompanhamento pelo resto da vida. Não porque algo vá dar errado, mas porque o cuidado preventivo é o que mantém tudo no lugar.

Na prática:

E se eu precisar extrair um dente depois da radioterapia?

Não é proibido. É planejado.

O que muda: o dentista precisa saber quanto de dose aquela região recebeu e onde exatamente ficava o campo — informação que está no seu prontuário de radioterapia. Com isso, ele decide entre tratar o dente de outra forma (canal, por exemplo, evitando a extração), ou fazer a extração com protocolo específico, técnica atraumática e acompanhamento próximo.

A pergunta que a gente ouve na sequência costuma ser sobre implante. E a resposta honesta é a mesma que a Dra. Jossânia dá no consultório: depende. Depende da dose, da região, do tempo e do osso. Em parte dos casos o implante em osso irradiado não é indicado — e, quando não é, a reabilitação acontece por outro caminho: prótese, restauração, conforto, função. Reabilitar é sempre possível; o caminho é que é individual. Escrevemos sobre isso em implante dentário depois da radioterapia.

Se acontecer, tem tratamento?

Tem — e a maioria dos casos é conduzida de forma conservadora, sem cirurgia grande.

O manejo costuma envolver higiene rigorosa da área, bochechos antissépticos, antibiótico quando há infecção associada, controle da dor, remoção de fragmentos de osso que se soltam sozinhos e acompanhamento próximo. Casos mais extensos podem exigir procedimentos cirúrgicos e discussão em equipe. Existem ainda protocolos medicamentosos e a oxigenoterapia hiperbárica, cujo lugar exato ainda é discutido na literatura e é decidido caso a caso, em conjunto com a equipe oncológica.

O que não muda em nenhum cenário: quanto mais cedo é identificado, mais simples é o caminho.

Perguntas rápidas

Osteorradionecrose é câncer voltando? Não. É uma complicação do tratamento no osso irradiado. Ainda assim, toda lesão que não cicatriza precisa ser avaliada — e o retorno do tumor sempre é descartado antes do diagnóstico.

Quem fez radioterapia de mama ou de próstata pode ter? Não na boca. Nesses tratamentos o feixe não atinge a mandíbula. A boca dessas pessoas pode ser afetada por outras vias — quimioterapia, hormonioterapia, medicação óssea —, mas não por osteorradionecrose.

Quanto tempo depois da radioterapia o risco existe? Ele não tem prazo de validade. O tecido irradiado permanece com irrigação reduzida, e por isso o cuidado e o acompanhamento seguem por toda a vida. A boa notícia é que a rotina preventiva é simples.

Existe exame que preveja se vou ter? Não existe um teste que preveja. O que existe é controle de risco: dose conhecida, boca preparada antes, higiene mantida, próteses ajustadas, sem cigarro e com acompanhamento regular.

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Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual.

Fontes: NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; Elad et al., Cancer, 2020 — MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines for Mucositis; INCA — Instituto Nacional de Câncer.