A terapia CAR-T mudou o horizonte de muita gente com linfoma, leucemia e mieloma múltiplo. É um tratamento sofisticado: as células de defesa do próprio paciente são coletadas, modificadas em laboratório para reconhecer o câncer e devolvidas ao corpo.
E, como todo tratamento que mexe fundo com o sistema imune, ele tem uma exigência que quase ninguém comenta na consulta: a boca precisa estar em ordem antes.
Por que a boca importa na CAR-T?
Porque o caminho até a infusão passa por uma etapa chamada quimioterapia de linfodepleção — uma quimio dada de propósito para “abrir espaço” e deixar as células modificadas trabalharem. Ela derruba glóbulos brancos e plaquetas. Depois da infusão, muitos pacientes ficam com citopenias prolongadas, ou seja, defesas baixas por semanas ou meses.
Nesse período, três coisas costumam aparecer na boca, segundo a literatura de suporte oncológico:
- Úlceras na mucosa (feridas), com dor que atrapalha comer e tomar medicação
- Candidose — o sapinho, infecção por fungo que se aproveita da imunidade baixa
- Reativação de herpes e sangramento gengival ligado às plaquetas baixas
A isso se soma o que já existia antes e ninguém viu: um dente com infecção crônica que hoje não dói. Em imunidade normal, o corpo contém. Em imunidade zerada, não contém — e uma infecção dentária pode virar uma infecção sistêmica em quem já está em terreno instável.
Não é opinião de consultório. A MASCC/ISOO — a sociedade internacional de cuidados de suporte em câncer — publicou em 2025 um posicionamento clínico específico sobre avaliação e manejo odontológico antes do tratamento de neoplasias hematológicas e da terapia CAR-T. O fato de existir um documento só para isso já diz o quanto o tema saiu do “seria bom” para o “é parte do preparo”.
Qual é a janela de tempo?
Esse é o ponto que muda tudo em relação à quimioterapia comum.
Na quimio convencional, a régua é de 7 a 10 dias antes da primeira dose para que uma extração cicatrize. Na CAR-T, o cronograma costuma ser mais curto e mais rígido: entre a coleta das células e a infusão passam-se, com frequência, poucas semanas — e as datas são definidas pela produção das células, não pela agenda do paciente.
Na prática, isso significa duas coisas:
- Não dá para adiar. Se o oncologista falou em CAR-T, a consulta odontológica precisa ser marcada na mesma semana.
- A prioridade muda. Não é hora de plano de tratamento ideal. É hora de identificar o que pode virar infecção nas próximas semanas e resolver isso primeiro.
O que o dentista resolve antes da CAR-T?
Prioridade máxima — precisa sair antes:
- Dente com abscesso, infecção ativa ou raiz residual — o que se chama de foco dentário
- Doença periodontal em atividade, com gengiva inflamada e sangrando
- Cárie profunda com risco de virar infecção durante a fase de citopenia
Segunda prioridade — evita ferida na mucosa:
- Restauração quebrada, dente lascado, borda cortante
- Prótese ou aparelho que machuca a mucosa
- Ajuste da higiene para uma boca que vai ficar sensível e com plaquetas baixas
Não é hora de: clareamento, ortodontia, troca de restauração por estética, implante. Nada disso é urgência, e o tempo é curto.
E se a infusão já estiver marcada para daqui a poucos dias?
Vale ir do mesmo jeito. Mesmo sem tempo para uma extração cicatrizar, três coisas mudam o desfecho:
- Mapear o risco — o hematologista precisa saber se existe um foco e onde ele está, para vigiar e tratar precocemente se der problema.
- Remover o que machuca — bordas cortantes e próteses mal adaptadas viram porta de entrada quando a mucosa está frágil.
- Ensinar a higiene do período — escova macia, técnica sem dor, bochecho seguro. É a medida de maior impacto e a mais barata.
A lógica de “já começou, ainda dá tempo?” está detalhada em este artigo.
O que levar para a consulta
Três informações mudam completamente a conduta:
- A data prevista da infusão e da linfodepleção
- O hemograma mais recente — plaquetas e neutrófilos definem o que pode ser feito hoje
- A lista de medicamentos, incluindo corticoide, anticoagulante e profilaxias antivirais/antifúngicas
É esse trabalho — ler o cronograma, falar com a equipe hematológica e resolver o que cabe na janela real — que o Preparo Para o Tratamento (PPT) organiza. Numa CAR-T, ele existe para caber em dias, não em meses.
Perguntas rápidas
A CAR-T dá mucosite como a quimioterapia? Pode dar feridas na boca, sim — principalmente pela quimioterapia de linfodepleção e pela imunidade baixa prolongada. A intensidade varia bastante de pessoa para pessoa.
Se eu já fiz transplante de medula antes, o preparo é o mesmo? A lógica é parecida — critério rigoroso, zero foco tolerado —, mas a avaliação é sempre nova, porque a boca mudou desde então. Veja TMO e a boca.
Posso extrair um dente durante a fase de citopenia? Só em caráter de urgência e com aval da equipe hematológica, considerando plaquetas e neutrófilos. Sempre que possível, resolve-se antes.
Meu hematologista não falou em dentista. Preciso mesmo ir? Sim — e não é desautorizar ninguém. A agenda da hematologia é intensa e esse encaminhamento escapa com frequência. O tema está em o oncologista não me encaminhou ao dentista: preciso ir?.
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Revisado pela Dra. Jossânia Marcondes, cirurgiã-dentista (CRO-PR 16853), com atuação em odontologia oncológica. Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual nem as orientações da sua equipe oncológica.
Fontes: MASCC/ISOO Clinical Practice Statement, 2025 — Dental evaluation and management prior to treatment for hematologic malignancies and CAR T-cell therapy; NCI PDQ — Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation; Elad et al., Cancer, 2020 — MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines for Mucositis.