Se você começou — ou vai começar — um tratamento com imunoterapia, é provável que já tenha ouvido que ela é “mais leve que a quimioterapia”. Em muitos aspectos, é verdade: a imunoterapia costuma poupar o corpo de vários efeitos clássicos da quimio. Mas “diferente” não é o mesmo que “sem efeito nenhum”. A boca também pode sentir a imunoterapia — só que de um jeito próprio, que vale a pena conhecer para reconhecer cedo e cuidar bem.
Este guia explica, em linguagem simples, o que a imunoterapia pode causar na boca, o que é comum e o que é sinal de alerta — em qualquer tipo de câncer.
O que a imunoterapia faz de diferente da quimioterapia?
A resposta curta: a quimioterapia ataca diretamente as células que se multiplicam rápido (incluindo as da mucosa da boca), enquanto a imunoterapia “solta o freio” do sistema de defesa para que ele mesmo combata o tumor. Por isso os efeitos colaterais são de natureza diferente.
Os medicamentos mais usados são os inibidores de checkpoint imunológico — nomes como pembrolizumabe, nivolumabe, ipilimumabe e atezolizumabe. Eles são hoje usados em uma lista grande de tumores: melanoma, pulmão, rim, bexiga, alguns cânceres de mama, linfomas e vários outros. Ou seja: a imunoterapia não é “de um câncer só” — e o cuidado com a boca também não.
Quando o sistema imune fica mais ativo, ele pode, em algumas pessoas, atacar também tecidos saudáveis. São os chamados eventos adversos imunorrelacionados, que podem aparecer em qualquer órgão — pele, intestino, tireoide, fígado — e também na boca, segundo o Instituto Nacional do Câncer dos EUA (NCI).
Quais efeitos na boca a imunoterapia pode causar?
Os efeitos bucais da imunoterapia são menos frequentes que os da quimioterapia, mas existem e têm cara própria. Para comparar: as feridas na boca (mucosite) atingem cerca de 40% dos pacientes em quimioterapia convencional, segundo o NCI PDQ. Na imunoterapia, as feridas graves são bem mais raras — o que aparece com mais frequência é outro grupo de alterações.
A revisão de referência sobre o tema, publicada por Vigarios, Epstein e Sibaud na Supportive Care in Cancer (2017), descreve os principais achados bucais dos inibidores de checkpoint:
- Reações liquenoides — manchas ou linhas esbranquiçadas, às vezes com áreas avermelhadas ou feridas, que lembram uma condição chamada líquen plano. São o achado bucal mais característico da imunoterapia;
- Boca seca (xerostomia) — relatada em torno de 4% a 7% dos pacientes em estudos com esses medicamentos, em geral leve a moderada, podendo lembrar a síndrome de Sjögren;
- Alteração do gosto (disgeusia) — comida “sem graça” ou com gosto estranho;
- Feridas e inflamação na mucosa — em geral mais leves que a mucosite da quimio, mas que merecem avaliação;
- Reações bolhosas raras — casos incomuns de bolhas e descamação que exigem atenção rápida da equipe.
Importante: a maioria das pessoas em imunoterapia não desenvolve problemas bucais significativos. O objetivo aqui não é assustar — é dar nome aos sinais para que você não os ignore.
Boca seca e mudança de gosto na imunoterapia são comuns?
São os efeitos bucais mais relatados no dia a dia. A boca seca da imunoterapia acontece porque, em algumas pessoas, o sistema imune ativado passa a inflamar as glândulas que produzem saliva — um mecanismo parecido com o da síndrome de Sjögren. O resultado: menos saliva, boca pegajosa, dificuldade para engolir alimentos secos e mais risco de cárie.
A mudança de gosto costuma ser mais discreta que na quimioterapia, mas incomoda: doces que enjoam, carne com gosto metálico, café “diferente”. Na maioria dos casos, melhora com o tempo e com estratégias simples — hidratação constante, saliva artificial quando indicada, temperos naturais para realçar sabor e acompanhamento odontológico para proteger os dentes enquanto a saliva estiver baixa.
Se a boca seca vier acompanhada de olhos secos, vale relatar à equipe: essa combinação pede investigação específica.
Ferida na boca na imunoterapia é sinal de alerta?
Toda ferida que não cicatriza em até duas semanas merece avaliação — em qualquer pessoa, e mais ainda durante a imunoterapia. A diferença é o que ela pode significar: enquanto na quimioterapia a ferida costuma ser mucosite “clássica”, na imunoterapia ela pode ser uma reação imunorrelacionada que pede manejo próprio — às vezes com corticoide tópico, às vezes com ajuste do tratamento, decisão que é sempre da equipe oncológica.
Por isso a regra de ouro é: não trate ferida na boca por conta própria e não espere “passar sozinho”. Fotografe, anote quando começou e avise o time — oncologista e dentista. Reações identificadas cedo são, na grande maioria, controláveis sem interromper a imunoterapia, como reforçam as diretrizes internacionais de cuidado bucal no câncer da MASCC/ISOO.
Preciso ir ao dentista antes de começar a imunoterapia?
Precisa — e o motivo é o mesmo de qualquer tratamento oncológico: entrar com a boca em ordem diminui o risco de complicações no meio do caminho. Um dente com infecção escondida, uma gengiva inflamada ou uma prótese machucando são problemas fáceis de resolver antes, e muito mais incômodos de administrar durante.
Além disso, muitos protocolos combinam a imunoterapia com quimioterapia — e aí valem todos os cuidados da quimio, incluindo a janela de preparo. É exatamente isso que o Preparo Pré-Travessia (PPT) organiza: avaliação completa, resolução dos focos de risco e orientação de cuidado diário antes da primeira dose.
Como cuidar da boca durante a imunoterapia?
O cuidado diário é parecido com o de todo tratamento oncológico — simples, constante e sem exagero:
- Higiene gentil e regular: escova macia, creme dental com flúor, fio dental onde a gengiva permitir;
- Hidratação o dia todo: goles frequentes de água ajudam mais que grandes quantidades de vez em quando;
- Olhar a boca no espelho uma vez ao dia: manchas brancas, áreas vermelhas ou feridas novas são informação valiosa para a equipe;
- Evitar álcool (inclusive em enxaguantes) e cigarro, que irritam a mucosa;
- Acompanhamento odontológico durante o tratamento, para ajustar o cuidado conforme a boca responde.
E o mais importante: comunicação. A imunoterapia é um tratamento em que o corpo “fala” por sinais — e a boca é um dos lugares onde ele fala primeiro.
Perguntas rápidas
A imunoterapia causa as mesmas feridas na boca que a quimioterapia? Não. A mucosite clássica é bem mais comum na quimioterapia (cerca de 40% dos pacientes, segundo o NCI). Na imunoterapia, as alterações mais características são reações que lembram líquen plano, boca seca e mudança de gosto — em geral mais leves, mas que pedem avaliação.
Boca seca na imunoterapia tem tratamento? Tem manejo. Hidratação frequente, saliva artificial quando indicada, flúor para proteger os dentes e, em alguns casos, medicação prescrita pela equipe. O primeiro passo é relatar o sintoma — boca seca não é “detalhe”, é fator de risco para cárie e incômodo real.
Ferida na boca durante a imunoterapia é motivo para parar o tratamento? Na grande maioria dos casos, não. Reações bucais identificadas cedo costumam ser controladas com medidas locais, sem interromper a imunoterapia. Quem decide qualquer ajuste é sempre a equipe oncológica — por isso avise assim que notar.
Imunoterapia é usada só em melanoma? Não. Inibidores de checkpoint são usados hoje em dezenas de indicações — pulmão, rim, bexiga, alguns cânceres de mama, linfomas e outros. O cuidado com a boca vale para qualquer tipo de câncer em tratamento.
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Para comparar com o que acontece na quimioterapia, leia o guia completo da quimioterapia e a boca e entenda a boca seca (xerostomia) no tratamento do câncer.
Se você está em imunoterapia e quer uma boca acompanhada de perto durante toda a travessia, o Mãos Dadas é exatamente isso: cuidado odontológico contínuo, em diálogo com a sua equipe oncológica.
Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica.
Fontes: NCI — Immunotherapy Side Effects; NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; Vigarios E, Epstein JB, Sibaud V. Oral mucosal changes induced by anticancer targeted therapies and immune checkpoint inhibitors (Supportive Care in Cancer, 2017); MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines (Elad et al., Cancer, 2020).