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Criança em tratamento de câncer: o guia do cuidado com a boca para pais e cuidadores

Resposta direta

A boca da criança em tratamento de câncer precisa de cuidado antes, durante e depois. Durante, o risco maior é mucosite e infecção; depois, o tratamento feito antes dos 3 anos pode afetar dentes que ainda estavam se formando. Avaliação odontológica antes do início e acompanhamento até a vida adulta previnem a maior parte dos problemas.

Por Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista bucomaxilofacial · odontologia hospitalar (Albert Einstein) · CRO-PR 16853
Publicado em 30/07/2026 · Atualizado em 30/07/2026

Por que a boca da criança merece um capítulo próprio

Quando um filho recebe um diagnóstico de câncer, a boca não é a primeira coisa que passa pela cabeça de ninguém — e é compreensível. Mas há uma razão concreta para ela entrar na conversa desde o primeiro dia: a boca de uma criança em tratamento reage de forma diferente da boca de um adulto.

Três diferenças mudam tudo:

  1. A mucosa da criança se renova mais rápido — o que significa que ela é mais atingida pela quimioterapia, e as feridas aparecem mais cedo e com mais intensidade.
  2. Por outro lado, ela também cicatriza mais rápido — a recuperação entre ciclos costuma ser melhor do que no adulto.
  3. Os dentes ainda estão se formando — e é isso que nenhum outro grupo de pacientes enfrenta. O tratamento pode deixar marcas em dentes que sequer nasceram ainda.

Segundo o National Cancer Institute (NCI), a mucosite — as feridas na boca — atinge cerca de 40% dos adultos em quimioterapia convencional, mas os números em crianças são consistentemente maiores, chegando a mais da metade dos pequenos pacientes em muitos protocolos, e passando de 70% nos regimes de altas doses, como os do transplante de medula óssea.

E vale a regra que orienta tudo o que fazemos aqui: a quimioterapia afeta a boca em qualquer câncer. Leucemia, linfoma, tumor de rim, neuroblastoma, tumor ósseo — não importa onde o tumor está. Se há quimioterapia circulando pelo sangue, a boca está no caminho.

Antes de começar: a consulta que muda o resto

A avaliação odontológica antes da primeira sessão é o passo com maior retorno de todos. Não é burocracia. É o que evita que uma infecção adormecida vire uma urgência no pior momento possível — quando a imunidade da criança está no fundo do poço e uma internação atrasa o tratamento do câncer.

O que essa avaliação faz:

A janela ideal é de 7 a 10 dias antes do início do tratamento, para que qualquer procedimento tenha tempo de cicatrizar — o mesmo raciocínio que usamos com adultos. Quando o tratamento é urgente e não há esses dias, a avaliação continua valendo: ela muda o plano, prioriza só o essencial e prepara a família.

Na Travessia, essa preparação é o Protocolo de Preparo para o Tratamento (PPT).

Durante o tratamento: o que fazer todos os dias

Higiene: continuar, sempre, mesmo doendo

Este é o ponto em que mais famílias erram, e por amor — a criança chora, a boca está ferida, os pais param de escovar. Boca suja inflama mais, dói mais e infecciona mais. A escovação não para; ela se adapta.

O passo a passo detalhado da higiene está neste guia.

A linha do tempo: quando a boca costuma doer

Em quase todos os protocolos o padrão se repete:

Período após a sessãoO que costuma acontecer
Dias 0 a 4A boca está relativamente bem. É a janela boa para consultas e cuidados.
Dias 5 a 10As defesas do sangue chegam ao ponto mais baixo (nadir). É quando as feridas aparecem e a dor é maior.
Dias 10 a 21Com cuidado adequado, a mucosa cicatriza antes do ciclo seguinte.

Saber disso muda o clima em casa: a dor da boca tem hora marcada. Dá para se preparar — comida mais macia estocada, agenda mais leve, remédio de dor combinado antes com a equipe.

Comida: adaptar o prato, não convencer a criança

Criança com a boca ferida não come por teimosia — ela não come porque dói. Perda de peso no tratamento é assunto sério, e a boca entra nessa conta.

O que funciona: alimentos macios, mornos ou frios, sem ácido (nada de laranja, abacaxi, tomate ácido), sem crocante (nada de torrada, salgadinho, biscoito duro), sem pimenta. Sorvete, gelatina, purê, iogurte, vitamina, sopa fria. Canudo às vezes ajuda a desviar da área que dói. Mais ideias práticas aqui.

Vale conversar com a equipe sobre o momento do enxágue com gelo (crioterapia) em alguns protocolos, e sobre a fotobiomodulação (laser de baixa potência), que as diretrizes internacionais MASCC/ISOO (Elad et al., 2020) recomendam para prevenir e tratar mucosite — entenda o que é.

Sinais de alerta: quando ligar para a equipe hoje

Estes são os sinais que quem cuida não pode ignorar.

Depois: os efeitos que só aparecem anos depois

Aqui está o que diferencia a criança de qualquer outro paciente, e o motivo de este acompanhamento não terminar na alta.

Quimioterapia e radioterapia agem sobre células que se dividem rápido — e as células que estão construindo um dente se dividem rápido. Quando o tratamento acontece nessa fase, o dente pode se formar diferente: menor, com esmalte mais fino, com raiz mais curta, ou simplesmente não se formar.

Uma revisão sistemática dos efeitos dentários tardios em sobreviventes de câncer infantil encontrou associação consistente entre o tratamento e alterações do desenvolvimento dentário: ausência de dentes (agenesia), esmalte mais frágil (hipoplasia) e raízes encurtadas. Em séries de sobreviventes de leucemia linfoblástica aguda tratados em média aos 5 anos de idade, microdontia (dentes menores que o normal) apareceu em 14 crianças do grupo tratado e em nenhuma do grupo controle, com o mesmo padrão para raízes curtas.

Em levantamentos por dente avaliado, os números giram em torno de 2,5% de agenesia, 4% de microdontia, 3,8% de hipoplasia e cerca de 6% de raízes curtas ou finas.

E o fator de risco mais forte é a idade: quanto mais nova a criança no início do tratamento, maior a chance. Abaixo dos 3 anos (36 meses), o risco de microdontia, agenesia e defeito de raiz é claramente maior — é a fase em que a maior parte dos dentes permanentes está em plena formação.

Se a radioterapia incluiu a região da boca, cabeça ou pescoço, somam-se outros pontos: boca seca duradoura, risco alto de cárie, e — em doses maiores — efeito sobre o crescimento dos maxilares. Esses efeitos seguem a mesma lógica dos adultos irradiados, com a diferença de que o osso e a face ainda estão crescendo.

O que fazer com essa informação

Não é motivo para pânico. É motivo para acompanhamento. Nada disso é imprevisível: dá para monitorar com radiografias periódicas, dá para planejar ortodontia com paciência quando as raízes são curtas, dá para proteger o esmalte frágil com flúor e selante, e dá para reabilitar o que faltou quando a criança crescer.

O que não dá é descobrir aos 15 anos, sem ninguém ter olhado antes.

A régua prática: acompanhamento odontológico a cada 3 a 6 meses durante o tratamento e no primeiro ano depois; depois disso, ao menos uma vez por ano, até a dentição permanente estar completa e o crescimento terminar.

O que dizer para a criança

Uma última coisa, e talvez a mais importante. Criança entende mais do que a gente imagina, e sente o medo do adulto antes de entender a palavra.

Funciona nomear o que vai acontecer, sem drama e sem mentira: “sua boca vai ficar sensível nesses dias, e a gente vai cuidar dela com uma escova bem molinha para ela sarar mais rápido.” Funciona transformar a escovação em rotina previsível, no mesmo horário, com o mesmo ritual. Funciona dar à criança alguma escolha dentro do que não é negociável — o sabor da pasta, a cor da escova, qual música toca enquanto escova.

E funciona, para os pais, saber que você não precisa acertar tudo sozinho. Esse é exatamente o papel de quem acompanha.

Perguntas rápidas

Meu filho pode ir ao dentista durante a quimioterapia? Sim, e deve — com a equipe informada e o exame de sangue em mãos. Procedimentos eletivos costumam ser marcados na janela boa do ciclo (os primeiros dias após a sessão), e urgências são tratadas quando aparecem, com o cuidado necessário.

Dente de leite mole precisa ser arrancado antes do tratamento? Frequentemente sim, quando está muito solto. Um dente prestes a cair é uma porta de entrada para bactérias justamente no período de imunidade baixa. A decisão é individual e cabe à avaliação odontológica antes do início.

Meu filho terminou o tratamento e os dentes parecem normais. Ainda preciso acompanhar? Sim. Muitos efeitos sobre o desenvolvimento dentário só ficam visíveis anos depois, quando os dentes permanentes nascem. O acompanhamento anual até o fim do crescimento é o que permite antecipar e planejar.

Criança pode fazer laser (fotobiomodulação) na boca? Sim, é um recurso usado em pediatria e recomendado pelas diretrizes MASCC/ISOO para prevenir e tratar mucosite. A indicação, a dose e o número de sessões são definidos pelo profissional que acompanha o caso.

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Comece pela preparação da boca antes do tratamento do câncer e veja também como cuidar da boca de quem você ama durante o tratamento.


Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica — Curitiba/PR.

Fontes: NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines for Mucositis (Elad et al., Cancer, 2020); A Systematic Review of Dental Late Effects in Survivors of Childhood Cancer (Gawade et al., Pediatr Blood Cancer); Age is a risk factor for long-term effects of chemotherapy on dental development in childhood cancer survivors; INCA.