Em 13 de agosto de 2026, o cantor Netinho, de 60 anos, atualizou os fãs sobre o tratamento que faz contra um linfoma. Ele contou que concluiu a nona sessão de quimioterapia, que as aplicações agora acontecem a cada 15 dias e que, depois de completar as 16 sessões previstas, o plano inclui um transplante autólogo de medula óssea — aquele em que as células vêm do próprio paciente.
Aqui na Travessia não especulamos sobre a saúde de ninguém, e desejamos a ele uma boa travessia. O que a notícia oferece é uma oportunidade de explicar uma etapa que quase ninguém conhece: quando um transplante de medula entra no horizonte, a boca passa a fazer parte do plano — e antes do transplante, não depois.
Por que a boca entra no preparo de um transplante de medula?
Porque o transplante começa com uma fase chamada condicionamento: quimioterapia em doses muito altas, às vezes com irradiação, para “zerar” a medula antes de receber as células novas.
Esse condicionamento não escolhe alvo. Ele atinge todas as células que se renovam rápido — e a mucosa que forra a boca é uma das que mais se renovam no corpo. O resultado é que a boca fica vulnerável exatamente no momento em que a imunidade cai a praticamente zero.
Nessa janela, uma ferida que em outra época cicatrizaria sozinha pode virar uma infecção séria. Não é conforto: é segurança clínica.
Feridas na boca são mesmo tão comuns no transplante?
São. As feridas na boca (mucosite) estão entre os efeitos mais frequentes do TMO. Revisões científicas mostram que elas aparecem em cerca de 80% a 90% do conjunto dos pacientes transplantados, variando conforme o tipo: em torno de 35% a 75% nos transplantes autólogos — quando as células são do próprio paciente — e chegando a 75% a 100% nos alogênicos, com doador.
O NCI PDQ estima complicações bucais em torno de 80% de quem faz transplante de medula, contra 20% a 40% na quimioterapia convencional. A diferença explica por que os serviços de transplante são tão rigorosos com essa etapa.
O guia completo dessa fase está em transplante de medula (TMO) e a boca.
O que a avaliação odontológica resolve antes do condicionamento?
Resolve o que não pode explodir depois. Na prática, ela:
- Identifica infecções ativas — raiz com abscesso, canal antigo com falha, gengiva com doença avançada
- Trata cárie e faz restauração, para que nada evolua durante o período de imunidade baixa
- Avalia extrações necessárias com antecedência, respeitando o prazo de cicatrização antes do condicionamento
- Ajusta prótese que machuca — um ponto de trauma é justamente o que não se quer nessa fase
- Monta o plano de prevenção: higiene adaptada, controle de dor, bochechos indicados pela equipe
As diretrizes internacionais da MASCC/ISOO (Elad et al., 2020) reúnem as medidas com melhor evidência para prevenir e aliviar essas feridas — entre elas a crioterapia oral (chupar gelo durante certas infusões) e a fotobiomodulação com laser de baixa potência, que Zadik e colaboradores (2019) recomendam especificamente para pacientes de transplante que recebem condicionamento com quimioterapia em altas doses.
Sobre a crioterapia, o passo a passo está em chupar gelo durante a quimioterapia; sobre o laser, em laser e fotobiomodulação na boca.
Isso vale só para quem vai transplantar?
Não — e é o ponto que mais gera confusão. A quimioterapia afeta a boca em qualquer tipo de câncer, porque age no corpo inteiro, esteja o tumor no sangue, na mama, no intestino ou no pulmão. O transplante é o cenário de maior intensidade, não o único.
A radioterapia é diferente: ela só atinge a boca quando o campo de tratamento inclui a região da boca, da cabeça ou do pescoço.
Ou seja: quem está em quimioterapia hoje, para qualquer câncer, já tem motivo para ter a boca acompanhada. Quem tem transplante no horizonte tem um motivo a mais — e um prazo.
E entre um ciclo e outro, o que se faz?
Muita coisa. Sessões espaçadas, como as de 15 em 15 dias, abrem janelas úteis: é nelas que se faz limpeza quando o hemograma permite, se ajusta prótese, se trata cárie pequena e se reavalia a mucosa.
O que define o “hoje pode” é o exame de sangue — o raciocínio está em o que é neutropenia e a boca no tratamento do câncer. E o sinal que nunca espera: febre junto com ferida na boca é urgência, como explicamos em febre e ferida na boca na quimioterapia.
Esse acompanhamento no meio do tratamento é o que chamamos de Mãos Dadas.
Perguntas rápidas
Transplante autólogo é mais leve para a boca que o de doador? Costuma ser. As feridas na boca aparecem em cerca de 35% a 75% dos transplantes autólogos, contra 75% a 100% dos alogênicos. Mas “menos frequente” não é “não acontece” — o preparo vale igual.
Dá para fazer extração pouco antes do condicionamento? Depende do tempo disponível para cicatrizar e do estado do sangue. É exatamente por isso que a avaliação precisa acontecer com antecedência, e não na véspera.
Quem já está no meio da quimioterapia ainda dá tempo de procurar o dentista? Dá, e vale a pena. O cuidado se adapta ao momento: o que exige sangramento aguarda o hemograma, o resto começa agora.
Feridas na boca no transplante são inevitáveis? Frequentes, mas não incontroláveis. Existem medidas com evidência para prevenir e aliviar — e elas funcionam melhor quando começam antes, não quando a boca já está ferida.
Continue lendo
- Transplante de medula (TMO) e a boca: o preparo que os hematologistas pedem
- Quimioterapia e a boca: o guia completo
Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo, não comenta o caso clínico de nenhuma pessoa citada e não substitui a avaliação individual.
Fontes: O Tempo — Netinho atualiza estado de saúde após 9ª quimioterapia e cita transplante (15/08/2026); NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; Elad et al., Cancer, 2020 — MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines; Zadik et al., Supportive Care in Cancer, 2019 — MASCC/ISOO photobiomodulation guidelines; INCA.