Uma homenagem
Na semana passada, no dia 8 de julho, o ator Edward Boggiss morreu aos 49 anos. Conhecido por trabalhos como Malhação e Sandy & Junior, ele havia sido diagnosticado em 2024 com um câncer de orofaringe e vinha compartilhando, com coragem, os desafios do tratamento.
Aqui na Travessia, prestamos nossa homenagem — à sua obra e à sua história de enfrentamento — e enviamos todo o carinho à família, aos amigos e a quem foi tocado pelo seu trabalho. Sem qualquer especulação sobre a sua trajetória de cuidado, aproveitamos, com respeito, para explicar uma parte que costuma passar despercebida: o que é o câncer de orofaringe e por que ele pede atenção especial com a boca. É informação que pode ajudar outras pessoas e famílias que atravessam o mesmo caminho.
O que é o câncer de orofaringe?
A orofaringe é a parte da garganta que fica logo atrás da boca. Ela inclui a base da língua, as amígdalas, o palato mole (o “céu da boca” na sua porção mais posterior) e as paredes laterais da garganta. O câncer que surge nessa região é chamado de câncer de orofaringe e faz parte do grupo dos cânceres de cabeça e pescoço.
Por estar exatamente na fronteira entre a boca e a garganta, esse tumor e o seu tratamento mexem diretamente com funções do dia a dia: engolir, falar, sentir sabor — e a saúde da boca.
Quais são os sinais de alerta?
Muitos sintomas do câncer de orofaringe são discretos no início e podem ser confundidos com problemas comuns de garganta. Vale procurar avaliação médica quando há, de forma persistente (mais de duas a três semanas):
- ferida na boca ou na garganta que não cicatriza;
- dor de garganta que não passa;
- dificuldade ou dor para engolir;
- um caroço no pescoço;
- dor de ouvido de um lado só;
- rouquidão persistente;
- sangramento na boca ou perda de peso sem explicação.
A detecção precoce muda o desfecho. Segundo o INCA, boa parte dos cânceres de boca e orofaringe é diagnosticada tardiamente — e quanto mais cedo se descobre, maiores as chances de tratamento com menos sequelas.
Por que o câncer de orofaringe afeta a boca?
Aqui está o ponto que conecta esse câncer ao nosso trabalho. O câncer de orofaringe costuma ser tratado com radioterapia, muitas vezes combinada com quimioterapia (e, em alguns casos, cirurgia). Como o tumor fica na região da boca e do pescoço, o campo da radioterapia atravessa as glândulas de saliva, a mucosa e o osso da mandíbula.
O resultado são efeitos que já explicamos em detalhe no nosso guia completo da radioterapia e a boca:
- boca seca intensa (o fluxo de saliva pode cair em até 90%);
- feridas na boca (mucosite) — segundo o National Cancer Institute, quase todos os pacientes de radioterapia de cabeça e pescoço as desenvolvem;
- cárie de radiação, que avança rápido;
- dificuldade de abrir a boca e osso mais frágil, com risco de osteorradionecrose em doses altas.
É por isso que, nos cânceres da região da boca e do pescoço, o dentista com experiência em oncologia entra na equipe desde o começo — para preparar a boca antes da radiação (a PPT) e acompanhar cada etapa (Mãos Dadas). Vale lembrar a regra que repetimos sempre: a radioterapia só afeta a boca quando o campo inclui a região da boca, cabeça ou pescoço — mas, quando afeta, o cuidado precisa começar cedo.
Uma palavra de cuidado
Notícias como esta costumam despertar medo — e é natural. Se você reconheceu algum sinal persistente em si ou em alguém próximo, o melhor caminho não é o susto, e sim a avaliação: procure um médico. E, se você ou alguém que você ama vai iniciar tratamento para um câncer da região da boca e do pescoço, saiba que a boca pode ser cuidada, protegida e reabilitada em cada fase da travessia.
Que a memória de Edward Boggiss inspire mais gente a procurar ajuda cedo.
Revisado pela Dra. Jossânia, cirurgiã-dentista (CRO-PR), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e de homenagem, sem qualquer afirmação sobre o tratamento específico do ator.
Fontes: National Cancer Institute — PDQ Oral Complications of Head/Neck Radiation; INCA — Diagnóstico precoce do câncer de boca; MASCC/ISOO (Elad et al., 2020); noticiário sobre o falecimento do ator (Terra, CARAS, jul/2026).
Perguntas rápidas
Quais são os principais fatores de risco do câncer de orofaringe? Tabaco, álcool e a infecção pelo HPV, que hoje responde por parte importante dos casos. Sintomas persistentes por mais de duas a três semanas merecem avaliação médica.
O tratamento do câncer de orofaringe afeta a boca? Sim. Radioterapia e quimioterapia nessa região atingem saliva, mucosa, paladar e osso — por isso o dentista integra a equipe desde antes da primeira sessão, como no preparo pré-radioterapia.
Existe prevenção? Reduzir tabaco e álcool, vacinar contra o HPV e procurar avaliação diante de sintomas persistentes ajudam na prevenção e no diagnóstico precoce — quando as chances de cura são muito maiores.