TRAVESSIA odontologia oncológica Agendar

Vou fazer terapia CAR-T: preciso ir ao dentista antes?

Resposta direta

Sim. A terapia CAR-T causa queda profunda e prolongada das defesas, e um foco de infecção na boca pode virar um problema sério justamente na fase mais frágil. A avaliação odontológica antes da infusão é recomendada internacionalmente — e a janela costuma ser de poucas semanas, então precisa ser rápida.

Por Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista bucomaxilofacial · odontologia hospitalar (Albert Einstein) · CRO-PR 16853
Publicado em 25/08/2026 · Atualizado em 25/08/2026

A terapia CAR-T mudou o horizonte de muita gente com linfoma, leucemia e mieloma múltiplo. É um tratamento sofisticado: as células de defesa do próprio paciente são coletadas, modificadas em laboratório para reconhecer o câncer e devolvidas ao corpo.

E, como todo tratamento que mexe fundo com o sistema imune, ele tem uma exigência que quase ninguém comenta na consulta: a boca precisa estar em ordem antes.

Por que a boca importa na CAR-T?

Porque o caminho até a infusão passa por uma etapa chamada quimioterapia de linfodepleção — uma quimio dada de propósito para “abrir espaço” e deixar as células modificadas trabalharem. Ela derruba glóbulos brancos e plaquetas. Depois da infusão, muitos pacientes ficam com citopenias prolongadas, ou seja, defesas baixas por semanas ou meses.

Nesse período, três coisas costumam aparecer na boca, segundo a literatura de suporte oncológico:

A isso se soma o que já existia antes e ninguém viu: um dente com infecção crônica que hoje não dói. Em imunidade normal, o corpo contém. Em imunidade zerada, não contém — e uma infecção dentária pode virar uma infecção sistêmica em quem já está em terreno instável.

Não é opinião de consultório. A MASCC/ISOO — a sociedade internacional de cuidados de suporte em câncer — publicou em 2025 um posicionamento clínico específico sobre avaliação e manejo odontológico antes do tratamento de neoplasias hematológicas e da terapia CAR-T. O fato de existir um documento só para isso já diz o quanto o tema saiu do “seria bom” para o “é parte do preparo”.

Qual é a janela de tempo?

Esse é o ponto que muda tudo em relação à quimioterapia comum.

Na quimio convencional, a régua é de 7 a 10 dias antes da primeira dose para que uma extração cicatrize. Na CAR-T, o cronograma costuma ser mais curto e mais rígido: entre a coleta das células e a infusão passam-se, com frequência, poucas semanas — e as datas são definidas pela produção das células, não pela agenda do paciente.

Na prática, isso significa duas coisas:

  1. Não dá para adiar. Se o oncologista falou em CAR-T, a consulta odontológica precisa ser marcada na mesma semana.
  2. A prioridade muda. Não é hora de plano de tratamento ideal. É hora de identificar o que pode virar infecção nas próximas semanas e resolver isso primeiro.

O que o dentista resolve antes da CAR-T?

Prioridade máxima — precisa sair antes:

Segunda prioridade — evita ferida na mucosa:

Não é hora de: clareamento, ortodontia, troca de restauração por estética, implante. Nada disso é urgência, e o tempo é curto.

E se a infusão já estiver marcada para daqui a poucos dias?

Vale ir do mesmo jeito. Mesmo sem tempo para uma extração cicatrizar, três coisas mudam o desfecho:

A lógica de “já começou, ainda dá tempo?” está detalhada em este artigo.

O que levar para a consulta

Três informações mudam completamente a conduta:

  1. A data prevista da infusão e da linfodepleção
  2. O hemograma mais recente — plaquetas e neutrófilos definem o que pode ser feito hoje
  3. A lista de medicamentos, incluindo corticoide, anticoagulante e profilaxias antivirais/antifúngicas

É esse trabalho — ler o cronograma, falar com a equipe hematológica e resolver o que cabe na janela real — que o Preparo Para o Tratamento (PPT) organiza. Numa CAR-T, ele existe para caber em dias, não em meses.

Perguntas rápidas

A CAR-T dá mucosite como a quimioterapia? Pode dar feridas na boca, sim — principalmente pela quimioterapia de linfodepleção e pela imunidade baixa prolongada. A intensidade varia bastante de pessoa para pessoa.

Se eu já fiz transplante de medula antes, o preparo é o mesmo? A lógica é parecida — critério rigoroso, zero foco tolerado —, mas a avaliação é sempre nova, porque a boca mudou desde então. Veja TMO e a boca.

Posso extrair um dente durante a fase de citopenia? Só em caráter de urgência e com aval da equipe hematológica, considerando plaquetas e neutrófilos. Sempre que possível, resolve-se antes.

Meu hematologista não falou em dentista. Preciso mesmo ir? Sim — e não é desautorizar ninguém. A agenda da hematologia é intensa e esse encaminhamento escapa com frequência. O tema está em o oncologista não me encaminhou ao dentista: preciso ir?.

Continue lendo


Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual nem as orientações da sua equipe oncológica.

Fontes: MASCC/ISOO Clinical Practice Statement, 2025 — Dental evaluation and management prior to treatment for hematologic malignancies and CAR T-cell therapy; NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; Elad et al., Cancer, 2020 — MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines for Mucositis.