Quando o diagnóstico chega, a primeira pergunta é “onde vou me tratar?”. A segunda, quase sempre feita tarde demais, é “e a minha boca, quem olha?”. Este texto responde às duas juntas — porque em Curitiba elas raramente moram no mesmo endereço.
Onde se trata câncer em Curitiba e no Paraná hoje?
O Paraná tem uma rede de alta complexidade em oncologia organizada em hospitais habilitados pelo Ministério da Saúde como CACON (Centro de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia) e UNACON (Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia). Segundo a Secretaria de Estado da Saúde do Paraná, são 24 hospitais habilitados em 15 cidades do estado, e entre janeiro de 2024 e fevereiro de 2026 foram realizadas mais de 25 mil cirurgias oncológicas pelo SUS no Paraná.
Curitiba concentra boa parte dessa rede. Entre os serviços habilitados na capital estão o Hospital Erasto Gaertner (mantido pela Liga Paranaense de Combate ao Câncer), o Hospital de Clínicas da UFPR, o Hospital Pequeno Príncipe (oncologia pediátrica), a Santa Casa de Curitiba e o Hospital Universitário Evangélico Mackenzie. Some-se a isso a rede privada e de planos de saúde, com serviços de quimioterapia e radioterapia espalhados pela cidade.
Nota: a Travessia é um consultório de odontologia oncológica independente. Não somos vinculados a nenhum desses hospitais — as informações acima são públicas e estão aqui para ajudar você a se localizar na rede.
Do ponto de vista de quem está começando, o mapa é mais simples do que parece: onde você faz a quimioterapia ou a radioterapia é onde mora a sua equipe médica. O que quase nunca está no mesmo lugar é o cuidado com a boca.
Por que a boca fica de fora da conta?
Porque historicamente ela nunca entrou nela. A odontologia hospitalar em oncologia é uma área recente no Brasil, e a maior parte dos serviços foi montada sem dentista na equipe. O resultado é conhecido por quem trabalha na área: a pessoa só ouve falar em “cuidar da boca” quando a ferida já apareceu, a alimentação já travou e a sessão já corre risco de ser adiada.
O tamanho do problema está nos números. De acordo com o National Cancer Institute (NCI), cerca de 40% das pessoas que recebem quimioterapia desenvolvem alguma complicação bucal; entre quem faz radioterapia na região da cabeça e do pescoço, o índice ultrapassa 80%; e em transplante de medula óssea passa de 75%. Não é um efeito raro. É a regra.
E há a consequência que mais dói: um foco de infecção dentário que inflama no vale da imunidade pode virar febre, antibiótico e adiamento do ciclo. O tratamento do câncer perde ritmo por causa de um dente que ninguém olhou.
⚠️ Um esclarecimento que repetimos sempre: a quimioterapia afeta a boca em qualquer tipo de câncer — mama, intestino, próstata, pulmão, linfoma, ovário —, porque o medicamento circula pelo corpo inteiro. Já a radioterapia só afeta a boca quando o campo irradiado inclui a região da boca, cabeça ou pescoço. Radioterapia de mama, próstata ou pelve não irradia o osso da mandíbula.
O que perguntar no serviço onde você vai se tratar
Antes de procurar qualquer coisa fora, faça as perguntas dentro. Vale para hospital público ou privado:
- “A equipe tem odontologia?” Alguns serviços têm; vale sempre perguntar, inclusive na enfermagem, que costuma saber melhor do que o balcão.
- “Existe avaliação odontológica prevista antes de eu começar?” Se existir, peça a data. Se não existir, peça o encaminhamento.
- “Meu oncologista pode escrever um encaminhamento para avaliação odontológica?” Um pedido por escrito abre portas e facilita a conversa entre profissionais.
- “Qual é o protocolo e a data prevista de início?” Você vai precisar dessa informação para levar ao dentista.
- “Onde estão meus exames de sangue mais recentes?” Hemograma com plaquetas e neutrófilos é o que define o que pode ser feito na cadeira do dentista.
Se a resposta for “aqui não temos”, isso não é um beco sem saída — é apenas a informação de que essa peça precisa ser buscada por fora. Reunimos o roteiro dessa busca em onde encontrar dentista para paciente com câncer em Curitiba.
Quem cuida da boca em cada etapa — o mapa das três fases
Antes de começar: a preparação
É a etapa de maior impacto e a mais ignorada. O dentista procura o que pode virar problema quando as defesas caírem: raízes com lesão, dentes fraturados, doença periodontal ativa, próteses que machucam. Resolve o que precisa cicatrizar, adia o que pode esperar e ensina a rotina de higiene do tratamento.
O intervalo recomendado é de 7 a 14 dias antes do início, para dar tempo de cicatrização a extrações e procedimentos maiores — a conta completa está em quantos dias antes da quimioterapia preciso resolver os dentes. E se você já começou sem passar por isso, não desista: ainda dá tempo, e a prioridade muda.
Na Travessia, essa etapa se chama Preparação Pré-Tratamento (PPT).
Durante o tratamento: o acompanhamento
A boca muda a cada ciclo. Gosto que some, saliva que reduz, gengiva que sangra, feridas que aparecem e cicatrizam. O acompanhamento serve para ajustar a rotina conforme o corpo responde e para tratar cedo — antes de virar urgência num dia de imunidade baixa.
É aqui que entra a leitura do hemograma: plaquetas baixas e neutrófilos baixos mudam completamente o que pode ser feito naquele dia. É por isso que o profissional precisa conhecer o calendário oncológico, e não apenas a boca.
Na Travessia, essa etapa é o Mãos Dadas.
Depois do tratamento: a reabilitação
Terminado o tratamento, o corpo pede um novo plano: proteger os dentes que ficaram, tratar a boca seca que às vezes não volta ao normal, devolver mastigação e sorriso. Nessa fase, uma regra é inegociável: não existe promessa de implante em osso que recebeu radiação — a decisão depende da dose e da região, e cada caso é analisado por inteiro. Explicamos em implante dentário depois da radioterapia.
Na Travessia, essa etapa é o Meu Melhor Sorriso (MMS).
Um roteiro prático para a sua semana
| Quando | O que fazer | Com quem |
|---|---|---|
| Assim que a data do tratamento for definida | Perguntar se o serviço tem odontologia e pedir encaminhamento | Equipe de oncologia |
| 7 a 14 dias antes de começar | Avaliação odontológica completa com radiografias | Dentista com atuação em odontologia oncológica |
| Véspera da 1ª sessão | Kit da boca em casa e rotina de higiene ajustada | Você e quem cuida de você |
| Ao longo dos ciclos | Consultas de acompanhamento e contato imediato se surgir febre ou ferida | Ambas as equipes |
| Depois da alta oncológica | Plano de reabilitação e proteção dos dentes remanescentes | Dentista + oncologista |
E se eu me trato pelo SUS?
O direito à avaliação existe, mas o caminho é menos automático. Três atalhos que costumam funcionar:
- Peça o encaminhamento por escrito ao oncologista, mesmo que ele não tenha tocado no assunto. O papel move a fila.
- Pergunte na unidade básica de saúde do seu bairro sobre atendimento odontológico prioritário — pacientes oncológicos costumam ter prioridade quando o encaminhamento é apresentado.
- Não espere a dor. Uma avaliação feita cedo custa menos, em todos os sentidos, do que uma urgência no meio do ciclo.
Detalhamos o que a cobertura pública e os planos costumam abranger em SUS e plano de saúde cobrem dentista no tratamento do câncer?.
O que a gente queria que fosse óbvio
Que ninguém começasse a quimioterapia sem alguém ter olhado dentro da sua boca. Que o encaminhamento fosse automático, e não uma iniciativa sua no meio do susto. Enquanto não é, esta é a informação que dá para oferecer: pergunte, peça por escrito, procure cedo — e não aceite começar sem que a boca tenha entrado na conta.
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Veja o panorama por tratamento em preparo da boca por tipo de tratamento: guia comparativo e o passo a passo da consulta em o que levar na primeira consulta com o dentista antes do tratamento do câncer.
Perguntas rápidas
Quais hospitais tratam câncer em Curitiba? Entre os serviços habilitados em alta complexidade na capital estão o Hospital Erasto Gaertner, o Hospital de Clínicas da UFPR, o Hospital Pequeno Príncipe (pediátrico), a Santa Casa de Curitiba e o Hospital Universitário Evangélico Mackenzie, além da rede privada. O Paraná tem 24 hospitais habilitados em 15 cidades.
Os hospitais de oncologia de Curitiba têm dentista na equipe? Nem todos. A odontologia oncológica ainda é o elo mais frágil da rede em boa parte do Brasil. Pergunte diretamente no seu serviço e, se não houver, peça um encaminhamento por escrito para avaliação odontológica externa.
Preciso ir ao dentista mesmo tratando um câncer que não é de boca? Sim, se o tratamento inclui quimioterapia — ela circula pelo corpo todo e afeta a mucosa da boca em qualquer tipo de câncer. Na radioterapia, o efeito na boca acontece quando o campo irradiado inclui a região da boca, cabeça ou pescoço.
Já comecei o tratamento. Ainda vale procurar dentista? Vale. A prioridade muda — em vez de resolver tudo, o foco passa a ser controlar o que representa risco imediato e organizar a rotina de higiene e acompanhamento para os ciclos restantes.
Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual.
Fontes: NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines (Elad et al., Cancer, 2020); Secretaria de Estado da Saúde do Paraná — rede de alta complexidade em oncologia; INCA — Estimativa 2026-2028; Instituto Oncoguia — Atlas de hospitais habilitados.