O que foi testado
O estudo avaliou um dispositivo de LED usado dentro da boca — uma forma de fotobiomodulação, a mesma família de tratamento do laser já usado em serviços de odontologia oncológica, só que num formato que aplica luz em toda a mucosa de uma vez, em sessões padronizadas.
O desenho foi robusto: ensaio randomizado 1:1, duplo-cego, com procedimento placebo, conduzido em 12 centros de câncer, com 85 participantes completando o protocolo. Todos recebiam radioterapia de intensidade modulada por 6 a 8 semanas, parte deles com quimioterapia concomitante. Os resultados foram apresentados no encontro anual da American Society for Radiation Oncology (ASTRO).
Os números
- Mucosite grave (grau 3 ou 4) na 6ª semana de radioterapia: 36,8% no grupo ativo contra 57,1% no placebo — redução relativa de 36%
- Duas semanas após o fim do tratamento: 10,8% no grupo ativo contra 36,4% no placebo — redução relativa de 70%
- Dor de garganta relatada pelo paciente: 3,8 contra 5,3 (escala de 0 a 10)
- Ardência na boca e garganta: 1,5 contra 2,2 (escala de 0 a 5)
- Necessidade de sonda para alimentação em quem não a tinha antes: 15,2% contra 37%
- Segurança: nenhum evento adverso relacionado ao dispositivo, e 98,3% das sessões concluídas integralmente
Para dimensionar por que isso importa: segundo o National Cancer Institute, praticamente todas as pessoas que recebem radioterapia com a boca dentro do campo desenvolvem alguma alteração bucal. A mucosite grave é a que tira a pessoa da mesa de jantar, obriga a sonda e, em parte dos casos, faz interromper a radioterapia — o que ninguém quer no meio de um tratamento com data para terminar.
O que o estudo não diz
Aqui entra a parte que raramente aparece na manchete, e que é a mais importante.
Não é um estudo sobre todo tipo de câncer. Os participantes recebiam radioterapia de cabeça e pescoço, com pelo menos 50 Gy em duas ou mais regiões da cavidade oral. Radioterapia só afeta a boca quando o campo de irradiação inclui a região da boca, cabeça ou pescoço. Quem faz radioterapia de mama, de pelve ou de outra região não está descrito nesses resultados — o que não significa que a boca dessa pessoa esteja livre: a quimioterapia afeta a boca em qualquer tipo de câncer, e essa é uma via completamente diferente.
Não é um tratamento disponível na esquina. Trata-se de um dispositivo específico, em avaliação, apresentado em congresso. Entre isso e a rotina de um serviço no Brasil existe um caminho de aprovação, custo e disponibilidade.
Não substitui o que já é recomendado. As diretrizes MASCC/ISOO já recomendam a fotobiomodulação em situações definidas, e continuam valendo a higiene bem feita, o preparo da boca antes do início e o acompanhamento durante o tratamento.
O que muda para quem está em tratamento hoje
Muda a direção, não a conduta imediata.
O recado que esse tipo de estudo reforça é que a mucosite não é destino. Durante muito tempo, feridas na boca foram tratadas como preço inevitável do tratamento — algo a suportar. A pesquisa dos últimos anos vem mostrando o contrário: existe prevenção, existe manejo, e a diferença entre atravessar o tratamento comendo ou com sonda muitas vezes está em decisões tomadas antes da primeira sessão.
Se você está começando radioterapia na região da boca, cabeça ou pescoço, o que já está ao seu alcance hoje está em preparo da boca antes da radioterapia e em mucosite na radioterapia. E a fotobiomodulação que já existe na prática clínica brasileira está explicada em laser (fotobiomodulação) na boca.
O preparo antes do início é a Preparação Pré-Tratamento (PPT); o acompanhamento durante as semanas de radioterapia é o Mãos Dadas.
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Perguntas rápidas
Esse aparelho já está disponível no Brasil? O dispositivo do estudo é específico e estava em avaliação clínica. A fotobiomodulação com laser, porém, já é usada em serviços de odontologia oncológica no Brasil, com indicações definidas em diretriz.
Serve para quem faz quimioterapia sem radioterapia? Este estudo avaliou radioterapia de cabeça e pescoço. A fotobiomodulação tem recomendação em outras situações — incluindo transplante de medula com quimioterapia em altas doses —, mas a indicação é caso a caso.
Redução de 70% significa que 70% das pessoas não terão feridas? Não. É uma redução relativa entre os grupos: duas semanas após o tratamento, 10,8% do grupo ativo tinham mucosite grave contra 36,4% do grupo placebo. A mucosite não desapareceu — ficou menos grave em mais gente.
O que eu faço enquanto isso não chega ao meu serviço? O básico segue sendo o que mais muda o desfecho: preparar a boca antes de começar, manter higiene adaptada durante e avisar a equipe assim que aparecer a primeira ferida — não quando ela já impede de comer.
Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual.
Fontes: dados do ensaio clínico NCT03972527 apresentados no ASTRO Annual Meeting e divulgados por Oncology Nursing News; ClinicalTrials.gov — NCT03972527; MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines (Elad et al., Cancer, 2020); NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation.