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Lúcio Mauro Filho revelou o câncer cinco anos depois: por que o seu dentista precisa saber, mesmo anos após o tratamento

Resposta direta

Contar ao dentista que você teve câncer muda condutas mesmo anos depois do alta. Quimioterapia, radioterapia na região da boca e medicação óssea deixam efeitos duradouros no osso, na saliva e na cicatrização. Sem essa informação, uma extração de rotina pode virar complicação evitável. Histórico oncológico não tem prazo de validade.

Por Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista bucomaxilofacial · odontologia hospitalar (Albert Einstein) · CRO-PR 16853
Publicado em 24/08/2026 · Atualizado em 24/08/2026

Em agosto de 2026, o ator Lúcio Mauro Filho contou publicamente, numa entrevista, algo que tinha guardado por mais de cinco anos: teve um câncer de intestino descoberto em um exame de rotina feito depois de uma internação por Covid. O tumor foi identificado em estágio inicial numa colonoscopia, foi tratado, e ele segue em remissão. Na ocasião, deixou um recado aos seguidores: façam exames periódicos.

Desejamos a ele uma boa continuidade — e nada aqui é comentário sobre a saúde dele, que só a ele e à equipe dele pertence.

Mas o gesto de ter guardado o diagnóstico abre uma conversa que aparece quase toda semana no consultório, e que quase ninguém teve com alguém: de quem, exatamente, dá para guardar isso?

Guardar é um direito. Só que há uma exceção prática

Contar ou não sobre um diagnóstico é uma escolha íntima, e há centenas de motivos legítimos para não contar — trabalho, filhos, o cansaço de virar assunto, o desejo simples de continuar sendo visto como você e não como um paciente.

A exceção não é moral, é técnica: quem vai mexer no seu corpo precisa saber o que já aconteceu com ele. E isso inclui quem vai mexer na sua boca — mesmo que o tratamento tenha terminado há anos, mesmo que você esteja curado, mesmo que a boca nunca tenha dado problema.

Três coisas que continuam diferentes anos depois

1. Se você tomou medicação para os ossos, o risco não passou com o tempo. Bisfosfonatos (como o ácido zoledrônico) se depositam no osso e permanecem ali por anos após a última dose — o efeito não termina quando a medicação termina. Uma extração feita sem esse dado na ficha pode desencadear osteonecrose dos maxilares (MRONJ). É por isso que a pergunta “você já tomou medicação para os ossos?” precisa ser respondida com o nome do remédio, não com “acho que sim”.

2. Se você fez radioterapia na região da boca, cabeça ou pescoço, o osso mudou de forma permanente. O osso irradiado cicatriza pior — para sempre. A diretriz ISOO-MASCC-ASCO de 2024 recomenda evitar extrações em áreas que receberam 50 Gy ou mais sempre que houver alternativa, exatamente pelo risco de osteorradionecrose, que pode aparecer décadas depois da última sessão. Um dentista que não sabe disso faz uma extração de rotina. Um dentista que sabe faz outra coisa.

Vale a precisão de sempre: radioterapia só afeta o osso da boca quando o campo inclui a região da boca, cabeça ou pescoço. Radioterapia de mama, próstata ou pelve não muda o osso maxilar — entenda a diferença.

3. Se você fez quimioterapia, a saliva e a mucosa podem não ter voltado ao ponto de origem. Boa parte das pessoas recupera. Uma parcela fica com boca seca residual, paladar alterado e maior propensão a cárie — e continua sendo tratada como “paciente de risco baixo” porque ninguém sabe do histórico. O que esperar da recuperação está em quanto tempo a boca volta ao normal.

O que dizer — e como dizer sem precisar contar a história inteira

Você não precisa narrar o diagnóstico, o susto ou o percurso. Precisa entregar quatro dados objetivos, e eles cabem numa frase:

  1. Qual câncer e em que ano.
  2. Quais tratamentos fez — quimioterapia, radioterapia, cirurgia, transplante, imunoterapia.
  3. Se houve radioterapia, em que região — e, se souber, a dose.
  4. Se tomou ou toma medicação para os ossos — nome e período.

Se preferir, escreva num papel e entregue. Muita gente faz isso, e funciona. O importante é que a informação entre na ficha, não que ela vire conversa.

E a pergunta que vem depois: “então nunca mais posso fazer nada?”

Não é isso — e esse mito atrapalha tanto quanto o silêncio. Quem teve câncer pode fazer limpeza, restauração, canal, prótese e, dependendo do caso, muito mais. O que muda é o planejamento, o preparo e, em algumas situações, o local onde o procedimento é feito. O mapa do que pode ser feito e quando está em depois do tratamento, quando posso fazer cada procedimento no dentista?.

Sobre reabilitação, uma honestidade que a gente repete sempre: implante em osso irradiado depende da dose e da região, e em parte dos casos não é indicado. Não existe promessa. Existe avaliação. E existe a certeza de que reabilitar é sempre possível — o caminho é que é individual: quando o implante não entra, entram prótese, restauração e conforto. É o que o Meu Melhor Sorriso constrói, caso a caso.

O outro lado do recado dele

Lúcio Mauro Filho terminou o relato pedindo que as pessoas façam exames periódicos. O câncer dele foi encontrado cedo, num exame que ele fez por outro motivo — e isso mudou o tamanho do tratamento que precisou.

A boca funciona pela mesma lógica. É o lugar do corpo que você consegue olhar sozinho, todo dia, no espelho. Ferida que não cicatriza em duas semanas, mancha branca ou avermelhada que não sai, caroço, dormência, dente que amolece sem motivo — são sinais que pedem avaliação, e estão reunidos em sinais na boca que podem ser câncer. No Brasil, o INCA estima 781 mil casos novos de câncer por ano no triênio atual — e o câncer de boca segue chegando tarde, mesmo sendo dos mais visíveis.

Não é para viver vigiando o espelho. É para não deixar passar.

Perguntas rápidas

Tive câncer há dez anos. Ainda preciso contar ao dentista? Sim. O histórico oncológico não expira — sobretudo se houve radioterapia na região da boca ou medicação óssea. Mais sobre isso em terminei o tratamento há anos: a boca ainda precisa de acompanhamento?.

Meu câncer não foi na boca. Muda alguma coisa? Muda. O que altera a conduta odontológica é o tratamento que você fez, não o órgão onde o tumor estava. Quimioterapia afeta a boca em qualquer câncer.

O dentista precisa falar com meu oncologista mesmo depois da alta? Nem sempre, mas em procedimentos cirúrgicos ou em quem usou medicação óssea, sim. O ponto está em o dentista precisa conversar com meu oncologista?.

Não guardei os documentos do tratamento. E agora? Peça o resumo de alta ao serviço onde se tratou. Para radioterapia, o dado que mais importa é a região irradiada e a dose — e eles constam no plano.

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Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual nem as orientações da sua equipe oncológica.

Fontes: Brasil 247 — Lúcio Mauro Filho revela diagnóstico de câncer no intestino (ago/2026); Watson et al., J Clin Oncol, 2024 — ISOO-MASCC-ASCO Guideline on Osteoradionecrosis; NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; INCA — Estimativa de câncer no Brasil.