TRAVESSIA odontologia oncológica Agendar

DECH na boca: o que é a doença do enxerto contra o hospedeiro e como cuidar?

Resposta direta

A DECH (doença do enxerto contra o hospedeiro) na boca acontece quando as células do doador reagem contra o corpo de quem recebeu o transplante de medula. Ela pode causar feridas, rendilhado esbranquiçado, boca seca e sensibilidade. Tem manejo — e pede acompanhamento odontológico de longo prazo.

Por Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista bucomaxilofacial · odontologia hospitalar (Albert Einstein) · CRO-PR 16853
Publicado em 07/08/2026 · Atualizado em 07/08/2026

O transplante de medula tem um capítulo que quase ninguém conta antes: o corpo novo precisa aprender a conviver com as células que chegaram. Na maioria das vezes, essa convivência dá certo. Mas, em parte das pessoas, as células de defesa vindas do doador reagem contra os tecidos de quem as recebeu — e a boca é um dos lugares onde essa reação mais aparece.

Essa reação tem nome: doença do enxerto contra o hospedeiro, ou DECH (em inglês, GVHD). Este guia explica, em linguagem simples, o que ela faz na boca, quais sinais observar e como é o cuidado — porque DECH tem manejo, e ninguém precisa atravessar essa fase sozinho.

O que é a DECH e por que ela acontece?

A DECH acontece apenas no transplante com doador (o chamado transplante alogênico) — quando a medula vem de um irmão, de um banco de doadores ou de outra pessoa compatível. As células de defesa do doador, recém-instaladas, reconhecem o corpo novo como “estranho” e reagem contra ele. No transplante autólogo, feito com as próprias células da pessoa, a DECH não ocorre.

Segundo o NCI, a forma crônica da DECH atinge algo entre 30% e 70% das pessoas que recebem transplante alogênico — e a boca está entre os locais mais afetados: estudos citados nas diretrizes internacionais encontram envolvimento oral em cerca de 45% a 83% dos casos de DECH crônica. Ou seja: para quem vive essa condição, olhar para a boca não é detalhe. É parte central do cuidado.

Importante dizer com todas as letras: a DECH não é culpa de nada que a pessoa fez ou deixou de fazer. Ela é uma resposta biológica do enxerto — e, curiosamente, uma dose pequena dessa reação pode até ajudar a combater células doentes remanescentes. O desafio da equipe é equilibrar: conter o excesso sem apagar o benefício.

Quais são os sinais da DECH na boca?

A DECH oral costuma se apresentar de algumas formas — que podem vir juntas ou separadas:

Nenhum desses sinais serve para autodiagnóstico no espelho — vários deles têm outras causas possíveis. O recado é outro: repare e conte. Para a equipe do transplante e para o dentista que acompanha.

Quando a DECH da boca costuma aparecer?

A DECH tem duas formas. A aguda costuma surgir nos primeiros meses após o transplante e afeta mais pele, intestino e fígado. A crônica — a que mais marca presença na boca — costuma se manifestar a partir de alguns meses do transplante e pode durar anos, com fases melhores e piores.

É por isso que o cuidado com a boca depois do transplante não termina na alta: as diretrizes da MASCC/ISOO e do NCI recomendam acompanhamento odontológico de longo prazo para quem recebeu transplante alogênico, mesmo quando está tudo bem. A revisão completa do que muda na boca depois do transplante está em TMO: o transplante de medula e a boca.

Como é o tratamento da DECH na boca?

O manejo é feito a quatro mãos — equipe do transplante e dentista — e é sempre individual. Em linhas gerais, ele combina:

1. Controle da inflamação. A base costuma ser medicação de uso local na boca (como bochechos e géis prescritos pela equipe), que age nas lesões sem sobrecarregar o corpo inteiro. Quando a DECH afeta vários órgãos, a medicação sistêmica que a equipe do transplante já usa também trata a boca.

2. Alívio da boca seca. Hidratação frequente, estímulo da saliva e substitutos salivares, conforme o caso — o roteiro é parecido com o da xerostomia, sempre adaptado.

3. Proteção dos dentes. Com pouca saliva, a cárie avança rápido. Flúor de uso profissional e caseiro, pasta suave e revisões mais frequentes fazem parte do plano.

4. Comer sem sofrer. Ajustes simples — evitar o muito ácido, o muito quente e o muito temperado nas fases ativas — devolvem refeições possíveis enquanto as lesões são tratadas.

O que não fazer: usar pomadas, bochechos ou “receitas” por conta própria. Lesões de DECH pedem diagnóstico — algumas coisas parecidas com DECH são outras condições, e cada uma tem um caminho.

DECH na boca aumenta o risco de câncer bucal?

Esta parte é séria e merece ser dita com cuidado: pessoas que tiveram DECH crônica, especialmente na boca, têm risco aumentado de desenvolver um segundo câncer na cavidade oral ao longo da vida, segundo o NCI. Isso não é motivo para pânico — é motivo para vigilância: exames regulares da boca, feitos por quem sabe o que procurar, pelo resto da vida.

É exatamente o tipo de acompanhamento que transforma um risco em rotina controlada. Quem examina a boca com frequência encontra qualquer alteração no comecinho — e, no comecinho, quase tudo tem solução mais simples. Os sinais que merecem avaliação estão em sinais na boca que podem ser câncer.

Como fica a rotina de cuidado em casa?

A higiene continua sendo a protagonista — adaptada aos dias de sensibilidade:

Perguntas rápidas

Todo mundo que faz transplante de medula tem DECH na boca? Não. A DECH só pode ocorrer no transplante com doador (alogênico) — e, mesmo nele, nem todos desenvolvem. Quando a forma crônica aparece, porém, a boca está entre os locais mais afetados, por isso o acompanhamento é recomendado para todos.

DECH na boca tem cura? A DECH crônica costuma se comportar como uma condição de longo prazo, com fases de atividade e de calmaria. O manejo atual controla os sintomas na grande maioria dos casos e protege dentes e mucosa enquanto a reação se acalma — muitos pacientes ficam livres de sintomas com o tempo.

Posso tratar dente normalmente tendo DECH? Pode e deve — com um dentista que conheça a condição e converse com a equipe do transplante. Alguns cuidados de momento e medicação mudam o planejamento, e as fases ativas pedem escolhas de tratamento mais gentis.

A boca seca da DECH melhora? Em muitos casos, sim — conforme a DECH é controlada, parte da função salivar retorna. Enquanto isso, substitutos de saliva, estímulo salivar e flúor protegem os dentes. O quadro é individual: só o acompanhamento diz o ritmo.

Continue lendo

O panorama do transplante está em TMO: o transplante de medula e a boca, e o mapa completo da fase pós-tratamento em a boca depois do tratamento do câncer: guia completo.

Para quem já atravessou o transplante e quer manter a boca acompanhada — vigilância, conforto e reabilitação no ritmo certo — existe o MMS, nosso acompanhamento de quem venceu.


Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual com a equipe do transplante e o dentista.

Fontes: NCI PDQ — Oral Complications of Cancer Therapies; MASCC/ISOO — Multinational Association of Supportive Care in Cancer; Elad et al., Cancer, 2020 — MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines; INCA.