Essa pergunta costuma nascer de um comentário solto — alguém no corredor da radioterapia falou que “metal atrapalha”, e a pessoa sai de lá imaginando o dentista arrancando coroas que custaram caro e funcionam bem.
A preocupação tem base física real. A conduta, quase sempre, é outra.
Antes de tudo, a regra que vale para todo o resto: isso só se aplica quando o campo de radiação inclui a região da boca, da cabeça ou do pescoço. Radioterapia de mama, de pulmão, de próstata ou de abdome não irradia a sua boca — e, nesses casos, coroa de metal não muda absolutamente nada.
Por que o metal vira um problema dentro do campo de radiação?
Porque metal é denso. Quando o feixe de radiação atinge uma coroa metálica, parte dos elétrons é espalhada de volta — é o que se chama retroespalhamento (backscatter). O resultado é um aumento localizado de dose exatamente no tecido mole que está encostado no metal: a bochecha, a língua, a gengiva vizinha.
Na prática, isso aparece como uma ferida mais precoce, mais funda e bem delimitada, sempre no mesmo lugar — do lado da coroa, do bloco, da ponte.
A magnitude depende do material. Um estudo de simulação computacional publicado no Journal of Applied Clinical Medical Physics encontrou que próteses fixas totalmente metálicas produziram até 33% de aumento de dose na superfície vizinha, enquanto restaurações com recobrimento cerâmico ficaram em até 8% e restaurações de amálgama não produziram aumento significativo.
Traduzindo: nem todo metal pesa igual. Uma ponte de metal é um problema maior do que uma restauração antiga de amálgama.
Então a solução é remover as coroas?
Raramente. Remover coroa e ponte antes da radioterapia significa mexer em dente que está funcionando, gerar ferida, às vezes indicar extração — e tudo isso com o relógio do tratamento oncológico correndo. O risco pode ser maior do que o benefício.
A conduta mais usada no mundo inteiro é bem mais simples: um protetor bucal individualizado, feito em resina ou material equivalente, que a pessoa coloca durante cada sessão. Ele não bloqueia o tratamento; ele apenas afasta a mucosa do metal.
E existe número para a espessura: entre 3 e 5 mm de material equivalente à água absorvem praticamente todo o retroespalhamento. Não é um palpite de bancada — é a base dosimétrica de por que o dispositivo funciona.
Há literatura comparando as duas estratégias, e ela é honesta dos dois lados: um estudo publicado em 2022 concluiu que substituir a restauração metálica reduz mais a incidência de mucosite do que o protetor, mas ressaltou que a remoção carrega riscos próprios. Ou seja: a resposta correta não é uma regra fixa, é uma avaliação individual — quantas coroas, de que material, onde estão, qual o campo, quanto tempo existe antes da primeira sessão.
O que a avaliação odontológica decide antes de começar
Numa consulta de preparo — o que aqui chamamos de PPT — Preparo Pré-Travessia — o que se define é:
- Onde exatamente passa o campo. Isso vem do radio-oncologista, e muda tudo.
- Que metal existe e onde. Ponte metálica encostada na bochecha é diferente de restauração pequena e afundada.
- Se algum daqueles dentes já era problema — cárie profunda, canal comprometido, doença de gengiva. Aí a conversa deixa de ser sobre metal e passa a ser sobre foco dentário, e a decisão pode ser outra.
- Moldagem do protetor, com tempo para ficar pronto antes da primeira sessão.
- A moldeira de flúor, que costuma ser feita na mesma etapa — veja moldeira de flúor na radioterapia: quem precisa.
Vale marcar uma coisa: o protetor de radiação e a moldeira de flúor são dispositivos diferentes, com funções diferentes. Um protege a bochecha durante a sessão; o outro entrega flúor todos os dias, por anos, contra a cárie de radiação.
E se eu já comecei a radioterapia?
Ainda vale falar. Se apareceu uma ferida sempre no mesmo ponto, sempre do lado de uma coroa, isso tem nome, tem explicação e tem manejo — e um protetor confeccionado no meio do tratamento ainda protege as sessões que faltam. O caminho é a mesma avaliação, com mais pressa. Está descrito em já comecei o tratamento e não fui ao dentista: ainda dá tempo?.
O acompanhamento da boca durante as sessões é o Mãos Dadas.
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Para o panorama completo do preparo, veja preparo da boca antes da radioterapia na região da cabeça e pescoço. Para entender a ferida em si, mucosite na radioterapia.
Perguntas rápidas
Minhas restaurações são de amálgama (aquelas cinzas). Preciso trocar? Pela questão do retroespalhamento, não — o estudo de simulação não encontrou aumento significativo de dose com amálgama. Se a restauração estiver fraturada, com cárie por baixo ou com ponta cortante, aí sim ela precisa ser resolvida, mas por outro motivo.
Tenho implantes de titânio. Vale a mesma coisa? O titânio também espalha radiação, mas ele fica dentro do osso e coberto por gengiva, não exposto como uma coroa. A preocupação principal com implante em osso que vai ser irradiado é outra e está em já tenho implantes dentários e vou fazer radioterapia.
O protetor atrapalha o tratamento do câncer? Não. Ele é feito para não interferir no planejamento — inclusive, quando entra antes da simulação, a equipe de radioterapia planeja já com ele na boca. Por isso a conversa precisa acontecer antes, não depois.
Quem faz esse dispositivo? Um cirurgião-dentista com atuação em odontologia oncológica, em diálogo com a equipe de radioterapia. Não é aparelho de farmácia nem protetor de atleta: é individualizado, com espessura definida para a sua situação.
Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual nem as orientações da sua equipe oncológica.
Fontes: Effect of dental restorations and prostheses on radiotherapy dose distribution: a Monte Carlo study (J Appl Clin Med Phys); Comparison of methods for the handling of metallic dental restorations before head and neck radiotherapy (PubMed, 2022); The Role of Mouthguard Customization to Minimize Risk of Radiation Backscatter (Int J Radiat Oncol Biol Phys); NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation.