A boa notícia da semana
O narrador Luís Roberto, voz de 40 anos de Globo, voltou ao trabalho nesta semana depois de concluir o tratamento de um câncer na região cervical — foram cerca de 40 sessões entre radioterapia e quimioterapia em dois meses, segundo ele contou no Domingão com Huck. “Estou a caminho da cura”, disse, emocionado com a “avalanche de carinho” que recebeu.
Desejamos a ele, de coração, uma travessia completa — e que a voz que narrou tantas vitórias narre agora a dele.
Não sabemos os detalhes do caso dele, e não é nosso papel especular. Mas a volta dele levanta uma pergunta que ouvimos todos os dias no consultório: quando o tratamento termina, o cuidado com a boca termina junto?
Por que a boca ainda precisa de cuidado depois da radioterapia?
Primeiro, a precisão de sempre: a radioterapia só afeta a boca quando o campo irradiado inclui a região da boca, da cabeça ou do pescoço — como pode acontecer em tratamentos na região cervical. Radioterapia na mama, na próstata ou no abdômen não atinge a boca. (Já a quimioterapia afeta a boca em qualquer câncer, porque circula pelo corpo todo.)
Quando a região da boca esteve no campo, alguns efeitos não vão embora com a última sessão:
A boca seca costuma ficar mais tempo que o tratamento. As glândulas salivares são sensíveis à radiação, e a produção de saliva pode levar meses para se recuperar — em campos de dose mais alta, parte da recuperação pode ser incompleta. E saliva é proteção: sem ela, cáries e infecções avançam mais rápido (o guia da boca seca está aqui).
A “cárie de radiação” aparece depois — não durante. Ela costuma surgir de 3 meses a 1 ano após o fim da radioterapia, avança rápido e ataca regiões do dente que a cárie comum poupa. Por isso a recomendação internacional inclui flúor de uso diário, por tempo indeterminado, para quem irradiou a região da boca (NCI PDQ).
O osso irradiado exige respeito por anos. A radiação reduz a capacidade do osso da mandíbula e da maxila de cicatrizar. Extrações e cirurgias nessa região passam a exigir planejamento especializado — o maior risco é a osteorradionecrose, mais frequente nos primeiros 3 anos após o tratamento, mas que exige atenção pela vida toda.
A abertura da boca pode diminuir (trismo). A fibrose muscular pode aparecer semanas ou meses depois do fim — e responde bem a fisioterapia e exercícios, principalmente quando detectada cedo.
”E se um dia eu precisar repor um dente?”
É a pergunta mais delicada do “depois” — e merece resposta honesta: depende. O implante em osso que recebeu radiação depende da dose e da região irradiada; em parte dos casos, ele não é indicado — e insistir seria arriscar uma ferida no osso que não cicatriza. Só a avaliação especializada, com o histórico de radioterapia em mãos, pode decidir.
O que podemos afirmar sem medo: reabilitar é sempre possível — o caminho é que é individual. Quando o implante não é o caminho, próteses bem planejadas, restaurações e cuidado contínuo devolvem função, estética e conforto (entenda quando o implante é e não é possível).
O “depois” também se planeja
Terminar o tratamento é uma vitória imensa — e o começo de uma fase que merece plano, não improviso: avaliação completa da boca que atravessou o tratamento, mapa do que precisa de reparo, proteção do que está saudável e vigilância dos efeitos tardios.
É o desenho do nosso MMS — Meu Melhor Sorriso: nem todo mundo precisa de implante, mas todo mundo que terminou um tratamento oncológico precisa de um plano para a boca da nova vida.
Que a volta do Luís Roberto inspire cada paciente que está no meio da própria travessia: o outro lado existe. E a gente cuida de quem está chegando lá.
Perguntas rápidas
Quanto tempo dura o acompanhamento depois da radioterapia? O primeiro ano pede revisões frequentes, e o osso irradiado exige atenção por anos. O intervalo exato é definido caso a caso, conforme dose e região tratada.
Posso extrair dente depois da radioterapia? Só com avaliação especializada — o osso irradiado cicatriza mal e a extração tem risco de osteorradionecrose. Muitas vezes existem alternativas mais seguras.
A boca seca vai melhorar? Pode melhorar gradualmente em 1 a 2 anos quando as glândulas foram poupadas. Enquanto isso, saliva artificial, hidratação constante e flúor diário protegem a boca.
Fontes: NCI PDQ — Oral Complications of Cancer Therapies (cárie de radiação, xerostomia, osteorradionecrose); MASCC/ISOO (Elad et al., 2020); INCA; declarações públicas de Luís Roberto ao Domingão com Huck (Globo, 05/07/2026).