“Vou perder todos os dentes antes da radioterapia?” — mito ou verdade?
Mito, na maioria das vezes. O medo é compreensível: muita gente ouve que precisa “resolver os dentes antes da radioterapia” e imagina o pior — sair da consulta sem nenhum dente. Não é assim que funciona. O objetivo da avaliação odontológica antes do tratamento é preservar o máximo possível de dentes saudáveis, e não removê-los por precaução.
Dentes bem cuidados são aliados durante e depois do tratamento: ajudam a comer, a falar e a manter a qualidade de vida num momento já difícil. Ninguém quer tirá-los sem necessidade.
Então quando um dente precisa mesmo sair?
Alguns dentes, sim, é melhor que sejam extraídos antes de a radioterapia começar. São os dentes sem recuperação — aqueles muito comprometidos por cárie profunda, infecção ou doença da gengiva, que provavelmente causariam problema durante ou depois do tratamento.
O motivo é o tempo. Quando a radiação atinge a região da boca, o osso passa a cicatrizar com muito mais dificuldade, e extrair um dente ali depois ganha o risco de osteorradionecrose — uma complicação séria em que o osso não se recupera. Esse risco é maior com doses altas de radiação na área. Por isso, o que precisaria sair “mais para frente” é resolvido enquanto ainda dá para cicatrizar normalmente. Explicamos essa complicação em osteorradionecrose: o que é e como prevenir.
Ou seja: a lógica não é “tirar tudo por segurança”. É tirar o que já está perdido, no momento em que isso ainda é seguro, e proteger todo o resto.
Como o dentista decide, dente por dente?
A decisão é sempre individual e leva em conta a saúde de cada dente, a dose e a região da radioterapia, e as condições de higiene. Dentes saudáveis ou recuperáveis são tratados e mantidos; para eles, monta-se uma proteção específica — orientação de flúor e, muitas vezes, moldeiras de flúor sob medida — para prevenir a cárie de radiação, que a boca seca favorece nos anos seguintes.
Nada disso é decidido no susto. É um plano feito com calma, pensado para que você atravesse o tratamento com a boca protegida e o maior número possível de dentes. Esse é o trabalho da Preparação Pré-Tratamento (PPT), e o quadro completo está no guia de como preparar a boca antes do tratamento do câncer.
Em resumo: perder todos os dentes antes da radioterapia é mito. Perder os que já não tinham recuperação, no momento certo, é o que evita um problema maior lá na frente — e é isso que uma boa avaliação decide, com você.
Revisado pela Dra. Jossânia, cirurgiã-dentista (CRO-PR), com atuação em odontologia oncológica.
Fontes: National Cancer Institute — PDQ Oral Complications of Chemotherapy and Head/Neck Radiation (Health Professional Version); MASCC/ISOO Clinical Practice Guidelines (Elad et al., Cancer, 2020).
Perguntas rápidas
Quantos dentes costumam ser extraídos antes da radioterapia? Só os sem recuperação — muito comprometidos por cárie profunda, infecção ou doença de gengiva avançada. Em bocas bem cuidadas, muitas vezes nenhum dente precisa sair. A decisão é dente a dente, com exame clínico e radiografia.
Quanto tempo antes da radioterapia as extrações precisam acontecer? Em geral, o ideal é concluí-las cerca de 14 dias antes da primeira sessão, para o osso cicatrizar. O prazo exato é combinado entre o dentista e a equipe oncológica.
E se eu não extrair o que foi indicado? Um dente condenado que fica pode causar infecção durante o tratamento ou exigir extração depois — quando o osso irradiado cicatriza mal e o risco de osteorradionecrose é maior. Por isso o momento de resolver é antes.