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Feridas na boca na radioterapia (mucosite): por que aparecem, quanto tempo duram e como aliviar

Resposta direta

Mucosite é a inflamação com feridas que a radioterapia provoca na mucosa quando o campo irradiado inclui a região da boca, cabeça ou pescoço — e atinge quase todas as pessoas nesses casos. Começa por volta da segunda semana, piora até o fim das sessões e cicatriza em 2 a 4 semanas depois.

Por Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista bucomaxilofacial · odontologia hospitalar (Albert Einstein) · CRO-PR 16853
Publicado em 15/07/2026 · Atualizado em 19/07/2026

O que é a mucosite da radioterapia

Mucosite é o nome que a odontologia dá às feridas e à inflamação que surgem na mucosa — a “pele” delicada que forra o interior da boca e da garganta — durante o tratamento do câncer. Na radioterapia, ela aparece quando o feixe de radiação atravessa essa região para chegar ao tumor. A pessoa costuma descrever a boca “em carne viva”, ardência ao comer, dificuldade de engolir e uma sensação de queimadura que piora com alimentos quentes, ácidos ou duros.

É importante começar por uma distinção que muda tudo: a radioterapia só causa mucosite na boca quando o campo irradiado inclui a região da boca, cabeça ou pescoço. Quem faz radioterapia de mama, próstata, pulmão ou abdômen não desenvolve feridas na boca por causa da radiação, porque a mucosa da boca fica longe do feixe. (A quimioterapia é diferente: por circular pelo corpo inteiro, pode causar mucosite em qualquer tipo de câncer — sobre isso falamos no guia da quimioterapia e a boca.)

Quando o campo, porém, passa pela boca, a mucosite é quase uma certeza. Segundo o National Cancer Institute (NCI), praticamente todas as pessoas que recebem radioterapia na região da cabeça e pescoço desenvolvem algum grau de mucosite — é o efeito agudo mais comum desse tipo de tratamento. Saber disso de antemão não é motivo para medo: é o que permite se preparar.

Por que a radiação causa feridas na boca?

A mucosa da boca é feita de células que se renovam muito depressa — trocam-se por completo a cada poucos dias. Essa é justamente a característica que a radioterapia ataca no tumor: células de divisão rápida. O problema é que a radiação não distingue perfeitamente entre as células doentes e as células saudáveis de renovação veloz que estão no caminho. Ao atravessar a boca para atingir o tumor, o feixe interrompe a capacidade da mucosa de se refazer.

Sem essa renovação, a camada protetora vai afinando, inflama e acaba se rompendo em pequenas úlceras. Como a radiação é cumulativa — cada sessão soma dose sobre dose —, a mucosite não aparece no primeiro dia: ela se instala aos poucos, à medida que a conta de radiação vai crescendo. Por isso ela costuma surgir quando o tratamento já está em andamento, e não no começo.

Alguns fatores tornam a mucosite mais provável ou mais intensa: doses mais altas, campos que abrangem uma área maior da boca, radioterapia feita junto com quimioterapia (a combinação, comum em tumores de cabeça e pescoço, agrava o quadro), tabagismo e álcool durante o tratamento, e uma boca que já entrou no tratamento com problemas dentários não resolvidos.

Quando a mucosite começa e quanto tempo dura?

Esta é a dúvida que mais angustia quem está começando — e a resposta ajuda a organizar as expectativas:

Ou seja: a mucosite é dolorosa, mas na maioria das vezes é temporária. Diferente da boca seca ou da fragilidade do osso — que podem acompanhar a pessoa por muito tempo depois da radiação —, as feridas tendem a fechar quando o tratamento acaba. Saber que existe uma linha de chegada faz diferença nos dias mais pesados.

Como se mede a gravidade da mucosite?

Os profissionais usam escalas para classificar a mucosite em graus, geralmente de 0 a 4. De forma simplificada:

GrauComo costuma se manifestar
0Sem sinais de mucosite
1Vermelhidão e ardência leve; a pessoa ainda come normalmente
2Feridas visíveis, mas ainda é possível comer alimentos sólidos com adaptação
3Feridas extensas e dor forte; só alimentos líquidos ou pastosos passam
4Feridas tão graves que a alimentação pela boca fica impossível, exigindo suporte

Essa classificação não é um detalhe técnico à toa: ela orienta as decisões da equipe. Um grau que sobe rápido pode indicar a necessidade de reforçar o controle da dor, ajustar a alimentação ou reavaliar o cuidado da boca. Por isso vale relatar à equipe qualquer piora — não para alarmar, mas para agir a tempo.

O que previne e alivia a mucosite da radioterapia?

Não existe uma fórmula mágica que impeça a mucosite por completo, mas há muito o que fazer para deixá-la mais leve e mais suportável. As recomendações abaixo seguem, em boa parte, as diretrizes internacionais da MASCC/ISOO (a maior referência mundial em cuidado de suporte no câncer, atualizada em 2020) e do NCI.

1. Higiene delicada e constante. Uma boca limpa inflama menos e infecciona menos. A escovação com escova bem macia, feita com cuidado, e a limpeza suave continuam sendo a base de tudo — mesmo (e principalmente) quando a boca dói. Ensinamos o passo a passo em escova e fio dental durante o tratamento.

2. Bochechos suaves e sem álcool. Enxágues frequentes com água e bicarbonato de sódio ou soro fisiológico ajudam a manter a boca úmida e limpa, sem agredir a ferida. Enxaguantes com álcool devem ser evitados, porque ardem e ressecam a mucosa já machucada.

3. Bochecho de benzidamina. As diretrizes MASCC/ISOO recomendam o bochecho de benzidamina para prevenir a mucosite em pessoas que recebem radioterapia de cabeça e pescoço em dose moderada (abaixo de 50 Gy), e o sugerem para quem faz radioterapia combinada com quimioterapia. É uma das poucas medidas com boa evidência específica para esse cenário — sempre com orientação da equipe.

4. Laserterapia (fotobiomodulação). As mesmas diretrizes reconhecem a fotobiomodulação com laser de baixa potência como recurso para prevenir e tratar a mucosite em determinados grupos de pacientes. Explicamos o que a evidência mostra em laser na boca durante o tratamento do câncer.

5. Controle da dor. Mucosite dói de verdade, e sentir dor não é algo a “aguentar calado”. Há desde bochechos anestésicos até analgésicos mais fortes, definidos pela equipe conforme o grau. Dor bem controlada permite continuar se alimentando e hidratando — o que, por sua vez, ajuda a mucosa a cicatrizar.

6. Alimentação adaptada. Nos dias mais difíceis, comidas frias ou mornas, macias e sem tempero forte passam com menos dor: sopas, purês, iogurte, ovos mexidos, frutas macias. Evitar o que é quente, ácido, apimentado, duro ou seco poupa a ferida. Manter a hidratação é essencial.

7. Nada de fumo e álcool durante o tratamento. Ambos agridem a mucosa e atrapalham a cicatrização, além de reduzirem a eficácia da própria radioterapia.

Por que o cuidado começa antes da primeira sessão

Aqui está o ponto que a odontologia oncológica mais defende: a melhor hora de preparar a boca para a mucosite é antes de a radioterapia começar. Uma avaliação odontológica prévia trata focos de infecção, ajusta próteses que machucam, orienta a higiene e monta um plano de bochechos e de acompanhamento. A boca que entra no tratamento saudável atravessa a mucosite com menos complicações — e evita que uma ferida vire uma infecção séria num momento em que o corpo já está sobrecarregado.

Esse preparo é o que chamamos de Preparação Pré-Tratamento (PPT). E o acompanhamento ao longo das semanas de radioterapia — ajustando bochechos, controlando a dor, orientando a alimentação e vigiando a evolução das feridas — é o coração do nosso programa Mãos Dadas. Ninguém deveria atravessar a fase mais dolorida do tratamento sozinho, tateando no escuro.

Para entender como a mucosite se encaixa no conjunto dos efeitos da radiação na boca, veja o guia completo da radioterapia na região da cabeça e pescoço.

Perguntas frequentes

A mucosite vai embora depois da radioterapia? Na maioria dos casos, sim. Como a mucosa volta a se renovar quando as sessões terminam, as feridas costumam cicatrizar em 2 a 4 semanas após o fim do tratamento.

Toda radioterapia dá feridas na boca? Não. Só quando o campo irradiado inclui a região da boca, cabeça ou pescoço. Radioterapia de mama, próstata ou abdômen não causa mucosite na boca.

Posso escovar os dentes com a boca cheia de feridas? Sim, e deve. Com escova extramacia e delicadeza, a higiene mantém a boca limpa e reduz o risco de infecção. Uma boca suja piora a mucosite; uma boca limpa a ajuda a cicatrizar.


Revisado pela Dra. Jossânia, cirurgiã-dentista (CRO-PR), com atuação em odontologia oncológica.

Fontes: National Cancer Institute — PDQ Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines for the Management of Mucositis Secondary to Cancer Therapy (Elad et al., Cancer, 2020).