Por que o osso irradiado é diferente
A radioterapia que trata tumores da região da boca, cabeça e pescoço também altera, de forma duradoura, o osso que ficou no campo da radiação: os pequenos vasos que o irrigam se estreitam, e a capacidade de cicatrizar diminui. Mexer nesse osso sem critério pode desencadear a complicação mais temida da área — a osteorradionecrose, em que uma região do osso não cicatriza.
Ela é mais comum na mandíbula, em quem recebeu doses altas de radiação, e a maior parte dos casos acontece nos primeiros três anos após o tratamento. A boa notícia: com avaliação certa e protocolo certo, a reabilitação é possível — e transforma vidas.
Importante: isso vale para radiação na região da boca, cabeça ou pescoço. Quem fez radioterapia em outras partes do corpo (mama, próstata, abdômen) não tem o osso da boca alterado pela radiação.
O que é o protocolo especial
Na Travessia, a reabilitação pós-câncer se chama MMS — Meu Melhor Sorriso, e começa muito antes de qualquer cirurgia:
- Avaliação completa da sua história: qual região foi irradiada, qual dose, quando terminou, como está sua saliva e sua abertura de boca.
- Documentação digital: tomografia 3D para enxergar o osso por dentro, escaneamento da boca (sem massa de moldagem) e do rosto.
- Planejamento no computador: o implante — quando ele fizer parte do plano — é ensaiado digitalmente antes, e a cirurgia é guiada, com o mínimo de trauma ao osso.
- Proteções adicionais caso um procedimento seja inevitável em área de dose alta, seguindo as diretrizes internacionais mais recentes.
Nem todo mundo precisa de implante
Essa é a parte que poucos falam: depois do câncer, o que todo mundo precisa é de um plano — não necessariamente de implante. Às vezes a resposta é uma prótese bem-feita; às vezes é restaurar, tratar a dor, proteger os dentes que ficaram (a boca seca pós-radioterapia pede flúor diário pela vida) e cuidar da abertura da boca com fisioterapia. O objetivo não é um procedimento: é você voltar a comer, sorrir e se reconhecer no espelho.
Perguntas rápidas
Quanto tempo depois da radioterapia posso me reabilitar? Depende do seu caso — da região, da dose e da sua cicatrização. A avaliação individual com imagem 3D é o primeiro passo, sempre em diálogo com seu oncologista.
Extração de dente depois da radioterapia é perigosa? Na área irradiada, exige critério e proteção — por isso o acompanhamento contínuo existe: para evitar chegar à extração. Quando inevitável, há protocolos de proteção descritos em diretriz.
E se eu fiz só quimioterapia? Aí o osso não foi irradiado, e a reabilitação segue com mais liberdade — ainda assim, vale a avaliação completa, porque a quimioterapia e as medicações deixam marcas na boca que merecem cuidado.
Fontes: ISOO/MASCC/ASCO — Diretriz de Osteorradionecrose (2024), MASCC/ISOO, NCI PDQ, INCA.