Posso extrair dente tomando medicação para os ossos?
Pode — mas essa extração precisa ser planejada, e não marcada às pressas. Quem usa bisfosfonato (ácido zoledrônico, pamidronato, alendronato) ou denosumabe tem um osso que se renova mais devagar, e a extração é o gatilho mais frequente da osteonecrose dos maxilares por medicamento.
Isso não transforma a extração em proibição. Transforma em decisão compartilhada.
Porque tem um erro comum do outro lado: adiar indefinidamente uma extração necessária e deixar um dente infectado no lugar. Infecção crônica também é gatilho de osteonecrose. Ficar em cima do muro, nesse caso, não é neutro.
A primeira pergunta: dá para salvar esse dente?
Antes de falar em extração, é isso que se investiga. Em quem usa medicação óssea, a régua muda: vale a pena um esforço maior para manter o dente do que se faria numa pessoa sem essa medicação.
Alternativas que costumam entrar na mesa:
- Tratamento de canal em vez de extração — inclusive em dentes bastante destruídos, mantendo apenas a raiz tratada, sem mexer no osso
- Restauração ou coroa para recuperar função
- Tratamento periodontal para firmar um dente que está mole por doença de gengiva
- Ajuste de prótese que esteja machucando e criando a ferida que preocupa
Se depois disso a extração ainda for o melhor caminho, ela é feita — com cuidado redobrado.
O que precisa acontecer antes da extração
- Saber exatamente a medicação, a dose e o tempo de uso. Denosumabe mensal (dose oncológica) é uma situação; alendronato semanal para osteoporose é outra. Leve a caixa ou a receita.
- Conversa com o oncologista. Sobre o momento do ciclo, sobre exames recentes e sobre a possibilidade — decidida sempre por ele — de ajustar o intervalo da medicação em torno do procedimento.
- Boca controlada antes. Limpeza, controle de infecção e higiene ajustada reduzem a carga bacteriana no local que vai cicatrizar.
- Exame de imagem para planejar a extração menos traumática possível.
Como a extração é feita de forma segura
A diferença está na técnica e no acompanhamento:
- Trauma mínimo no osso, com instrumentos que preservam ao máximo o alvéolo
- Regularização das bordas ósseas para não deixar pontas que impedem a gengiva de fechar
- Sutura fechando completamente a ferida — este é um ponto central: a meta é gengiva cobrindo osso desde o primeiro dia
- Antibiótico e antisséptico conforme a indicação clínica
- Um dente de cada vez, quando possível
- Retorno de acompanhamento até a área estar completamente cicatrizada — não é “tire os pontos em uma semana e sumiu”
Quanto tempo demora para cicatrizar?
Costuma levar mais tempo que o habitual. A referência prática é acompanhar até oito semanas: se depois desse período ainda houver osso exposto ou uma área que não fecha, é isso que caracteriza a osteonecrose e muda a conduta.
A grande maioria das extrações bem planejadas cicatriza normalmente. O acompanhamento existe para pegar cedo a minoria que não cicatriza — e pegar cedo muda o desfecho.
E se eu precisar extrair com urgência?
Acontece: dor forte, abscesso, febre. Nesse caso, a infecção aguda tem prioridade — deixar um abscesso evoluir é mais perigoso que a extração. O que muda é a comunicação: a equipe odontológica avisa o oncologista, faz o procedimento com o cuidado descrito acima e monitora de perto depois.
Se você mora em Curitiba e está nessa situação, conheça o atendimento odontológico para pacientes em tratamento oncológico. E se a medicação ainda não começou, o Plano Pré-Tratamento é exatamente a janela para resolver tudo isso antes.
Perguntas rápidas
Parei o bisfosfonato há dois anos. Posso extrair normalmente? O cuidado continua. O bisfosfonato se deposita no osso e o efeito persiste por anos após a última dose — por isso a informação “eu já tomei” é tão importante quanto “eu tomo”. O denosumabe tem efeito mais reversível, mas a avaliação também é individual.
Meu dentista disse que não pode extrair de jeito nenhum. Isso está certo? Nem sempre. A recusa absoluta costuma vir do desconhecimento do assunto, e deixar um dente infectado tem risco próprio. Vale buscar uma avaliação com quem trabalha com odontologia oncológica e conversa com o oncologista.
Preciso parar a medicação antes da extração? Essa decisão é exclusivamente do médico que prescreveu. Existem situações em que se ajusta o intervalo, e outras em que a pausa traz mais risco que benefício. Nunca suspenda por conta própria.
Vou ficar sem o dente para sempre? Não necessariamente. A reabilitação segue possível — prótese, restauração, e em casos selecionados implante. O caminho é individual e decidido em avaliação, mas voltar a mastigar e a sorrir continua sendo o objetivo.
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Entenda o quadro completo em osteonecrose dos maxilares por medicamento (MRONJ) e veja o preparo ideal em medicação para os ossos: o que resolver antes da primeira dose.
Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica.
Fontes: MASCC/ISOO/ASCO Clinical Practice Guideline — Medication-Related Osteonecrosis of the Jaw (Yarom et al., J Clin Oncol, 2019); AAOMS Position Paper on Medication-Related Osteonecrosis of the Jaw; NCI PDQ — Oral Complications of Cancer Therapies.