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Osteonecrose dos maxilares por medicamento (MRONJ): o que é, quem tem risco e como prevenir

Resposta direta

Osteonecrose dos maxilares por medicamento (MRONJ) é uma área de osso exposto na boca que não cicatriza por mais de oito semanas em quem usa medicação antirreabsortiva ou antiangiogênica. É rara — cerca de 1% a 2% dos pacientes oncológicos — e a avaliação odontológica antes da primeira dose é a principal forma de prevenir.

Por Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista bucomaxilofacial · odontologia hospitalar (Albert Einstein) · CRO-PR 16853
Publicado em 21/07/2026 · Atualizado em 21/07/2026

O que é a osteonecrose dos maxilares por medicamento?

É uma área de osso do maxilar ou da mandíbula que fica exposta na boca — ou que pode ser alcançada por uma sondagem através de uma fístula — e não cicatriza depois de oito semanas, numa pessoa que usa ou usou medicação antirreabsortiva ou antiangiogênica e que não recebeu radioterapia nos maxilares. Essa é a definição usada pela American Association of Oral and Maxillofacial Surgeons (AAOMS), e cada parte dela importa.

A sigla vem do inglês: MRONJ, medication-related osteonecrosis of the jaw. Em português, você vai ouvir “osteonecrose por medicamento”, “osteonecrose dos maxilares associada a medicamentos” ou, em consultas mais antigas, “osteonecrose por bisfosfonato”.

Antes de continuar, uma frase que a gente repete muito no consultório: isso é raro, e é evitável. Ler sobre o assunto costuma dar medo — mas quem chega informado é exatamente quem consegue prevenir.

Por que uma medicação que protege o osso pode machucar o osso da boca?

Parece contraditório, e é a primeira pergunta que quase todo mundo faz.

As medicações antirreabsortivas — bisfosfonatos como o ácido zoledrônico e o pamidronato, e o anticorpo denosumabe — funcionam freando as células que reabsorvem osso. Em quem tem metástase óssea, mieloma múltiplo ou osteoporose, isso é uma proteção enorme: reduz fratura, reduz dor, reduz a necessidade de radioterapia para alívio.

O detalhe é que o osso dos maxilares é diferente de todos os outros ossos do corpo. Ele se renova mais rápido, e está separado do mundo externo por uma camada finíssima de gengiva — com bactérias do outro lado, o tempo todo. Quando esse osso, que já se renova devagar por causa do medicamento, precisa cicatrizar depois de uma extração ou de uma infecção, às vezes ele não dá conta. É aí que a área fica exposta.

As medicações antiangiogênicas (como bevacizumabe e sunitinibe) entram pela outra porta: elas reduzem a formação de vasos novos, e cicatrizar depende de sangue chegando.

Qual é o risco real? (os números, sem drama e sem minimizar)

Aqui é onde a informação honesta muda tudo:

“O risco de 1% a 2% não é motivo para recusar a medicação. É motivo para ir ao dentista antes de começá-la.” — é assim que a Dra. Jossânia costuma resumir a conversa.

A diretriz conjunta MASCC/ISOO/ASCO de 2019 (Yarom et al., Journal of Clinical Oncology) é clara: os benefícios das medicações ósseas em oncologia superam o risco de MRONJ. A pergunta certa nunca é “tomo ou não tomo?” — é “como eu me preparo para tomar com segurança?”.

Quem tem mais risco?

Não é só a medicação. O risco é uma soma:

FatorPor que pesa
Dose oncológica (endovenosa, mensal)Exposição muito maior que a dose de osteoporose
Tempo de uso longo (acima de 2-3 anos)O efeito no osso é cumulativo
Extração dentária ou cirurgia no ossoGatilho mais comum de todos
Doença periodontal, dente com infecção, resto de raizInfecção crônica no osso que já não se renova bem
Prótese mal adaptada que machucaFerida repetida na gengiva
Corticoide, diabetes, tabagismoCicatrização mais lenta
Quimioterapia ou antiangiogênico associadoEfeitos que se somam

Repare que a maior parte dessa lista é modificável. Dente infectado, gengiva doente, prótese que machuca, cigarro — tudo isso é território de trabalho odontológico.

Quais são os sinais para observar?

Antes do osso aparecer, o corpo costuma avisar. Procure a equipe odontológica se notar:

Nenhum desses sinais significa automaticamente osteonecrose — a maioria acaba sendo outra coisa, mais simples. Mas todos merecem ser olhados rápido.

Como se previne de verdade?

Antes da primeira dose (a janela de ouro)

A prevenção mais eficaz acontece antes de a medicação começar. A diretriz MASCC/ISOO/ASCO recomenda avaliação odontológica para toda pessoa que vai iniciar terapia antirreabsortiva, e estudos de programas de prevenção mostram queda expressiva — mais de 50% — na incidência de MRONJ quando esse preparo é feito.

O que se faz nessa janela:

  1. Radiografia panorâmica e exame completo da boca
  2. Extração de dentes sem prognóstico — restos de raiz, dentes com infecção que não tem como salvar — com tempo para cicatrizar (em geral de 2 a 4 semanas antes de iniciar)
  3. Tratamento das cáries e do canal dos dentes que dá para salvar (salvar é sempre melhor que arrancar aqui)
  4. Controle da doença periodontal e limpeza profissional
  5. Ajuste de próteses que estejam machucando
  6. Ensino de higiene e combinação da rotina de manutenção

É exatamente isso que na Travessia chamamos de Plano Pré-Tratamento: organizar a boca antes, para que ela não vire um problema no meio do caminho. Detalhamos o passo a passo em medicação para os ossos: o que resolver antes da primeira dose.

Durante o uso da medicação

Se você já começou, nada está perdido — a maior parte do cuidado continua valendo:

E se a osteonecrose já apareceu, tem tratamento?

Tem. Esta é a parte que quase ninguém conta.

A maioria dos casos é tratada de forma conservadora, com o objetivo de controlar a dor, controlar a infecção e impedir que a área cresça: bochechos antimicrobianos, antibiótico quando há infecção, remoção cuidadosa apenas de fragmentos ósseos soltos, acompanhamento próximo. Em muitos pacientes a região estabiliza e a mucosa recobre o osso com o tempo.

Casos mais extensos podem exigir cirurgia especializada em ambiente hospitalar. E a decisão de suspender ou não a medicação é sempre do oncologista — nunca do dentista sozinho, e nunca do paciente por conta própria.

O que a odontologia oncológica faz aqui é ser a ponte: descrever ao médico exatamente o que está acontecendo na boca, para que a decisão seja tomada com os dois lados da história.

Perguntas rápidas

Se eu já tomo a medicação há anos e nunca fui ao dentista, é tarde? Não é tarde. O maior ganho é ir agora, com o nome e o tempo de uso da medicação anotados. A avaliação vai priorizar o que representa risco de infecção e planejar o resto com calma, junto com o oncologista.

Posso fazer implante dentário tomando bisfosfonato ou denosumabe? Depende — e essa é a resposta honesta. Em dose de osteoporose e com boca saudável, muitas vezes é possível; em dose oncológica, o risco costuma desaconselhar. Só a avaliação individual, com o oncologista na conversa, decide. E quando o implante não é indicado, a reabilitação acontece por outros caminhos: prótese, restauração, conforto.

Osteonecrose por medicamento é a mesma coisa que osteorradionecrose? Não. São primas, não gêmeas. A osteorradionecrose vem da radioterapia na região da boca, cabeça ou pescoço; a MRONJ vem da medicação. Os cuidados se parecem, mas a causa, o risco e o manejo são diferentes.

A medicação para os ossos é a mesma da osteoporose? Muitas vezes é a mesma molécula em dose diferente. Denosumabe em dose oncológica é mensal; em osteoporose, semestral. A diferença de dose muda bastante o risco — por isso o dentista sempre pergunta qual é a sua.

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Entenda o preparo completo em medicação para os ossos e dentes: o que resolver antes da primeira dose e veja o que muda na prática em posso extrair dente tomando bisfosfonato ou denosumabe?.


Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica.

Fontes: MASCC/ISOO/ASCO Clinical Practice Guideline — Medication-Related Osteonecrosis of the Jaw (Yarom et al., J Clin Oncol, 2019); AAOMS Position Paper on Medication-Related Osteonecrosis of the Jaw (Ruggiero et al., 2022); NCI PDQ — Oral Complications of Cancer Therapies; MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines (Elad et al., Cancer, 2020).